2.12.07

O referido é saudade e dou fé

Sinto saudade da rua Projetada. Visto com os olhos de hoje essas lembranças parecem vindas de uma realidade alternativa, mas minha rua, assim como muitas, antes de ter um nome oficial se chamava apenas Projetada. A terra avermelhada batida onde, para desespero das mães, eu e muitas outras crianças jogávamos bola, brincávamos de pique-esconde, mãe-da-rua ou balança-caixão (e se você não sabe do que estou falando, jogue isso no Google e descubra). As touceiras de capim-gordura, os cheiros da poeira e da chuva, puros e sem aditivos, os coquinhos de indaiá. As casas separadas por cercas de bambu amarradas precariamente e os vizinhos com seus comentários "sábios" sobre a vida, emaranhados de lugares-comuns ora bem vindos, ora amaldiçoados. Uma compreensão geográfica limitada mas compensada com toneladas de imaginação.
Sinto saudade dos programas de rádio que era obrigado a ouvir. Zé Bettio e seu arsenal de músicas caipiras, e uma provocação pessoal (pelo menos para mim era MUITO pessoal) que ele fazia depois de chamar a vaca Mimosa: não havia um mísero dia em que ele não falasse pra nonna (quem era essa tal nonna, perguntava eu para mim mesmo antes de descobrir o que era essa palavra) jogar água no gordo! Eli Correa e seu bordão "oooooooooi, geeeeeenteeeeeee!", seu populismo e suas histórias tristes. Lá ouvia-se muito Fernando Mendes, Márcio Greyck, Paulo Sérgio e Roberto Carlos. O terror dos terrores, Gil Gomes e sua voz aterrorizantemente anasalada a narrar as agruras do mundo cão, o preferido do meu pai e claro, meu preferido, "A volta do sucesso", com Altieris Barbiero, o principal responsável por amar tardiamente a Jovem Guarda.

Sinto saudade do forno de barro em meu quintal. Os pães feitos naquele forno eram deliciosos. Demandavam cuidado artesanal, como tudo na longínqua década de 1970, onde quem era pobre tinha que se virar e o fazia magistralmente - diferente de hoje, mas abafa o caso - : deixar a massa homogeneizada com força e carinho crescer debaixo de uma manta Parahyba, cortar pedaços cuidadosos e deitá-los em folhas de bananeira que iam ao forno previamente aquecido - não, não se ligava o gás, crianças; acendia-se a lenha - e aí esquecíamos um pouco dos bolinhos, que logo viravam pães dourados, macios e insequecíveis.
Sinto saudade da minha classe de primeira série na EEPG Benedita Wagner de Campos. Ficava perto do pátio da merenda, longe de todas as outras. Era uma bobagem, mas dava uma impressão de exclusividade... foi lá que aprendi a escrever, pois ler eu já sabia. Dona Sandra (não, ela não era minha tia) trazia letras de mão pontilhadas para que eu pudesse exprimir o que eu já sabia interpretar com os olhos. O DNA de minha letra veio de um capricho de um professora, veja você.
Sinto falta dos especiais do Roberto Carlos da década de 1970. Talvez fossem as músicas, numa fase onde ele não era o pastiche autoritátio de hoje. Talvez fosse a mão do finado Augusto Cesar Vannucci. Talvez fosse a inexistência de concorrência. Não sei. Mas eu adorava ver aqueles proto-videoclipes.
Sinto falta dos videoclipes. Desde aqueles do Fantástico, onde sempre apareciam os olhos de quem estavam cantando num close, se movimentando da direita para a esquerda, passando pelos clipes do programa Clip Trip da TV Gazeta (moderno até a medula! Via desde pérolas do britpop até o início do rap mainstream) e os bonecos da cópia da Globo, o Clip Clip, inventor da nefasta mania de editar os vídeos. Sonhava em assistir à MTV, mas as antenas de UHF não pegavam bem aqui na cidade.
Sinto falta da She-Ra e do He-Man. Do Pernalonga e do Patolino. Dos Trasnformers. Dos Thundercats. Do Toro e do Pancho. Da Cobrinha Azul. Da Super Máquina, mas não do David Hasselhoff - acredite, gostava do Kitt por causa da voz do Isaac Bardavid. Do Cannon. Da Dama de Ferro. Das Sessões da Tarde com filmes da década de 1950 e 1960. Dos filmes de Jerry Lewis e do Elvis. Deus meu, sinto falta até do Bozo!





1.12.07

Makin' it!

Quem nasce em berço de madeira tem uma vida pragmática. Depois que se tem consciência de como é o mundo em que fomos inseridos (quem mandou sairmos do líquido amniótico com tanto afã, só para depois chorarmos de arrependimento logo após?), trabalhamos, bebemos, contamos moedas para comer arroz, trocar as cuecas (sou um ser humano do sexo masculino sem tendências para ser crossdresser, por isso não vou emular uma dualidade politicamente correta aqui) e tomar uam cachaça, dançamos na proverbial corda-bamba de quem foi classificado como sendo das classes D e E e dormimos exaustos ao fim da luz solar. Não sei como os meus pares fogem da realidade por alguns instantes catárticos. Eu tinha várias válvulas de escape, nenhuma psicotrópica. Ler tudo o que me aparecia - bulas de remédio incluídas - , escrever poemelhos em cadernos, imaginar amigos. E assistir a alguns programas de tevê.

O que mais me afastava de minha realidade era um sujeito que regava as futilidades com uma urgência de água em deserto e que me ensinou que no mundo também existiam pessoas que não se incomodam em pagar um mês de meu salário em um par de meias, desde que elas sejam de grife. No início da década de 1980, conheci Amaury Jr. e seu mundo estranho de nomes pretensamente chiques.

Foi lá que descobri o dólar como moeda e não apenas como personagem de filme. Nos áureos tempos, tudo o que ele falava - a palavra merchandising não fazia parte de meu vocabulário - era cotado em dólar. Os tais champanhes, opa, espumantes... desculpem-me, vitivinicultores da cidade de Champagne com nomes estranhos como Veuve Cliquot (eu, hein, uma bebida com nome de viúva!) e Mumm, os cigarros absolutamente fabulosos que ele fumava durante as entrevistas - que mané câncer de pulmão, o que importava era parecer elegante com aquele trem cilíndrico e fumacento entre os dedos - e as marcas tão chamativas e sempre em Inglês, as roupas que não serviam apenas para cobrir nossa nudez. Hugo Boss, Valentino, Zegna, Armani eram um estilo de vida, a materialização de Deus ligados por linhas e agulhas!

E as festas? Gente sobre as quais nunca ouvi dizer, mas que eram importantíssimas, sumidades de... do... da..., enfim, Amaury dava a impressão de ter sido gêmeo univitelino do entrevistado, que sempre soltava uma pérola da humanidade, a frase mais entrecortada por interrupções desde a invenção dos talk-shows brasileiros. Era maravilhoso ver toda aquela futilidade sendo dita com tanta veemência e verdade entre ternos e vestidos, bebidas e canapés.

Desde quando se chamava Flash nas tevês Gazeta, Bandeirantes e Record, acompanho a, digamos, evolução do programa. Do início tímido, onde ele mostrava festas do jet-set até hoje, onde ele mostra, hã, festas do jet-set com verniz de "eventos culturais", com lançamentos de livros seminais de auto-ajuda ou o trabalho de cão de um ghost writer para publicar uma interessantíssima biografia autorizada ou lançamentos de lojas modestas de marcas modestas de carros - Maserati, Lamborghini -, é divertido ver que gente com dinheiro só tem isso a mais que eu mesmo: dinheiro. Alguns, sejamos justos, têm conteúdo, mas eles se tornam chatos diante da diversão de ver, por exemplo, dicas de restaurantes charmosos quando eu viajar para Nova Iorque ou Dubai ou Berlim, ou que atitudes tomar em um jantar com o CEO de uma multinacional quando eu for convidado por aquela pessoa de hábitos simples (só tomar água Evian, por exemplo).

E pra tornar tudo ainda mais divertido, musicalmente o mundo parou na década de 1980. A começar pela vinheta oficiosa do programa, "Keep it comin' love", do KC and the Sunshine Band e terminando com o caça-ní..., quero dizer, CD lançado à guisa de trilha sonora. Por causa desse disco tenho que agradecer ainda mais o menino, por me fazer lembrar de algo que meu cérebro guardou sem muitos detalhes, exceto a música antes desconhecida.

1979. Estava eu num lugar chamado Cidade dos Menores de Campinas, há mais de seis meses quando os diretores decidiram que nos dariam de presente uma "excursão". Excitados, lotamos, eu e todos os meninos que estavam lá, dois ônibus e uma perua em direção ao resstaurante Frango Assado da rodovia dos Bandeirantes. Foi uma farra; comida até dizer chega, um saco enorme cheio de guloseimas e brinquedos e um cara em frente a um toca-discos - mais tarde saberia que aquele sujeito era um "DJ" - e uma mesa de som. Ele me chamou, colocou os fones de ouvido em mim, grandes e pretos, colocou um disco de vinil com a palavra Philips escrito e fui inundado pelo som como nunca antes. Ele me deixou ouvir a música inteira e depois retomou o controle dos fones. Bocó como sempre fui, nem me dei ao trabalho de perguntar que música era aquela e quem cantava.

Obrigado, Amaury. Agora a música tem nome, voz, dono e pode fazer parte de minhas vívidas memórias daquele período. Agora posos dizer a quem me critica quando digo que assisto seu programa com finalidades sociológicas que, além de saber nomes de grifes, descubro canções perdidas em meu obscuro baú de recordações. No more, no more fakin' it!


Escrita ao som de Anamar e Brad Sucks, além da música acima.

18.11.07

Vozes, latidos e miados

Muitas pessoas adoram seus animais de estimação. Algumas a ponto de fazer dos pobres versões peludas dos seus filhos. Tomo como exemplo meu tio e seus cães e gatos. Não, ele não tem vários no quintal; me refiro a todos os animais desde meus tenros anos (mais precisamente desde 1973, o primeiro ano que me lembro de existir). Ele nunca se ateve ao princípio da posse responsável, termo que aprendi lendo uma revista (acho que a Vida Simples). Todos os pobres animais, sem exceção, adquiriram alguma "psicose". Ou urinavam e defecavam em lugares inapropriados (um gato achava que debaixo de minha cama havia uma caixa de areia. Toda noite tinha que limpar e desinfetar o local), ou uivavam sôfregamente na ausência de meu tio pra mais tarde ganirem alto e irritantemente quando ele chegava, ou destruíam algo no quintal - já tivemos a fase dos chinelos, a fase das roupas no varal, a fase dos vasos de comigo-ninguém-pode (ah, podem, sim)... - , entre outras atitudes. Como meu tio nunca prezou pela constância, ele agia com os animais de acordo com a fase da lua. Ora extremamente benevolente, permitindo que os cães e gatos dormissem em sua cama, ora desmedidamente cruel, como deixá-los sem água e comida por períodos longos "de castigo".

Dia desses, num dos monólogos entre ele e eu (ele fala. Pra caramba. E eu ouço. Murmurando duas ou três frases), ele comparou o atual bichinho dele - um vira-lata de pêlos pretos de nome Braddock, vê se pode - a um filho que ele jamais teve. Um companheiro fiel que jamais o trairia, diferente de alguns seres humanos que ele conheceu. Ouvindo aquilo, não pude deixar de notar o paradoxo desse tipo de pessoa insegura. Não confia nos seres humanos mas não deixa o convívio com eles em nenhuma hipótese.

Gosto de seres humanos. Creio já ter dito isso, senão aqui, em outra encarnação de meu blog. Não sou estúpido para não reconhecer o valor dos animais de estimação na vida de algumas pessoas; só não estou a fim de usar um bicho como, por exemplo, fonte de renda. Ou como muro de lamentações para minhas neuroses, que apesar de sob controle estão lá, prontas para emergir num descuido meu. Não tenho o perfil para ter um animal que vai precisar de preciosos momentos para ser amado e cuidado, pois gosto de aprender com os seres vivos com quem convivo.

Se algum fundamentalista retrucar dizendo que aprendemos, sim, com o companheirismo de um animal, não estou me referindo à parte boa e doce da vida. Receber afeto sem ressalvas de um ser vivo não requer prática; a não ser que você seja um irremediável masoquista, as pessoas gostam de carinho. Como o mundo fora do conforto das paredes é bem mais complexo do que trocar o alpiste da gaiola de um curió, é preciso aprender algo mais difícil: gostar desse ser bípede, com membros inferiores que terminam em pés e membros superiores que terminam em mãos, com um cérebro reptiliano rodeado de periféricos sofisticados (pense num computador antigo e suas versões 2.0, 5.0 e assim sucessivamente) e invariavelmente diferente de você, seja na superfície, seja nos contornos internos do que alguns otimistas chamam de alma.

O ser humano não vai receber você abanando o rabo e lambendo seu rosto; pode até ouvir suas palavras de alegria ou lamento mas vai querer recirpocidade. Alguns seres humanos vão traí-lo, outros tentarão matá-lo por um par de tênis ou pelo real esquecido no fundo do bolso. Outros dirão que os dogmas que eles pregam é a verdade absoluta do universo e ai de você se não obedecer. O ser humano é muito mais difícil de ser (se esse blog fosse melhor visitado, o que vou escrever aqui seria alvo da maior polêmica dos últimos tempos da última semana) domesticado. Por isso, com eles, adotamos instintivamente métodos de posse responsável. Quando casamos ou juntamos os trapinhos. Ou quando construímos elos de amizade. Ou quando temos que conviver com aquele chefe idiota, o colega de serviço inconveniente, o estranho que não respeita a presença alheia na calçada ou no ônibus.

Com esse bicho autodenominado racional (somos pernósticos, ainda por cima!), aprendemos a viver, para o bem e para o mal. Se não somos capazes de tentar conviver com quem fala nossa língua, como poderemos abrigar sob nosso teto um ser vivo que se entristece e fala "au au" ou "miau", que está com fome e fala "au au" ou "miau"? Por isso decidi não ter sob minha responsabilidade mais um animal. Sei que seria um péssimo dono por não saber interagir com suas necessidades básicas e não ter um questionamento que me faça procurar um dicionário ou o Google.

Não sou um bom aluno, mas gosto de aprender. Acho que não seria de bom tom aprender como cheirar o traseiro das pessoas. Se bem que esse lance de jogar areia em cima da merda é interessante...

3.11.07

A paz

De acordo com alguns dicionaristas, paz é um estado de calma e tranqüilidade, ausência de conflitos, perturbações ou agitação. Eram justamente essas sensações que eu tinha quando estava com Ingrid. Como aquele passeio que se transformou em piquenique que fizemos. Eu, ela, algumas árvores ("olha como tá lindo aquele calistemo!", bradou ela com um conhecimento de botânica inalcançável para mim). O burburinho indistinto da cidade foi a trilha sonora perfeita. O beijo. A excitação. "Não, Rafael, aqui não. Em casa. Na minha cama.". Sim, aquilo era a paz.

O zunido de uma bala me resgatou do torpor inútil. Ingrid disse que eu tinha um pezinho na lua às vezes. O outro pé voltou a comandar meus atos. O uniforme cáqui estava banhado com meu suor, o capacete pendia ora para esquerda, ora para direita. Os gritos proferidos pelo estranho ao meu lado, supostamente meu superior hierárquico, eram abafados pelos disparos que ele dava com seu M16. Estávamos encurralados em um esqueleto do que foi uma casa, levando tiros dos habitantes locais que meu governo achou por bem chamar de inimigos.

Meu fuzil estava sem balas há muito tempo. Algumas delas tiveram destino certo. O peito ou a cabeça de algum adversário. Não sou exatamente um franco-atirador, mas sou bom em apontar e atirar. E se faço o que faço é porque recebo ordens. Não preciso concordar com isso, apenas obedeço. Não gosto de matar ninguém, mas o estranho ao meu lado vive repetindo que "o inimigo não tem essa frescura. Se vir alguém com esse uniforme, mata e ainda mija em cima!". Não há tempos para dilemas morais. Matar ou morrer. Como fui treinado para sobreviver, sobrevivo.

Encosto no que restou da parede da casa abandonada. Jogo o M16 do lado, agarro a Sig-Sauer. Tenho muitos pentes mas não sei se será o suficiente. Acaricio o cano quase delicadamente. "Vocês, homens, e seus símbolos fálicos", dizia Ingrid, irritada, ao me ver de uniforme. Nunca entendi essa mania dela falar difícil. Só fui saber o que era esse tal de "fálico" quando li um dicionário, presente dela. De certa forma, concordei. "Mas meu pau é muito mais potente que um cano de AK-47!". Ela ia abrir a boca para retrucar mais uma de minhas pérolas machistas, mas sempre ria e me beijava. Me alisava. Me deixava fálico! "Aqui não. Em casa. Na minha cama.". E eu sabia, sem ver o verbete, o que era paz.

Mais um grito do estranho. Não era uma ordem inútil, contudo. Era dor. A maior delas. Senti o respingo do sangue dele ao ser atingido no braço por uma AK. Vários tiros; o antebraço pendia preso apenas por um pedaço de tríceps, os ossos, horripilantemente vermelhos, expostos ao sol lancinante. O horror durou apenas um nanossegundo; saquei a Sig, mirei, atirei. A cabeça do atirador foi para trás num chicoteio violento. Mirei, atirei. O peito do companheiro do agora falecido atirador recebeu três disparos e ele caiu como um saco de batatas de um caminhão. Mirei, atirei. O terceiro foi atingido apenas na perna, enquanto fugia de mim. O estranho gritava alucinado. Peguei a M16 dele, coloquei o homem em meu ombro e fui para os fundos da casa. Balas passavam por nós.

Nos fundos, Ingrid sorria, como sempre. O jantar foi perfeito. Ela sabia que eu iria para o fronte, apesar de seus argumentos. "Não sou eu, é a vida que escolhi. Mandam, eu obedeço.". Ingrid apenas olhou, triste. "Você sabe que vai matar pessoas e que pode ser morto...". Ela se calou depois disso. Tudo já foi dito. E ela sorriu. "Só volte para mim. Para minha vida. Para minha cama."

Não havia cama. Deitei o estranho no piso de terra batida e tentei estancar a hemorragia sem levar um tiro. Tarefa difícil. Ele ainda se acha no comando e ordena algo sobre ir embora. Abortar. Comunicar. O rádio foi acionado. "Granadas!", ele gritou. Só tinhamos duas. O pino de ambas foi retirado. "Dá pra levantar?", pergunto. Ele responde com ação. Somos cachorros de guerra bem treinados. Os tiros se aproximam, quem os desfere também. Solto as granadas, ouço um sibilo. Granadas não sibilam. "Foguete!!!!!"
Meu corpo é arremessado para longe ao mesmo tempo que sinto dor e dormência. Acho que morri.

Ingrid, me beijando, pegando minha mão e me jogando no lago. Água fria, perfeita para despertar. "Queria ter um filho seu", ela dispara à queima-roupa, eficiente como uma Glock. "So se você casar comigo", revidei com minha M16. "Ah, é? Pois então caso". O lago quase nos abençoou. As montanhas quase foram os pastores celebrantes.
Eu quase morri.

Não morri. Outro estranho, com farda de gala, me presenteia com uma medalha. Meu país orgulhoso, heroísmo, blablabla. Não ouvia muito bem. A dor da perna esquera que não existia mais era pequena e eloqüente. Muitos se impressionavam por não usar muleta, apenas uma simples bengala. Não há surpresa; fui treinado para sobreviver até sem fígado. Ou sem pinto. Sim, a guerra me capou. "Não posso mais te dar um filho", disse a Ingrid, que chorava de raiva. "Apaixone-se de novo. Viva e dê a outro homem a paz que eu tive". O tapa que ela me deu foi como o morteiro que me aleijou.

A medalha pesa um bocado no peito. O estranho a quem designaram a tarefa de avaliar minhas condições emocionais e psicológicas sussurra palavras proparoxítonas bonitas em meu ouvido. "Só gostaria de mais um beijo de Ingrid", disse eu.

Ela não veio. A paz deve ter morrido. Ou então se esqueceu de mim quando escolhi ser um cachorro bem treinado. Tento fazer com que a paz se lembre de mim atrás do balcão dessa locadora.

"Não, não gosto de filmes de guerra. Mas essa comédia romântica da Meg Ryan é bem gostosa". A paz está no olhar de Meg Ryan. No sorriso de Jennifer Love-Hewitt. Na voz de Ingrid ao me convidar para seu casamento. "Você vem, não?"

Não, não vou. Hoje tem filme novo da Lindsay Lohan no cinema.

2.11.07

O referido é verdade e dou fé

Se eu acreditasse em teorias conspiratórias, diria que alguém, desde setembro, está tentado impedir minhas postagens. Ao tentar me logar em um cybercafé, a página do Blogger simplesmente se recusava a abrir. Mas agora que consegui, me vem à mente a mesma inquietação: vou escrever o quê?


De uns tempos pra cá, algumas coisas têm conseguido a proeza de me irritar profundamente. Assuntos religiosos, por exemplo. No posto de saúde onde trabalho há seguidoras de várias vertentes cristãs neo-evangélicas. Nada demais se não fosse o forte ranço fundamentalista que impera em alguns diálogos. Nada do que é feito tem o dedo de quem fez; se não for o belzebu e suas artimanhas é Deus escrevendo certo por linhas tortas. O homem, sempre fugindo da responsabilidade sobre sua própria vida, adora citar de cor versículos e dogmas sem parar para pensar em seu papel na trama da vida.
O que acho engraçado nisso tudo é que nenhuma dessas pessoas pensava nas sagradas escrituras ou assemelhados na flor da idade, quando o corpo era viçoso, a libido estava ativa e os excessos eram cometidos. A velhice sempre traz arrependimento para quem achava que viver era ficar bêbado e trepar até o último orgasmo. Tenho impressão que Deus existe apenas para os arrependidos.


Os católicos pensam que Deus é burro; os evangélicos, que Deus é surdo.


Indaiatuba esteve seca como o deserto em setembro e outubro. Não chovia, o calor deixava todos alvoroçados e houve uma séria ameaça de racionamento. Ainda assim, muitos armavam-se de mangueiras e desperdiçavam, lépidos, água tratada em calçadas e carros. Para corroborar a atitude de jerico, jogavam os dejetos nas bocas-de-lobo, entupindo-as. Claro que todos se conscientizaram depois da ameaça do SAAE, o responsável pelo tratamento da água e esgoto da cidade, de multar quem fosse pego desperdiçando água.
Quando, na última semana de outubro, a chuva caiu mansa e contínua, durante o dia inteiro, me detive sob ela por alguns instantes na calçada em frente a uma fundição. Senti gota por gota um alívio. O mormaço do asfalto já estava sob controle e meus óculos contavam os milímetros da precipitação. Andei calmamente pisando nas poças cantando uma canção. Não, não aquela. Esta.


Eu, que não acreditava em prêmios. Eu, que sempre achei que loterias eram formas lícitas de jogatina e de arrecadação de dinheiro sobre o sonho - o velho axioma "sonhar não custa nada" não é verdadeiro. Custa, sim; de um a cinco reais. Eu, que não arriscava coisa alguma por achar que "sorte" é uma palavra bonita, um eufemismo para "me dei bem mas você não precisa saber quem matei pra que isso acontecesse". Eu, o mais improvável dos mortais, ganhei um concurso. O catrão de mil reais da promoção da Kuat. Devidamente gastos, já deixando os urubus avisados.
Quando será que a Mega-Sena acumulará de novo?


Gostaria muito de poder viajar no final de ano. Rever pessoas e lugares. Fugir, por pouco tempo, dos sambas feitos por mauricinhos, dos forrós feitos por bondes imitadores de cantores sertanejos, do choro de crianças e gritos de adolescentes. Manter distância das pacientes impacientes. Ver o mínimo possível de mulher por pelo menos uma semana - não é misoginia, é saco cheio mesmo. Dormir e acordar sem precisar pedir licença. Descobrir o que há de novo, me cobrir com meus desejos antigos.
Gostaria de algumas coisas bem simples. Muito. Mas nada de promessas.


Sete anos, quase oito. Me dirijo ao banheiro para tomar banho, distante como sempre, em meu mundo paralelo. Chuveiro aberto, ouço a voz alcoolizada de meu pai chegando do bar mas aquele era apenas mais um som. Decido cantar a plenos pulmões uma música da Rita Lee que eu adorava, e ainda adoro. No meio dos acordes "afinadíssimos" que minha garganta soltava, a voz alterada do meu pai, em mais um embate verbal inútil com minha mãe. Alheio a isso, pulava feito um retardado debaixo d'água.
Como se tivéssemos ensaiado, eu cantava o início do verso "papai, eu não fumo, papai, eu não bebo..." e o pai, no mesmo ritmo (não é piada), gritou "PÁRA, NEI!!!". Estanquei os movimentos, apavorado e acabei o banho naquele momento. Estava criada a maior das piadas internas da família Trindade. Toda vez que minhas irmãs se lembram do episódio, elas cantam: "papai, me empresta o carro, papai eu não fumo, papai eu não bebo, PÁRA, NEI!". Ai, ai...


O título dessa postagem era um dos prováveis títulos desse blog. Como sei que muitos não sacariam o tom irônico que eu gostaria que tivesse, descartei. Asim como "Memórias num velho computador", retirada de uma canção de Ritchie, que provavelmente daria um tom sisudo demais a um blog tão errático. Pelo mesmo motivo foi descartado "Quem precisa de utopia?", trecho de música do mesmo Ritchie. E não, não sou apaixonado pelo gajo.


Não achei nenhuma das músicas acima. Mas encontrei o lado B do compacto "Aline", do Christophe, uma daquelas músicas que adoro sem saber exatamente porquê. Senhoras e senhores, "Les marionettes"!

10.9.07

O nono par

Em 1982, com meus quase falecidos 12 anos, minha professora de Ciências observou minha dificuldade em ver o que ela escrevia no quadro-negro em minha confortável carteira no fundo da sala. Ela me colocou na frente, o que melhorou um pouco minha percepção, mas a sensação "areia nos olhos" continuava. Não precisei dizer nada; o apertar dos olhos, quase me fazendo parecer um personagem do Jim Henson's Shop Creature, definiu a atitude de dona Sandra: chamar meus pais (melhor seria dizer "chamar minha mãe")e fazer com que eu visitasse um oftalmologista.

O sinal de alerta foi acionado: havia a possibilidade de usar óculos. O horror! Já antevia o que poderia acontecer com a minha nulidade social. De um gordo CDF e inofensivo ao coruja balofo com fundos de garrafa na frente dos olhos. Meu mantra antes da consulta era "tomara que eu só precise de um colírio".

No dia da consulta, apesar do doutor ser calmo e ponderado, entrei em pânico. Como assim, vão colocar esse treco em meu olho para "medir a pressão ocular"? E se ele furar meus olhos por engano? Descobri que especialidade médica me causava pavor. Nunca tive medo de agulhas, nem da broca do dentista. Mas o tonômetro... tentei não dar bola, mas o tremor e o bater de dentes foram espontâneos. Bem, como posso ver tudo o que escrevo, creio que o exame foi um sucesso.

Sim, um sucesso, exceto por um detalhe: eu tinha miopia com um pequeno, porém nada desprezível, grau de astigmatismo. "Mas pode ser curado com um colírio, né, doutor?". Ah, minha idiotice (ia escrever "inocência", mas não posso ser bondoso comigo mesmo)! Não escapei de minha primeira armação. Feita de aço, pesada pra burro e marcou minha vida. Não, literalmente marcou. Duas cavidades atrás das orelhas, mais duas onde os aros encostavam em meu crânio. Mesmo assim, o medo de ser alvo das piadinhas foi solapado pela melhor visão que tive desde que comecei a ler. Tudo ficou incrivelmente cristalino; podia ler cartazes a uma distância impensável há pouco mais de um ano, lia sem chupar meu rosto como os velhinhos do Muppet Show. Em menos de dois dias fiz as pazes com esse estranho instrumento com lentes côncavas.

25 anos depois não consigo me ver (sacaram? Ver, olho, óculos... é, ficou uma porcaria. Não sirvo nem como roteirista do Zorra Total) sem óculos. Alguns conhecidos e amigos tecem loas à praticidade das lentes de contato. Se eu tenho medo de um mísero tonômetro , que dirá de algo que preciso enfiar cristalino abaixo! E hoje, graças aos avanços tanto tecnológicos quanto estéticos, os óculos deixaram de ser um treco de metal para suportar as lentes (como meu terceiro par, imortalizado em uma bisonha foto 3X4 colada em minha identidade) para emoldurar o rosto de qualquer um.

Hoje, três graus mais cego - ou com uma ligeira perda de acuidade visual. Tá bom assim, panfletários politicamente corretos? - adquiri mais um par. Quando experimentei o modelo de um marca famosa (essa aqui, caso estejam curiosos) e não senti quase nada em meu rosto, toquei o que restou da depressão atrás de minhas orelhas e sussurrei: "essa é para vocês".



Acredite, me lembrei até da música que ouvi ao colocar os meus primeiros óculos. Essa aqui.

7.9.07

Se quer saber como estou...

Um relacionamento fora do seio familiar é uma das mais, senão a mais, importante decisão que tomamos. Não nascemos do ventre de quem escolhemos, não somos "obrigados" a conhecer os defeitos, manias e cacoetes graças à convivência diária. Há a atração física - sejamos práticos, o primeiro sentido que usamos para reconhecer quem nos agrada é a visão; o resto é poesia e roteiro de Nora Ephron - e a primeira patética tentaiva de contato verbal, que vão desde uma piadinha supostamente bem sacada ao "será que vai chover" à guisa de papo. Há a reciprocidade, pois me refiro a relacionamentos que se iniciam; as primeiras conversas mais sérias e os silêncios. O beijo, o primeiro relacionamento sexual e a agradável rotina da descoberta de um mundo novo. Todos que amaram outra pessoa são Américo Vespúcio.

Se há maturidade, descobre-se que a outra pessoa é realmente outra pessoa, com suas idiossincrasias, roncos e tensões pré-menstruais, palitos de dente e cabelos longos no ralo, beijos na nuca e mãos na bunda. Os bem resolvidos mudam o que podem, aceitam o que dá e teorizam as diferenças ora num papo entre dentadas em uma pizza, ora numa briga entre cacos de um copo de requeijão. E vivem uma vida que escolheram ao lado de quem escolheram, com pressões acupunturais de felicidade entre contas e novas obrigações.

O fim desse realcionamento não chega a ser cogitado a sério graças a essas agulhas de sorrisos. Por isso dói tanto quando o fim chega. Os cacos aumentam de quantidade, o sexo só tem sabor se proibido, questões formuladas na época do "benzinho, mozinho" e respondidas com o gugudadá típico tornam-se adultas com a velocidade de vida de uma mosca drosófila. A pressão dessa vida atinge níveis insuportáveis e as agulhas de acupuntura não surtem mais efeito. É preciso uma intervenção cirúrgica e ela se assemelha à da piada: a operação foi um sucesso mas o paciente morreu.

A tristeza e a letargia do "pós- operatório" são conseqüências de uma derrota que demoramos a absorver, pois nos negamos a reconhecê-la. Tudo estava lá: as causas, os efeitos, a profilaxia. Por que optamos pela "simples" separação e seus devastadores efeitos colaterais? Agora aí está você, mergulhado por livre e espontânea vontade no poço da solidão, querendo manter um nível elevado de elegância.

Hoje, graças à banalização do que é brega, aliado ao mal uso dessa verdadeira instituição nacional - se os arautos do "british and american cool" não tivessem vilipendiado o requintado gosto popular da década de 1970, teríamos nossos próprios rhythm and blues e soul music - , temos que nos contentar em ser tristes ouvindo uma bela melodia em uma língua estrangeira ou um grupinho de adolescentes que fazem barulho em cima de uam letra emo. Serve, é claro, mas precisamos ir ao fundo do poço para que possamos reforçar os músculos na volta que sempre damos.

O último romântico, em uma de suas sempre bem feitas letras, vaticinou: as canções mais tolas, tendo seus defeitos, sabem diagnosticar o que dói no peito. Após uma faca tão amolada como a separação, você precisa é cauterizar a ferida com algo nada benevolente. A dor dessa cauterização pode matar alguns neurônios, mas só aqueles que você não vai mais usar. Inclusive os que fizeram você ouvir e quase gostar da tal música.

Tenho algumas sugestões. E não se preocupe. Se o fim é um dos supremos clichês, a volta por cima e o novo dia após o ontem é O supremo clichê.

Quando você se apaixonar de novo, queira sempre se apaixonar de novo.