2.12.07

O referido é saudade e dou fé

Sinto saudade da rua Projetada. Visto com os olhos de hoje essas lembranças parecem vindas de uma realidade alternativa, mas minha rua, assim como muitas, antes de ter um nome oficial se chamava apenas Projetada. A terra avermelhada batida onde, para desespero das mães, eu e muitas outras crianças jogávamos bola, brincávamos de pique-esconde, mãe-da-rua ou balança-caixão (e se você não sabe do que estou falando, jogue isso no Google e descubra). As touceiras de capim-gordura, os cheiros da poeira e da chuva, puros e sem aditivos, os coquinhos de indaiá. As casas separadas por cercas de bambu amarradas precariamente e os vizinhos com seus comentários "sábios" sobre a vida, emaranhados de lugares-comuns ora bem vindos, ora amaldiçoados. Uma compreensão geográfica limitada mas compensada com toneladas de imaginação.
Sinto saudade dos programas de rádio que era obrigado a ouvir. Zé Bettio e seu arsenal de músicas caipiras, e uma provocação pessoal (pelo menos para mim era MUITO pessoal) que ele fazia depois de chamar a vaca Mimosa: não havia um mísero dia em que ele não falasse pra nonna (quem era essa tal nonna, perguntava eu para mim mesmo antes de descobrir o que era essa palavra) jogar água no gordo! Eli Correa e seu bordão "oooooooooi, geeeeeenteeeeeee!", seu populismo e suas histórias tristes. Lá ouvia-se muito Fernando Mendes, Márcio Greyck, Paulo Sérgio e Roberto Carlos. O terror dos terrores, Gil Gomes e sua voz aterrorizantemente anasalada a narrar as agruras do mundo cão, o preferido do meu pai e claro, meu preferido, "A volta do sucesso", com Altieris Barbiero, o principal responsável por amar tardiamente a Jovem Guarda.

Sinto saudade do forno de barro em meu quintal. Os pães feitos naquele forno eram deliciosos. Demandavam cuidado artesanal, como tudo na longínqua década de 1970, onde quem era pobre tinha que se virar e o fazia magistralmente - diferente de hoje, mas abafa o caso - : deixar a massa homogeneizada com força e carinho crescer debaixo de uma manta Parahyba, cortar pedaços cuidadosos e deitá-los em folhas de bananeira que iam ao forno previamente aquecido - não, não se ligava o gás, crianças; acendia-se a lenha - e aí esquecíamos um pouco dos bolinhos, que logo viravam pães dourados, macios e insequecíveis.
Sinto saudade da minha classe de primeira série na EEPG Benedita Wagner de Campos. Ficava perto do pátio da merenda, longe de todas as outras. Era uma bobagem, mas dava uma impressão de exclusividade... foi lá que aprendi a escrever, pois ler eu já sabia. Dona Sandra (não, ela não era minha tia) trazia letras de mão pontilhadas para que eu pudesse exprimir o que eu já sabia interpretar com os olhos. O DNA de minha letra veio de um capricho de um professora, veja você.
Sinto falta dos especiais do Roberto Carlos da década de 1970. Talvez fossem as músicas, numa fase onde ele não era o pastiche autoritátio de hoje. Talvez fosse a mão do finado Augusto Cesar Vannucci. Talvez fosse a inexistência de concorrência. Não sei. Mas eu adorava ver aqueles proto-videoclipes.
Sinto falta dos videoclipes. Desde aqueles do Fantástico, onde sempre apareciam os olhos de quem estavam cantando num close, se movimentando da direita para a esquerda, passando pelos clipes do programa Clip Trip da TV Gazeta (moderno até a medula! Via desde pérolas do britpop até o início do rap mainstream) e os bonecos da cópia da Globo, o Clip Clip, inventor da nefasta mania de editar os vídeos. Sonhava em assistir à MTV, mas as antenas de UHF não pegavam bem aqui na cidade.
Sinto falta da She-Ra e do He-Man. Do Pernalonga e do Patolino. Dos Trasnformers. Dos Thundercats. Do Toro e do Pancho. Da Cobrinha Azul. Da Super Máquina, mas não do David Hasselhoff - acredite, gostava do Kitt por causa da voz do Isaac Bardavid. Do Cannon. Da Dama de Ferro. Das Sessões da Tarde com filmes da década de 1950 e 1960. Dos filmes de Jerry Lewis e do Elvis. Deus meu, sinto falta até do Bozo!





1.12.07

Makin' it!

Quem nasce em berço de madeira tem uma vida pragmática. Depois que se tem consciência de como é o mundo em que fomos inseridos (quem mandou sairmos do líquido amniótico com tanto afã, só para depois chorarmos de arrependimento logo após?), trabalhamos, bebemos, contamos moedas para comer arroz, trocar as cuecas (sou um ser humano do sexo masculino sem tendências para ser crossdresser, por isso não vou emular uma dualidade politicamente correta aqui) e tomar uam cachaça, dançamos na proverbial corda-bamba de quem foi classificado como sendo das classes D e E e dormimos exaustos ao fim da luz solar. Não sei como os meus pares fogem da realidade por alguns instantes catárticos. Eu tinha várias válvulas de escape, nenhuma psicotrópica. Ler tudo o que me aparecia - bulas de remédio incluídas - , escrever poemelhos em cadernos, imaginar amigos. E assistir a alguns programas de tevê.

O que mais me afastava de minha realidade era um sujeito que regava as futilidades com uma urgência de água em deserto e que me ensinou que no mundo também existiam pessoas que não se incomodam em pagar um mês de meu salário em um par de meias, desde que elas sejam de grife. No início da década de 1980, conheci Amaury Jr. e seu mundo estranho de nomes pretensamente chiques.

Foi lá que descobri o dólar como moeda e não apenas como personagem de filme. Nos áureos tempos, tudo o que ele falava - a palavra merchandising não fazia parte de meu vocabulário - era cotado em dólar. Os tais champanhes, opa, espumantes... desculpem-me, vitivinicultores da cidade de Champagne com nomes estranhos como Veuve Cliquot (eu, hein, uma bebida com nome de viúva!) e Mumm, os cigarros absolutamente fabulosos que ele fumava durante as entrevistas - que mané câncer de pulmão, o que importava era parecer elegante com aquele trem cilíndrico e fumacento entre os dedos - e as marcas tão chamativas e sempre em Inglês, as roupas que não serviam apenas para cobrir nossa nudez. Hugo Boss, Valentino, Zegna, Armani eram um estilo de vida, a materialização de Deus ligados por linhas e agulhas!

E as festas? Gente sobre as quais nunca ouvi dizer, mas que eram importantíssimas, sumidades de... do... da..., enfim, Amaury dava a impressão de ter sido gêmeo univitelino do entrevistado, que sempre soltava uma pérola da humanidade, a frase mais entrecortada por interrupções desde a invenção dos talk-shows brasileiros. Era maravilhoso ver toda aquela futilidade sendo dita com tanta veemência e verdade entre ternos e vestidos, bebidas e canapés.

Desde quando se chamava Flash nas tevês Gazeta, Bandeirantes e Record, acompanho a, digamos, evolução do programa. Do início tímido, onde ele mostrava festas do jet-set até hoje, onde ele mostra, hã, festas do jet-set com verniz de "eventos culturais", com lançamentos de livros seminais de auto-ajuda ou o trabalho de cão de um ghost writer para publicar uma interessantíssima biografia autorizada ou lançamentos de lojas modestas de marcas modestas de carros - Maserati, Lamborghini -, é divertido ver que gente com dinheiro só tem isso a mais que eu mesmo: dinheiro. Alguns, sejamos justos, têm conteúdo, mas eles se tornam chatos diante da diversão de ver, por exemplo, dicas de restaurantes charmosos quando eu viajar para Nova Iorque ou Dubai ou Berlim, ou que atitudes tomar em um jantar com o CEO de uma multinacional quando eu for convidado por aquela pessoa de hábitos simples (só tomar água Evian, por exemplo).

E pra tornar tudo ainda mais divertido, musicalmente o mundo parou na década de 1980. A começar pela vinheta oficiosa do programa, "Keep it comin' love", do KC and the Sunshine Band e terminando com o caça-ní..., quero dizer, CD lançado à guisa de trilha sonora. Por causa desse disco tenho que agradecer ainda mais o menino, por me fazer lembrar de algo que meu cérebro guardou sem muitos detalhes, exceto a música antes desconhecida.

1979. Estava eu num lugar chamado Cidade dos Menores de Campinas, há mais de seis meses quando os diretores decidiram que nos dariam de presente uma "excursão". Excitados, lotamos, eu e todos os meninos que estavam lá, dois ônibus e uma perua em direção ao resstaurante Frango Assado da rodovia dos Bandeirantes. Foi uma farra; comida até dizer chega, um saco enorme cheio de guloseimas e brinquedos e um cara em frente a um toca-discos - mais tarde saberia que aquele sujeito era um "DJ" - e uma mesa de som. Ele me chamou, colocou os fones de ouvido em mim, grandes e pretos, colocou um disco de vinil com a palavra Philips escrito e fui inundado pelo som como nunca antes. Ele me deixou ouvir a música inteira e depois retomou o controle dos fones. Bocó como sempre fui, nem me dei ao trabalho de perguntar que música era aquela e quem cantava.

Obrigado, Amaury. Agora a música tem nome, voz, dono e pode fazer parte de minhas vívidas memórias daquele período. Agora posos dizer a quem me critica quando digo que assisto seu programa com finalidades sociológicas que, além de saber nomes de grifes, descubro canções perdidas em meu obscuro baú de recordações. No more, no more fakin' it!


Escrita ao som de Anamar e Brad Sucks, além da música acima.