18.11.07

Vozes, latidos e miados

Muitas pessoas adoram seus animais de estimação. Algumas a ponto de fazer dos pobres versões peludas dos seus filhos. Tomo como exemplo meu tio e seus cães e gatos. Não, ele não tem vários no quintal; me refiro a todos os animais desde meus tenros anos (mais precisamente desde 1973, o primeiro ano que me lembro de existir). Ele nunca se ateve ao princípio da posse responsável, termo que aprendi lendo uma revista (acho que a Vida Simples). Todos os pobres animais, sem exceção, adquiriram alguma "psicose". Ou urinavam e defecavam em lugares inapropriados (um gato achava que debaixo de minha cama havia uma caixa de areia. Toda noite tinha que limpar e desinfetar o local), ou uivavam sôfregamente na ausência de meu tio pra mais tarde ganirem alto e irritantemente quando ele chegava, ou destruíam algo no quintal - já tivemos a fase dos chinelos, a fase das roupas no varal, a fase dos vasos de comigo-ninguém-pode (ah, podem, sim)... - , entre outras atitudes. Como meu tio nunca prezou pela constância, ele agia com os animais de acordo com a fase da lua. Ora extremamente benevolente, permitindo que os cães e gatos dormissem em sua cama, ora desmedidamente cruel, como deixá-los sem água e comida por períodos longos "de castigo".

Dia desses, num dos monólogos entre ele e eu (ele fala. Pra caramba. E eu ouço. Murmurando duas ou três frases), ele comparou o atual bichinho dele - um vira-lata de pêlos pretos de nome Braddock, vê se pode - a um filho que ele jamais teve. Um companheiro fiel que jamais o trairia, diferente de alguns seres humanos que ele conheceu. Ouvindo aquilo, não pude deixar de notar o paradoxo desse tipo de pessoa insegura. Não confia nos seres humanos mas não deixa o convívio com eles em nenhuma hipótese.

Gosto de seres humanos. Creio já ter dito isso, senão aqui, em outra encarnação de meu blog. Não sou estúpido para não reconhecer o valor dos animais de estimação na vida de algumas pessoas; só não estou a fim de usar um bicho como, por exemplo, fonte de renda. Ou como muro de lamentações para minhas neuroses, que apesar de sob controle estão lá, prontas para emergir num descuido meu. Não tenho o perfil para ter um animal que vai precisar de preciosos momentos para ser amado e cuidado, pois gosto de aprender com os seres vivos com quem convivo.

Se algum fundamentalista retrucar dizendo que aprendemos, sim, com o companheirismo de um animal, não estou me referindo à parte boa e doce da vida. Receber afeto sem ressalvas de um ser vivo não requer prática; a não ser que você seja um irremediável masoquista, as pessoas gostam de carinho. Como o mundo fora do conforto das paredes é bem mais complexo do que trocar o alpiste da gaiola de um curió, é preciso aprender algo mais difícil: gostar desse ser bípede, com membros inferiores que terminam em pés e membros superiores que terminam em mãos, com um cérebro reptiliano rodeado de periféricos sofisticados (pense num computador antigo e suas versões 2.0, 5.0 e assim sucessivamente) e invariavelmente diferente de você, seja na superfície, seja nos contornos internos do que alguns otimistas chamam de alma.

O ser humano não vai receber você abanando o rabo e lambendo seu rosto; pode até ouvir suas palavras de alegria ou lamento mas vai querer recirpocidade. Alguns seres humanos vão traí-lo, outros tentarão matá-lo por um par de tênis ou pelo real esquecido no fundo do bolso. Outros dirão que os dogmas que eles pregam é a verdade absoluta do universo e ai de você se não obedecer. O ser humano é muito mais difícil de ser (se esse blog fosse melhor visitado, o que vou escrever aqui seria alvo da maior polêmica dos últimos tempos da última semana) domesticado. Por isso, com eles, adotamos instintivamente métodos de posse responsável. Quando casamos ou juntamos os trapinhos. Ou quando construímos elos de amizade. Ou quando temos que conviver com aquele chefe idiota, o colega de serviço inconveniente, o estranho que não respeita a presença alheia na calçada ou no ônibus.

Com esse bicho autodenominado racional (somos pernósticos, ainda por cima!), aprendemos a viver, para o bem e para o mal. Se não somos capazes de tentar conviver com quem fala nossa língua, como poderemos abrigar sob nosso teto um ser vivo que se entristece e fala "au au" ou "miau", que está com fome e fala "au au" ou "miau"? Por isso decidi não ter sob minha responsabilidade mais um animal. Sei que seria um péssimo dono por não saber interagir com suas necessidades básicas e não ter um questionamento que me faça procurar um dicionário ou o Google.

Não sou um bom aluno, mas gosto de aprender. Acho que não seria de bom tom aprender como cheirar o traseiro das pessoas. Se bem que esse lance de jogar areia em cima da merda é interessante...

3.11.07

A paz

De acordo com alguns dicionaristas, paz é um estado de calma e tranqüilidade, ausência de conflitos, perturbações ou agitação. Eram justamente essas sensações que eu tinha quando estava com Ingrid. Como aquele passeio que se transformou em piquenique que fizemos. Eu, ela, algumas árvores ("olha como tá lindo aquele calistemo!", bradou ela com um conhecimento de botânica inalcançável para mim). O burburinho indistinto da cidade foi a trilha sonora perfeita. O beijo. A excitação. "Não, Rafael, aqui não. Em casa. Na minha cama.". Sim, aquilo era a paz.

O zunido de uma bala me resgatou do torpor inútil. Ingrid disse que eu tinha um pezinho na lua às vezes. O outro pé voltou a comandar meus atos. O uniforme cáqui estava banhado com meu suor, o capacete pendia ora para esquerda, ora para direita. Os gritos proferidos pelo estranho ao meu lado, supostamente meu superior hierárquico, eram abafados pelos disparos que ele dava com seu M16. Estávamos encurralados em um esqueleto do que foi uma casa, levando tiros dos habitantes locais que meu governo achou por bem chamar de inimigos.

Meu fuzil estava sem balas há muito tempo. Algumas delas tiveram destino certo. O peito ou a cabeça de algum adversário. Não sou exatamente um franco-atirador, mas sou bom em apontar e atirar. E se faço o que faço é porque recebo ordens. Não preciso concordar com isso, apenas obedeço. Não gosto de matar ninguém, mas o estranho ao meu lado vive repetindo que "o inimigo não tem essa frescura. Se vir alguém com esse uniforme, mata e ainda mija em cima!". Não há tempos para dilemas morais. Matar ou morrer. Como fui treinado para sobreviver, sobrevivo.

Encosto no que restou da parede da casa abandonada. Jogo o M16 do lado, agarro a Sig-Sauer. Tenho muitos pentes mas não sei se será o suficiente. Acaricio o cano quase delicadamente. "Vocês, homens, e seus símbolos fálicos", dizia Ingrid, irritada, ao me ver de uniforme. Nunca entendi essa mania dela falar difícil. Só fui saber o que era esse tal de "fálico" quando li um dicionário, presente dela. De certa forma, concordei. "Mas meu pau é muito mais potente que um cano de AK-47!". Ela ia abrir a boca para retrucar mais uma de minhas pérolas machistas, mas sempre ria e me beijava. Me alisava. Me deixava fálico! "Aqui não. Em casa. Na minha cama.". E eu sabia, sem ver o verbete, o que era paz.

Mais um grito do estranho. Não era uma ordem inútil, contudo. Era dor. A maior delas. Senti o respingo do sangue dele ao ser atingido no braço por uma AK. Vários tiros; o antebraço pendia preso apenas por um pedaço de tríceps, os ossos, horripilantemente vermelhos, expostos ao sol lancinante. O horror durou apenas um nanossegundo; saquei a Sig, mirei, atirei. A cabeça do atirador foi para trás num chicoteio violento. Mirei, atirei. O peito do companheiro do agora falecido atirador recebeu três disparos e ele caiu como um saco de batatas de um caminhão. Mirei, atirei. O terceiro foi atingido apenas na perna, enquanto fugia de mim. O estranho gritava alucinado. Peguei a M16 dele, coloquei o homem em meu ombro e fui para os fundos da casa. Balas passavam por nós.

Nos fundos, Ingrid sorria, como sempre. O jantar foi perfeito. Ela sabia que eu iria para o fronte, apesar de seus argumentos. "Não sou eu, é a vida que escolhi. Mandam, eu obedeço.". Ingrid apenas olhou, triste. "Você sabe que vai matar pessoas e que pode ser morto...". Ela se calou depois disso. Tudo já foi dito. E ela sorriu. "Só volte para mim. Para minha vida. Para minha cama."

Não havia cama. Deitei o estranho no piso de terra batida e tentei estancar a hemorragia sem levar um tiro. Tarefa difícil. Ele ainda se acha no comando e ordena algo sobre ir embora. Abortar. Comunicar. O rádio foi acionado. "Granadas!", ele gritou. Só tinhamos duas. O pino de ambas foi retirado. "Dá pra levantar?", pergunto. Ele responde com ação. Somos cachorros de guerra bem treinados. Os tiros se aproximam, quem os desfere também. Solto as granadas, ouço um sibilo. Granadas não sibilam. "Foguete!!!!!"
Meu corpo é arremessado para longe ao mesmo tempo que sinto dor e dormência. Acho que morri.

Ingrid, me beijando, pegando minha mão e me jogando no lago. Água fria, perfeita para despertar. "Queria ter um filho seu", ela dispara à queima-roupa, eficiente como uma Glock. "So se você casar comigo", revidei com minha M16. "Ah, é? Pois então caso". O lago quase nos abençoou. As montanhas quase foram os pastores celebrantes.
Eu quase morri.

Não morri. Outro estranho, com farda de gala, me presenteia com uma medalha. Meu país orgulhoso, heroísmo, blablabla. Não ouvia muito bem. A dor da perna esquera que não existia mais era pequena e eloqüente. Muitos se impressionavam por não usar muleta, apenas uma simples bengala. Não há surpresa; fui treinado para sobreviver até sem fígado. Ou sem pinto. Sim, a guerra me capou. "Não posso mais te dar um filho", disse a Ingrid, que chorava de raiva. "Apaixone-se de novo. Viva e dê a outro homem a paz que eu tive". O tapa que ela me deu foi como o morteiro que me aleijou.

A medalha pesa um bocado no peito. O estranho a quem designaram a tarefa de avaliar minhas condições emocionais e psicológicas sussurra palavras proparoxítonas bonitas em meu ouvido. "Só gostaria de mais um beijo de Ingrid", disse eu.

Ela não veio. A paz deve ter morrido. Ou então se esqueceu de mim quando escolhi ser um cachorro bem treinado. Tento fazer com que a paz se lembre de mim atrás do balcão dessa locadora.

"Não, não gosto de filmes de guerra. Mas essa comédia romântica da Meg Ryan é bem gostosa". A paz está no olhar de Meg Ryan. No sorriso de Jennifer Love-Hewitt. Na voz de Ingrid ao me convidar para seu casamento. "Você vem, não?"

Não, não vou. Hoje tem filme novo da Lindsay Lohan no cinema.

2.11.07

O referido é verdade e dou fé

Se eu acreditasse em teorias conspiratórias, diria que alguém, desde setembro, está tentado impedir minhas postagens. Ao tentar me logar em um cybercafé, a página do Blogger simplesmente se recusava a abrir. Mas agora que consegui, me vem à mente a mesma inquietação: vou escrever o quê?


De uns tempos pra cá, algumas coisas têm conseguido a proeza de me irritar profundamente. Assuntos religiosos, por exemplo. No posto de saúde onde trabalho há seguidoras de várias vertentes cristãs neo-evangélicas. Nada demais se não fosse o forte ranço fundamentalista que impera em alguns diálogos. Nada do que é feito tem o dedo de quem fez; se não for o belzebu e suas artimanhas é Deus escrevendo certo por linhas tortas. O homem, sempre fugindo da responsabilidade sobre sua própria vida, adora citar de cor versículos e dogmas sem parar para pensar em seu papel na trama da vida.
O que acho engraçado nisso tudo é que nenhuma dessas pessoas pensava nas sagradas escrituras ou assemelhados na flor da idade, quando o corpo era viçoso, a libido estava ativa e os excessos eram cometidos. A velhice sempre traz arrependimento para quem achava que viver era ficar bêbado e trepar até o último orgasmo. Tenho impressão que Deus existe apenas para os arrependidos.


Os católicos pensam que Deus é burro; os evangélicos, que Deus é surdo.


Indaiatuba esteve seca como o deserto em setembro e outubro. Não chovia, o calor deixava todos alvoroçados e houve uma séria ameaça de racionamento. Ainda assim, muitos armavam-se de mangueiras e desperdiçavam, lépidos, água tratada em calçadas e carros. Para corroborar a atitude de jerico, jogavam os dejetos nas bocas-de-lobo, entupindo-as. Claro que todos se conscientizaram depois da ameaça do SAAE, o responsável pelo tratamento da água e esgoto da cidade, de multar quem fosse pego desperdiçando água.
Quando, na última semana de outubro, a chuva caiu mansa e contínua, durante o dia inteiro, me detive sob ela por alguns instantes na calçada em frente a uma fundição. Senti gota por gota um alívio. O mormaço do asfalto já estava sob controle e meus óculos contavam os milímetros da precipitação. Andei calmamente pisando nas poças cantando uma canção. Não, não aquela. Esta.


Eu, que não acreditava em prêmios. Eu, que sempre achei que loterias eram formas lícitas de jogatina e de arrecadação de dinheiro sobre o sonho - o velho axioma "sonhar não custa nada" não é verdadeiro. Custa, sim; de um a cinco reais. Eu, que não arriscava coisa alguma por achar que "sorte" é uma palavra bonita, um eufemismo para "me dei bem mas você não precisa saber quem matei pra que isso acontecesse". Eu, o mais improvável dos mortais, ganhei um concurso. O catrão de mil reais da promoção da Kuat. Devidamente gastos, já deixando os urubus avisados.
Quando será que a Mega-Sena acumulará de novo?


Gostaria muito de poder viajar no final de ano. Rever pessoas e lugares. Fugir, por pouco tempo, dos sambas feitos por mauricinhos, dos forrós feitos por bondes imitadores de cantores sertanejos, do choro de crianças e gritos de adolescentes. Manter distância das pacientes impacientes. Ver o mínimo possível de mulher por pelo menos uma semana - não é misoginia, é saco cheio mesmo. Dormir e acordar sem precisar pedir licença. Descobrir o que há de novo, me cobrir com meus desejos antigos.
Gostaria de algumas coisas bem simples. Muito. Mas nada de promessas.


Sete anos, quase oito. Me dirijo ao banheiro para tomar banho, distante como sempre, em meu mundo paralelo. Chuveiro aberto, ouço a voz alcoolizada de meu pai chegando do bar mas aquele era apenas mais um som. Decido cantar a plenos pulmões uma música da Rita Lee que eu adorava, e ainda adoro. No meio dos acordes "afinadíssimos" que minha garganta soltava, a voz alterada do meu pai, em mais um embate verbal inútil com minha mãe. Alheio a isso, pulava feito um retardado debaixo d'água.
Como se tivéssemos ensaiado, eu cantava o início do verso "papai, eu não fumo, papai, eu não bebo..." e o pai, no mesmo ritmo (não é piada), gritou "PÁRA, NEI!!!". Estanquei os movimentos, apavorado e acabei o banho naquele momento. Estava criada a maior das piadas internas da família Trindade. Toda vez que minhas irmãs se lembram do episódio, elas cantam: "papai, me empresta o carro, papai eu não fumo, papai eu não bebo, PÁRA, NEI!". Ai, ai...


O título dessa postagem era um dos prováveis títulos desse blog. Como sei que muitos não sacariam o tom irônico que eu gostaria que tivesse, descartei. Asim como "Memórias num velho computador", retirada de uma canção de Ritchie, que provavelmente daria um tom sisudo demais a um blog tão errático. Pelo mesmo motivo foi descartado "Quem precisa de utopia?", trecho de música do mesmo Ritchie. E não, não sou apaixonado pelo gajo.


Não achei nenhuma das músicas acima. Mas encontrei o lado B do compacto "Aline", do Christophe, uma daquelas músicas que adoro sem saber exatamente porquê. Senhoras e senhores, "Les marionettes"!

10.9.07

O nono par

Em 1982, com meus quase falecidos 12 anos, minha professora de Ciências observou minha dificuldade em ver o que ela escrevia no quadro-negro em minha confortável carteira no fundo da sala. Ela me colocou na frente, o que melhorou um pouco minha percepção, mas a sensação "areia nos olhos" continuava. Não precisei dizer nada; o apertar dos olhos, quase me fazendo parecer um personagem do Jim Henson's Shop Creature, definiu a atitude de dona Sandra: chamar meus pais (melhor seria dizer "chamar minha mãe")e fazer com que eu visitasse um oftalmologista.

O sinal de alerta foi acionado: havia a possibilidade de usar óculos. O horror! Já antevia o que poderia acontecer com a minha nulidade social. De um gordo CDF e inofensivo ao coruja balofo com fundos de garrafa na frente dos olhos. Meu mantra antes da consulta era "tomara que eu só precise de um colírio".

No dia da consulta, apesar do doutor ser calmo e ponderado, entrei em pânico. Como assim, vão colocar esse treco em meu olho para "medir a pressão ocular"? E se ele furar meus olhos por engano? Descobri que especialidade médica me causava pavor. Nunca tive medo de agulhas, nem da broca do dentista. Mas o tonômetro... tentei não dar bola, mas o tremor e o bater de dentes foram espontâneos. Bem, como posso ver tudo o que escrevo, creio que o exame foi um sucesso.

Sim, um sucesso, exceto por um detalhe: eu tinha miopia com um pequeno, porém nada desprezível, grau de astigmatismo. "Mas pode ser curado com um colírio, né, doutor?". Ah, minha idiotice (ia escrever "inocência", mas não posso ser bondoso comigo mesmo)! Não escapei de minha primeira armação. Feita de aço, pesada pra burro e marcou minha vida. Não, literalmente marcou. Duas cavidades atrás das orelhas, mais duas onde os aros encostavam em meu crânio. Mesmo assim, o medo de ser alvo das piadinhas foi solapado pela melhor visão que tive desde que comecei a ler. Tudo ficou incrivelmente cristalino; podia ler cartazes a uma distância impensável há pouco mais de um ano, lia sem chupar meu rosto como os velhinhos do Muppet Show. Em menos de dois dias fiz as pazes com esse estranho instrumento com lentes côncavas.

25 anos depois não consigo me ver (sacaram? Ver, olho, óculos... é, ficou uma porcaria. Não sirvo nem como roteirista do Zorra Total) sem óculos. Alguns conhecidos e amigos tecem loas à praticidade das lentes de contato. Se eu tenho medo de um mísero tonômetro , que dirá de algo que preciso enfiar cristalino abaixo! E hoje, graças aos avanços tanto tecnológicos quanto estéticos, os óculos deixaram de ser um treco de metal para suportar as lentes (como meu terceiro par, imortalizado em uma bisonha foto 3X4 colada em minha identidade) para emoldurar o rosto de qualquer um.

Hoje, três graus mais cego - ou com uma ligeira perda de acuidade visual. Tá bom assim, panfletários politicamente corretos? - adquiri mais um par. Quando experimentei o modelo de um marca famosa (essa aqui, caso estejam curiosos) e não senti quase nada em meu rosto, toquei o que restou da depressão atrás de minhas orelhas e sussurrei: "essa é para vocês".



Acredite, me lembrei até da música que ouvi ao colocar os meus primeiros óculos. Essa aqui.

7.9.07

Se quer saber como estou...

Um relacionamento fora do seio familiar é uma das mais, senão a mais, importante decisão que tomamos. Não nascemos do ventre de quem escolhemos, não somos "obrigados" a conhecer os defeitos, manias e cacoetes graças à convivência diária. Há a atração física - sejamos práticos, o primeiro sentido que usamos para reconhecer quem nos agrada é a visão; o resto é poesia e roteiro de Nora Ephron - e a primeira patética tentaiva de contato verbal, que vão desde uma piadinha supostamente bem sacada ao "será que vai chover" à guisa de papo. Há a reciprocidade, pois me refiro a relacionamentos que se iniciam; as primeiras conversas mais sérias e os silêncios. O beijo, o primeiro relacionamento sexual e a agradável rotina da descoberta de um mundo novo. Todos que amaram outra pessoa são Américo Vespúcio.

Se há maturidade, descobre-se que a outra pessoa é realmente outra pessoa, com suas idiossincrasias, roncos e tensões pré-menstruais, palitos de dente e cabelos longos no ralo, beijos na nuca e mãos na bunda. Os bem resolvidos mudam o que podem, aceitam o que dá e teorizam as diferenças ora num papo entre dentadas em uma pizza, ora numa briga entre cacos de um copo de requeijão. E vivem uma vida que escolheram ao lado de quem escolheram, com pressões acupunturais de felicidade entre contas e novas obrigações.

O fim desse realcionamento não chega a ser cogitado a sério graças a essas agulhas de sorrisos. Por isso dói tanto quando o fim chega. Os cacos aumentam de quantidade, o sexo só tem sabor se proibido, questões formuladas na época do "benzinho, mozinho" e respondidas com o gugudadá típico tornam-se adultas com a velocidade de vida de uma mosca drosófila. A pressão dessa vida atinge níveis insuportáveis e as agulhas de acupuntura não surtem mais efeito. É preciso uma intervenção cirúrgica e ela se assemelha à da piada: a operação foi um sucesso mas o paciente morreu.

A tristeza e a letargia do "pós- operatório" são conseqüências de uma derrota que demoramos a absorver, pois nos negamos a reconhecê-la. Tudo estava lá: as causas, os efeitos, a profilaxia. Por que optamos pela "simples" separação e seus devastadores efeitos colaterais? Agora aí está você, mergulhado por livre e espontânea vontade no poço da solidão, querendo manter um nível elevado de elegância.

Hoje, graças à banalização do que é brega, aliado ao mal uso dessa verdadeira instituição nacional - se os arautos do "british and american cool" não tivessem vilipendiado o requintado gosto popular da década de 1970, teríamos nossos próprios rhythm and blues e soul music - , temos que nos contentar em ser tristes ouvindo uma bela melodia em uma língua estrangeira ou um grupinho de adolescentes que fazem barulho em cima de uam letra emo. Serve, é claro, mas precisamos ir ao fundo do poço para que possamos reforçar os músculos na volta que sempre damos.

O último romântico, em uma de suas sempre bem feitas letras, vaticinou: as canções mais tolas, tendo seus defeitos, sabem diagnosticar o que dói no peito. Após uma faca tão amolada como a separação, você precisa é cauterizar a ferida com algo nada benevolente. A dor dessa cauterização pode matar alguns neurônios, mas só aqueles que você não vai mais usar. Inclusive os que fizeram você ouvir e quase gostar da tal música.

Tenho algumas sugestões. E não se preocupe. Se o fim é um dos supremos clichês, a volta por cima e o novo dia após o ontem é O supremo clichê.

Quando você se apaixonar de novo, queira sempre se apaixonar de novo.

1.9.07

Três fitas vermelhas

Cinco dias após meus aniversário, reflito sobre tudo o que sempre refleti nessa época do ano. Pensei em postar algo no dia 27 de agosto. Algo rápido e emocional, já que agora escrevo diretamente no quadro de postagens do Blogger, sem direito a revisão e arrependimentos. Decidi não escrever nada; a tal lâmpada da inspiração não brilhou sobre mim. Como estava no meio de minhas férias trabalhistas, saí um pouco para ver o que o mundo tinha a me oferecer. Vi uma senhora quase caindo sobre sua bengala, um carro reluzente buzinando para mim, o sol fazendo marolas de mormaço, gente demais nos bancos da praça. E vi um menino segurando alegremente um pacote azul com detalhes em veremelho e laranja.

Um presente. Segundo os dicionários, além de ser um dos tempos verbais, é uma dádiva, um dom, uma oferenda. Veio até mim os aniversários de minha infância e adolescência. Bolos raros, e geralmente feitos com capricho pela minha mãe com o que tínhamos: trigo, um achocolatado ganhado da patroa dela, um doce de leite feito em casa para rechear, as claras em neve para cobrir (que mané chantili, meu amigo, isso não nos pertencia!). Refrigerantes ainda mais raros, comprados apenas naquelas ocasiões - garrafas de 600 ml da marca Bacana, me lembro bem disso. Agora, presentes...

Não se pode chamar de presente uma compra feita por obrigação paterna e/ou materna, como as indefectíveis roupas e sapatos. Os aniversários eram momentos perfeitos para se comprar essas coisas; dava-se a ilusão de um mimo à imposição, sempre lembrando que "dinheiro não nasce em árvore, por isso cuide bem da bermudinha e da camisetinha!". Por me acostumarem a unir praticidade a algo que deveria ser lúdico me habituei a não ganhar nada de ninguém. As coisas que tive foram sempre recompensas. Fui ao mercado para comprar algo? Toma, um cruzeiro. Trabalhei para ganhar meu próprio dinheiro? Agora posso comprar meu Atari. Já paguei as contas do mês? Beleza, estou liberado para comprar um pacote de cuecas!

Em 2001, esse mundo estéril sofreu uma fecundação inesperada. Trabalhava em uma multinacional fabricante de autopeças (putz, pareço a Rede Globo... não é mais fácil digitar "Trabalhava na Mahle Miba"?). Era mais um operador de produção, trabalhando febrilmente e tentando passar sob o radar do corporativismo. Isso não me impediu de forjar uma boa amizade com as quatro únicas mulheres que trabalhavam no setor que eu estava. Uma ajuda física aqui, um ouvido amigo acolá, risadas fartas. Tudo absolutamente natural. Mas naquele 27 de agosto, elas me aprontaram uma falseta. Me chamaram "para pegar uma caixa de bielas pesadas" e fui surpreendido com saudações de felicidade, paz e bonança e uma sacola. Do lado de fora da sacola, um bilhete com uma fábula sobre as atitudes que tomamos na vida. Dentro, uma camiseta. Não era uma obrigação. Ninguém me disse para tomar cuidado. Era uma dádiva. Quis dizer obrigado, mas a garganta ficou muda e seca como o deserto de Atacama. Fui ao banheiro chorar um pouco.

Meu primeiro presente. A sensação foi assustadora e boa ao mesmo tempo. Uma voz interior, contudo, disse de maneira terna e sábia: "não se acostume". Resolvi ignorá-la e curtir esse turbilhão. A camiseta, furada e puída, ainda está em meu armário e em meu torso.

Mas a voz não tinha se enganado. E após o nascimento, o mundo infértil voltou a aflorar. Nada que me angustiasse; já sabia o sabor do presente ganho, o hedonismo do embrulho caprichado. Se um dia eu ficasse triste, bastava a camiseta em mim e todas as lembranças me inebriavam. Só que não houve tempo hábil para a desertificação total.

No dia 24 de fevereiro, último dia de minha estada em Porto Alegre, Fernando, meu anfitrião, enquanto conversávamos sobre o quanto aqueles dias tinham sido bons (estou sendo econômico... foram sensacionais!), do nada resolveu me dar um dos livros de sua estante: "Devassos no paraíso", de João Silvério Trevisan. E com uma dedicatória! Consegui dizer "obrigado", mas achei insuficiente. Não consegui dizer mais nada e agarrei aquele livro, imaginando se aquilo era apenas uma névoa onírica ou real. No mesmo dia, fui me despedir do grande Janio e entre abraços e promessas ele me deu MAIS UM LIVRO! Graças a uma noite de pequenos toques nos pés, ele me deu "O novo livro de massagem", de Lucy Lidell, "para que pudesse aperfeiçoar a técnica".

Três presentes. Três dádivas. Dar presentes é algo que não me é estranho. Mas recebê-los é de um ineditismo delicioso. As lembranças que eles proporcionam são vívidas demais. E não me importa mais a voz da razão me dizendo para não me acostumar. Basta que eu abra meu armário ou leia e sinta o cheiro do papel. Bastam o momento fugaz e a lembrança perene.

Feliz aniversário, Sidnei.

22.8.07

Ainda guardo um retrato antigo

Inevitável, a passagem do tempo precisa de parâmetros estabelecidos para ser pelo menos codificada. Desde os nanossegundos até os milênios tudo precisa passar pelo crivo de nossa imperfeita lógica humana. Por isso damos valor tão grande ao dia em que nascemos. É o dia em que oficialmente começamos a interagir com nossos desejos, a não ser que você acredite em plena consciência filosófica desde nossos dias como gametas, fetos. Ora, tudo se resumia a uma batida de coração externa e a troca de nutrientes pelo cordão umbilical.

Num belo dia, eis que somos expulsos sem cerimônia de um estado de quase letargia às batalhas por oxigênio, comida e afeto. Nosso primeiro choro é, e me perdoe quem sofreu (quem nunca sofreu consientemente levante a mão!), o mais angustiante que bradaremos em nossa vida inteira. A partir de uma data aleatória, somos confrontados com a ida ao fim, sem direito a habeas corpus e tendo que achar tudo isso "parte da vida".

Essa lenga-lenga toda só serviu como prólogo empolado para a lembrança da iminência de meu aniversário. Poucos anos me separam de completar quatro décadas de vida. Vida em uma cidade outrora pequena, pacata e modorrenta. Vida feita de decisões erradas, descobertas pouco confortantes e alegrias bem aproveitadas. Vida repleta de inspirações de um ar que já teve mais oxigênio, risadas indecentes de tão espontâneas e amizades poucas e sólidas.

Meus quase trinta e oito anos me fizeram rir de minhas fotos antigas. Uma quando criança, coçando a panturrilha ao lado da vó, rosto despreocupado. Outra, pose de galã, cara de sério sentado no braço do sofá verde-musgo, braço direito pendendo suavemente - um amigo, ao ver a foto, disse, zombeteiro: "putz, tá muito gay essa foto, cara!" - e já pensando nas coisas que eu lia. Meu primeiro retrato 3X4 mostra minha eterna papada e uma cara aparvalhada, típica de um adolescente que não havia beijado ninguém. Meus óculos tortos na foto da identidade, fruto de um relacionamento nada amistoso com esse objeto incômodo (não, nada de aros de fibra de carbono de lentes high light anti-reflexo). O hiato fotográfico até meus quase trinta anos, quando me vi com um sorriso bobo, porém determinado, junto a alguns colegas de trabalho.

Esse tempo que teimou em passar à minha revelia quase me obriga a cantar a velha canção e sentir o gosto de um bolo de chocolate qualquer. Ainda faltam cinco dias. Sinto que vou precisar desse blog para desabafar.




O título foi titado da canção "Amanhã é 23", do grupo Kid Abelha.