Um relacionamento fora do seio familiar é uma das mais, senão a mais, importante decisão que tomamos. Não nascemos do ventre de quem escolhemos, não somos "obrigados" a conhecer os defeitos, manias e cacoetes graças à convivência diária. Há a atração física - sejamos práticos, o primeiro sentido que usamos para reconhecer quem nos agrada é a visão; o resto é poesia e roteiro de Nora Ephron - e a primeira patética tentaiva de contato verbal, que vão desde uma piadinha supostamente bem sacada ao "será que vai chover" à guisa de papo. Há a reciprocidade, pois me refiro a relacionamentos que se iniciam; as primeiras conversas mais sérias e os silêncios. O beijo, o primeiro relacionamento sexual e a agradável rotina da descoberta de um mundo novo. Todos que amaram outra pessoa são Américo Vespúcio.
Se há maturidade, descobre-se que a outra pessoa é realmente outra pessoa, com suas idiossincrasias, roncos e tensões pré-menstruais, palitos de dente e cabelos longos no ralo, beijos na nuca e mãos na bunda. Os bem resolvidos mudam o que podem, aceitam o que dá e teorizam as diferenças ora num papo entre dentadas em uma pizza, ora numa briga entre cacos de um copo de requeijão. E vivem uma vida que escolheram ao lado de quem escolheram, com pressões acupunturais de felicidade entre contas e novas obrigações.
O fim desse realcionamento não chega a ser cogitado a sério graças a essas agulhas de sorrisos. Por isso dói tanto quando o fim chega. Os cacos aumentam de quantidade, o sexo só tem sabor se proibido, questões formuladas na época do "benzinho, mozinho" e respondidas com o gugudadá típico tornam-se adultas com a velocidade de vida de uma mosca drosófila. A pressão dessa vida atinge níveis insuportáveis e as agulhas de acupuntura não surtem mais efeito. É preciso uma intervenção cirúrgica e ela se assemelha à da piada: a operação foi um sucesso mas o paciente morreu.
A tristeza e a letargia do "pós- operatório" são conseqüências de uma derrota que demoramos a absorver, pois nos negamos a reconhecê-la. Tudo estava lá: as causas, os efeitos, a profilaxia. Por que optamos pela "simples" separação e seus devastadores efeitos colaterais? Agora aí está você, mergulhado por livre e espontânea vontade no poço da solidão, querendo manter um nível elevado de elegância.
Hoje, graças à banalização do que é brega, aliado ao mal uso dessa verdadeira instituição nacional - se os arautos do "british and american cool" não tivessem vilipendiado o requintado gosto popular da década de 1970, teríamos nossos próprios rhythm and blues e soul music - , temos que nos contentar em ser tristes ouvindo uma bela melodia em uma língua estrangeira ou um grupinho de adolescentes que fazem barulho em cima de uam letra emo. Serve, é claro, mas precisamos ir ao fundo do poço para que possamos reforçar os músculos na volta que sempre damos.
O último romântico, em uma de suas sempre bem feitas letras, vaticinou: as canções mais tolas, tendo seus defeitos, sabem diagnosticar o que dói no peito. Após uma faca tão amolada como a separação, você precisa é cauterizar a ferida com algo nada benevolente. A dor dessa cauterização pode matar alguns neurônios, mas só aqueles que você não vai mais usar. Inclusive os que fizeram você ouvir e quase gostar da tal música.
Tenho algumas sugestões. E não se preocupe. Se o fim é um dos supremos clichês, a volta por cima e o novo dia após o ontem é O supremo clichê.
Quando você se apaixonar de novo, queira sempre se apaixonar de novo.
7.9.07
1.9.07
Três fitas vermelhas
Cinco dias após meus aniversário, reflito sobre tudo o que sempre refleti nessa época do ano. Pensei em postar algo no dia 27 de agosto. Algo rápido e emocional, já que agora escrevo diretamente no quadro de postagens do Blogger, sem direito a revisão e arrependimentos. Decidi não escrever nada; a tal lâmpada da inspiração não brilhou sobre mim. Como estava no meio de minhas férias trabalhistas, saí um pouco para ver o que o mundo tinha a me oferecer. Vi uma senhora quase caindo sobre sua bengala, um carro reluzente buzinando para mim, o sol fazendo marolas de mormaço, gente demais nos bancos da praça. E vi um menino segurando alegremente um pacote azul com detalhes em veremelho e laranja.
Um presente. Segundo os dicionários, além de ser um dos tempos verbais, é uma dádiva, um dom, uma oferenda. Veio até mim os aniversários de minha infância e adolescência. Bolos raros, e geralmente feitos com capricho pela minha mãe com o que tínhamos: trigo, um achocolatado ganhado da patroa dela, um doce de leite feito em casa para rechear, as claras em neve para cobrir (que mané chantili, meu amigo, isso não nos pertencia!). Refrigerantes ainda mais raros, comprados apenas naquelas ocasiões - garrafas de 600 ml da marca Bacana, me lembro bem disso. Agora, presentes...
Não se pode chamar de presente uma compra feita por obrigação paterna e/ou materna, como as indefectíveis roupas e sapatos. Os aniversários eram momentos perfeitos para se comprar essas coisas; dava-se a ilusão de um mimo à imposição, sempre lembrando que "dinheiro não nasce em árvore, por isso cuide bem da bermudinha e da camisetinha!". Por me acostumarem a unir praticidade a algo que deveria ser lúdico me habituei a não ganhar nada de ninguém. As coisas que tive foram sempre recompensas. Fui ao mercado para comprar algo? Toma, um cruzeiro. Trabalhei para ganhar meu próprio dinheiro? Agora posso comprar meu Atari. Já paguei as contas do mês? Beleza, estou liberado para comprar um pacote de cuecas!
Em 2001, esse mundo estéril sofreu uma fecundação inesperada. Trabalhava em uma multinacional fabricante de autopeças (putz, pareço a Rede Globo... não é mais fácil digitar "Trabalhava na Mahle Miba"?). Era mais um operador de produção, trabalhando febrilmente e tentando passar sob o radar do corporativismo. Isso não me impediu de forjar uma boa amizade com as quatro únicas mulheres que trabalhavam no setor que eu estava. Uma ajuda física aqui, um ouvido amigo acolá, risadas fartas. Tudo absolutamente natural. Mas naquele 27 de agosto, elas me aprontaram uma falseta. Me chamaram "para pegar uma caixa de bielas pesadas" e fui surpreendido com saudações de felicidade, paz e bonança e uma sacola. Do lado de fora da sacola, um bilhete com uma fábula sobre as atitudes que tomamos na vida. Dentro, uma camiseta. Não era uma obrigação. Ninguém me disse para tomar cuidado. Era uma dádiva. Quis dizer obrigado, mas a garganta ficou muda e seca como o deserto de Atacama. Fui ao banheiro chorar um pouco.
Meu primeiro presente. A sensação foi assustadora e boa ao mesmo tempo. Uma voz interior, contudo, disse de maneira terna e sábia: "não se acostume". Resolvi ignorá-la e curtir esse turbilhão. A camiseta, furada e puída, ainda está em meu armário e em meu torso.
Mas a voz não tinha se enganado. E após o nascimento, o mundo infértil voltou a aflorar. Nada que me angustiasse; já sabia o sabor do presente ganho, o hedonismo do embrulho caprichado. Se um dia eu ficasse triste, bastava a camiseta em mim e todas as lembranças me inebriavam. Só que não houve tempo hábil para a desertificação total.
No dia 24 de fevereiro, último dia de minha estada em Porto Alegre, Fernando, meu anfitrião, enquanto conversávamos sobre o quanto aqueles dias tinham sido bons (estou sendo econômico... foram sensacionais!), do nada resolveu me dar um dos livros de sua estante: "Devassos no paraíso", de João Silvério Trevisan. E com uma dedicatória! Consegui dizer "obrigado", mas achei insuficiente. Não consegui dizer mais nada e agarrei aquele livro, imaginando se aquilo era apenas uma névoa onírica ou real. No mesmo dia, fui me despedir do grande Janio e entre abraços e promessas ele me deu MAIS UM LIVRO! Graças a uma noite de pequenos toques nos pés, ele me deu "O novo livro de massagem", de Lucy Lidell, "para que pudesse aperfeiçoar a técnica".
Três presentes. Três dádivas. Dar presentes é algo que não me é estranho. Mas recebê-los é de um ineditismo delicioso. As lembranças que eles proporcionam são vívidas demais. E não me importa mais a voz da razão me dizendo para não me acostumar. Basta que eu abra meu armário ou leia e sinta o cheiro do papel. Bastam o momento fugaz e a lembrança perene.
Feliz aniversário, Sidnei.
Um presente. Segundo os dicionários, além de ser um dos tempos verbais, é uma dádiva, um dom, uma oferenda. Veio até mim os aniversários de minha infância e adolescência. Bolos raros, e geralmente feitos com capricho pela minha mãe com o que tínhamos: trigo, um achocolatado ganhado da patroa dela, um doce de leite feito em casa para rechear, as claras em neve para cobrir (que mané chantili, meu amigo, isso não nos pertencia!). Refrigerantes ainda mais raros, comprados apenas naquelas ocasiões - garrafas de 600 ml da marca Bacana, me lembro bem disso. Agora, presentes...
Não se pode chamar de presente uma compra feita por obrigação paterna e/ou materna, como as indefectíveis roupas e sapatos. Os aniversários eram momentos perfeitos para se comprar essas coisas; dava-se a ilusão de um mimo à imposição, sempre lembrando que "dinheiro não nasce em árvore, por isso cuide bem da bermudinha e da camisetinha!". Por me acostumarem a unir praticidade a algo que deveria ser lúdico me habituei a não ganhar nada de ninguém. As coisas que tive foram sempre recompensas. Fui ao mercado para comprar algo? Toma, um cruzeiro. Trabalhei para ganhar meu próprio dinheiro? Agora posso comprar meu Atari. Já paguei as contas do mês? Beleza, estou liberado para comprar um pacote de cuecas!
Em 2001, esse mundo estéril sofreu uma fecundação inesperada. Trabalhava em uma multinacional fabricante de autopeças (putz, pareço a Rede Globo... não é mais fácil digitar "Trabalhava na Mahle Miba"?). Era mais um operador de produção, trabalhando febrilmente e tentando passar sob o radar do corporativismo. Isso não me impediu de forjar uma boa amizade com as quatro únicas mulheres que trabalhavam no setor que eu estava. Uma ajuda física aqui, um ouvido amigo acolá, risadas fartas. Tudo absolutamente natural. Mas naquele 27 de agosto, elas me aprontaram uma falseta. Me chamaram "para pegar uma caixa de bielas pesadas" e fui surpreendido com saudações de felicidade, paz e bonança e uma sacola. Do lado de fora da sacola, um bilhete com uma fábula sobre as atitudes que tomamos na vida. Dentro, uma camiseta. Não era uma obrigação. Ninguém me disse para tomar cuidado. Era uma dádiva. Quis dizer obrigado, mas a garganta ficou muda e seca como o deserto de Atacama. Fui ao banheiro chorar um pouco.
Meu primeiro presente. A sensação foi assustadora e boa ao mesmo tempo. Uma voz interior, contudo, disse de maneira terna e sábia: "não se acostume". Resolvi ignorá-la e curtir esse turbilhão. A camiseta, furada e puída, ainda está em meu armário e em meu torso.
Mas a voz não tinha se enganado. E após o nascimento, o mundo infértil voltou a aflorar. Nada que me angustiasse; já sabia o sabor do presente ganho, o hedonismo do embrulho caprichado. Se um dia eu ficasse triste, bastava a camiseta em mim e todas as lembranças me inebriavam. Só que não houve tempo hábil para a desertificação total.
No dia 24 de fevereiro, último dia de minha estada em Porto Alegre, Fernando, meu anfitrião, enquanto conversávamos sobre o quanto aqueles dias tinham sido bons (estou sendo econômico... foram sensacionais!), do nada resolveu me dar um dos livros de sua estante: "Devassos no paraíso", de João Silvério Trevisan. E com uma dedicatória! Consegui dizer "obrigado", mas achei insuficiente. Não consegui dizer mais nada e agarrei aquele livro, imaginando se aquilo era apenas uma névoa onírica ou real. No mesmo dia, fui me despedir do grande Janio e entre abraços e promessas ele me deu MAIS UM LIVRO! Graças a uma noite de pequenos toques nos pés, ele me deu "O novo livro de massagem", de Lucy Lidell, "para que pudesse aperfeiçoar a técnica".
Três presentes. Três dádivas. Dar presentes é algo que não me é estranho. Mas recebê-los é de um ineditismo delicioso. As lembranças que eles proporcionam são vívidas demais. E não me importa mais a voz da razão me dizendo para não me acostumar. Basta que eu abra meu armário ou leia e sinta o cheiro do papel. Bastam o momento fugaz e a lembrança perene.
Feliz aniversário, Sidnei.
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