7.5.08

Epitáfio

Faleceu, às 17 horas do dia 07 de maio de 2008, o perfil do orkut "Sidnei Trindade". Ele tinha pouco mais de dois anos.
Filhote virtual de Sidnei, morador de uma cidade do interior de São Paulo, nasceu graças a um convite de Marco Antonio Veloso, a.k.a ByM, com o intuito inicial de reunir os amigos amealhados durante sete anos de incursões à Internet. Com o passar do tempo ele se revelou um excelente garimpo de inutilidades e novos amigos virtuais, além de mostrar o lado pouco pudico (para não dizer "as putarias") de muitos orkutnautas.
Não houve nenhum auge de entusiasmo ou adições sem controle. Graças ao pouco tempo que seu dono tinha para poder se dedicar tanto para postar quanto para navegar à toa, ele foi relegado a um segundo plano confortável e anódino.
Quando o Twitter foi descoberto pelo referido proprietário, tanto ele quanto sua página decidiram que era hora de encerrar as atividades quase inexistentes do orkut e isso determinou a causa mortis do perfil: orkuticídio. Foi uma decisão amigável e os aparelhos foram desligados, não sem antes a página ter sido sedada.
O perfil deixa 38 amigos, 4 comunidades, 168 recados (ou, em Português, scraps) e 5 testemunhos. O féretro seguirá para a terra dos bits juntos dentro de uma caixa escrito "delete" e será velado no Blogger. Pede-se que não mandem flores. Ou melhor, podem mandar alguns gerânios ou margaridas do site Orisinal.





Meia Dúzia de Qualquer Coisa: Foi uma decisão fácil de ser tomada?

Sidnei: De certa forma, foi. Estávamos distantes, como a diferença de audiência da Rede Globo com a CNT. Não nos fazia mal mas não nos acrescentava nada.

MDdQC: O que o Twitter tem a ver com isso?

Sidnei: É como se eu pulasse da cartilha Caminho Suave para Ulisses, sem escalas. De uma estrada alemã e monótona pulei para uma sessão de rafting! Maravilhoso, espero que eu continue com essa orgia orgástica por mais tempo.

MDdQC: Quer dizer que o orkut era só papai-mamãe?

Sidnei: Nem sempre. Às vezes rolava algo "diferente", se é que você me entende, mas era quase por obrigação e graças à terceira via do You Tube, sabe?

MDdQC: Seu relacionamento com aquela atriz global teve algo a ver, também?

Sidnei: Não falo sobre minha vida pessoal.

MDdQC: Ah, fala sim. Aqui comigo, pô!

Sidnei: Seguranças, por favor, a entrevista acabou.


1.5.08

Há muito tempo eu vivi calado

Tenho que dizer: não agüento mais ouvir coisas sobre o caso Isabella. Mais de um mês se passou desde o terrível crime e algumas redes de televisão transformaram isso em um circo de horrores, só faltando a mulher barbada e os gêmeos siameses. Foi um crime bárbaro, sem dúvida; o que não dá mais para suportar é a overdose. Acreditem, em famílias de classe média também acontecem rompantes de estupidez e violência. Se os tão devotados repórteres de programas sensacionalistas descessem de seu confortável pedestal e vissem a crueldade dos, digamos, menso favorecidos monetaria e culturalmente, encheriam seus jornais com Isabellas mortas. Bem fazem veículos um pouco menos propensos à sanha por audiência vazia e que agora apenas noticiam se há realmente algo para se noticiar, e não encher programas com "juristas", "advogados" e destrinchar os ossos. Isso fora o pré-julgamento.
Uma coisa sou eu, um sujeito com um blog, tecer uma opinião. Outra, bem diferente, é alguém que se orgulha de ter um diploma de jornalismo se achar juiz, júri e executor. Se a lei é lenta, reporte-se essa lentidão e use o poder que a mídia dá para que algo seja feito para que essa lentidão seja abolida. Por mais perverso que isso possa parecer, uma pessoa só é culpada legalmente quando um juiz confere-lhe a culpa mediante um julgamento limpo e justo. E sim, eu acho que o casal matou a menina. Mas não sou a lei e tenho consciência disso, por mais que em alguns momentos isso me revolte. Dura lex, sed lex, é o que muitos dizem. Pois que seja assim sempre, mesmo em casos tão tristes e cruéis como esse. Palavra de alguém que teve a mãe morta degolada.




Admiro a fé. A fé pró-ativa, que movimenta o mundo através de ações que o modifiquem. Infelizmente muitos usam a fé para mascarar o fundamentalismo e a ignorância. O mundo também é feito de "milagres", mas não só deles e definitivamente esperá-los passivamente é um atestado da mais encrustada burrice.
Se uma agência séria como a de aviação civil diz que em determinado dia não há condições para determinados tipos de vôo, isso deve ser levado em consideração. Se, ainda assim, alguém insiste em voar, não deve esperar que Deus o auxilie, mesmo que teoricamente seja um servo em sua "folha de pagamento". Deve, sim, usar roupas adequadas para suportar intempéries, ter e saber utilizar equipamentos de localização via satélite e sempre, sempre ter baterias e pilhas reserva. Ah, algumas latas de spam (a carne processada em lata, e não... ah, você entendeu!) também podem fazer parte do kit.
O desapareciemto do padre Adelir não foi uma tragédia. Foi fruto da teimosia de um homem cabeça-dura e egomaníaco, que achou que Deus tem a divina obrigação de guiar e auxiliar os menos precavidos. Mais ou menos como a anedota do náufrago, que no meio do mar, recusou a ajuda de um navio e de um helicóptero, dizendo: "não, obrigado, Deus irá me salvar". Ao inevitavelmente morrer, foi ao céu e pediu uma audiência com o Todo-Poderoso, onde reclamou por não ter sido salvo pela intercessão divina. Ouviu de bate-pronto: "o que mais você queria, meu filho? Mandei um navio e um helicóptero para resgatá-lo e você recusou!".




Pessoa 1: "Alô, é do posto da mulher?"
Atendente: "Sim."
P1: "Gostaria de falar com A., por favor."
At: "Ela não está, minha senhora; A. foi embora há menos de 15 minutos."
P1: "Então acho que você vai me ajudar. Estou com uma menina grávida com dores terríveis aqui, sabe?"
At: "A senhora poderia levá-la ao hospital..."
P1: "Não, meu filho, ela quer uma avaliação com o médico que faz o pré-natal dela aí no postinho. Estou com uma carta aqui do vereador Fulano de Tal, que me garantiu que é só apresntá-la aí."
At: "Já que é assim, vou falar com uma enfermeira..."
P1: "Vê o que pode fazer rápido aí, meu filho."

Pessoa 2: "Moço, quero falar com a doutora Beltrana de Tal."
Atendente: "Sobre o que seria?"
P2: "Ela me disse para procurá-la se os exames ficassem prontos e eu preciso falar com ela agora."
At: "A senhora tem uma autorização dela por escrito?"
P2: "Como assim? Foi o doutor Sicrano de Tal que disse que eu posso vir aqui e falar com ela!"
At: "De acordo com a doutora, ela só atende pacientes que não foram previamente agendados com uma autorização por escrito."
P2: "Não, o doutor Sicrano me disse e eu preciso mostar esse exame! Não dá mais pra esperar... quer que eu ligue para ele?"

Que esse ano eleitoral acabe logo. Por favor.



Minhas idéias foram vencidas pela rotina. O projeto ambicioso que eu me propus a fazer foi solapado pelo cansaço mental que o trabalho como recepcionista me causa. Ser funcionário público é estressante, tanto pelas cobranças quanto pela acomodação de alguns de meus colegas. Não ajuda muito só ter acesso à Internet uma ou duas vezes por mês.

Ih, mas não vou utilizar esse espaço para bancar o choroso coitadinho! Estou me movimentando, lentamente e continuamente e logo terei meu computador, meu acesso à rede e um canto meu, cheio de livros bacanas, uma poltrona, uma cozinha à minha disposição e uma solidão criteriosamente controlada. Esse "logo" não tem um prazo definido, mas é um logo que vislumbro com força e determinação. Enquanto isso fico enchendo lingüiça de vez em quando aqui em meu blog. Acredite, ela fica uma delícia no churrasco.

(Escrito em pouco mais de uma hora e meia ao som de coisas como isso. E isso. Cara, adoro o Magnatune! Mais uma que devo pro grande e essencial Janio.)

30.4.08

Vander Lee - Onde Deus possa me ouvir

Deixa eu chorar até cansar

Quando uma música me faz ter que disfarçar o choro, por exteriorizar coisas que se debatem há tempos em minha cabeça, merece não só minhas lágrimas, mas minha admiração. Um dia serei tão bom quanto quem me inspira.

Leia e ouça.

Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Sair, chegar lá fora e encontra alguém
Que não me dissesse nada,
Não me perguntasse nada também...


Que me oferecesse um colo, um ombro
Onde eu desaguasse todo o desengano;
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém...


Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem
Se empurram pro abismo,
Se debatem, se combatem sem saber...

Meu amor, deixa eu chorar até cansar,
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir;

Minha dor eu não consigo compreender,
Eu quero algo pra beber.
Me deixe aqui, pode sair...

Adeus



3.2.08

Dias sem luz, festa sem sal

Olha só, meu blog tá abandonado, estou ao mesmo tempo com muita pauta mental e com pouca inspiração e 2008 já está com uma barbicha querendo ficar grisalha. Então acho que vou escrever coisas nesse pouco tempo de cyber.


1 - Ser funcionário público é procurar pelos bicos que muita gente renega.

2 - Me lembrei da musiquinha que minha irmã cantava para um gatinho que tínhamos, preto, de nome Ragú. Para dizer a verdade era quase um proto-rap, mais ou menos assim: "Gu, Gu, Gu, muito Gu/você é um Gu/todo mundo é Gu/ mas quem não é?". Não era possível saber se o bicho gostava ou não, mas pelo menos ele não se incomodava...

3 - Em Indaiatuba é difícil recomendar restaurantes, lanchonetes... não, não é verdade. Eu é que não os freqüento. Quando me atrevo a interagir com meus compatriotas e a fome, larica, gula, sei lá, ataca, meu refúgio seguro é um quiosque na praça Prudente de Morais, em frente a uma loja Colombo, onde peço um X-Tudo e uma tubaína. Bomba calórica? Que nada, é uma hecatombe nuclear calórica. Por isso mesmo delicioso.

4 - Um susto. Minha pressão arterial chegou a 23/16 mm Hg no dia 28 de janeiro. Já tive picos de arrepiar, mas isto... estive tão próximo de um ataque cardíaco e isso foi assintomático. Me dei conta que poderia morrer sem sequer sentir dor, e eu não quero isso. Quero é viver e morrer com prazer e dor, sugando tudo que minha existência puder me dar. Sem descanso e sem piedade. Por isso, muito captopril e nefidipino.
5 - Nas palavras de uma banda cujo nome não sei, cantores de uma música que não sei o nome, "quando eu morrer eu quero um enterro de terceira, pois não gosto de gastar dinheiro em coisas que não dão prazer".
6 - O melhor presente de Natal que recebi de minha cunhada foi sua ausência. 15 deliciosos dias, rápidos, fugazes, mas perfeitos.
7 - Não é que eu não goste de crianças, eu só não gosto de conviver com elas, sabe? Ora, não há justiça: elas podem ser cruéis, nós não, pois temos "consciência de nossos atos". Deve ser reflexo de minha infância precocemente adulta.
8 - Depois de uma semana vendo, ouvindo e sentindo mulheres, nada é mais relaxante do que ficar rodeado de homens. Podem pensar o que quiser.
9 - Falta rock and roll em minha vida. Já estou me derretendo por qualquer riff de guitarra, qualquer mesmo. Agradeço aos céus quando ouço Fall Out Boy! Caraca, quando não é sambanejo, é tecnobrega, forrónejo, arrocha. Ouvir rádio é lavar o cérebro com água sanitária. Nem a MPB tá produzindo coisas relevantes; meu irmão disse, muito apropriadamente, que "esses carinhas novos querem ser os novos Chicos, Miltons, Caetanos, intelectuais demais e não se preocupam em ser eles mesmos". Bring on the dancing horses!
10- Deixeuvê... meu tempo tá quase acabando, dá pra mais algumas coisas?
11 - Quando passo em frente de uma banca, olho para as capas das revistas em quadrinhos. Aquele moleque babão ainda reside em uma gaveta e viajo no molho tártaro, até que o preço me atira de volta ao chão. Que saudade do formatinho... execrado pelos abastados, foi o formatinho que democratizou os super-heróis. Mesmo com edições e cortes, era uma fonte segura de diversão. Engraçado... hoje, com muito mais espaço para colocar os textos, reduziram o nome do Super-Homem. Só faltava chamarem o Homem-Aranha de Spiderman...
12 - "Quando você vai aprender a dirigir?", alguém sempre me pergunta no posto de saúde. Quando, atarantado, observo o ar estressado que emana dos motoristas e motoqueiros, sempre com pressa de chegar aalgum lugar e pesquiso preços tanto dos carros quanto da manutenção deles... minha resposta é "nunca".
13 - Minha nossa, quando o carnaval vai acabar? E esse Big Brother? Na sexta, primeiro dia do desfile de São Paulo, pensei que ficaria no "ora veja", já que não sairia de casa. Mas tio Silvio Santos me presenteia com "Um Sonho de Liberdade" na Tela de Sucessos. Pelo menos nesse dia deveriam usar a tradução literal do título, A Redenção de Shawshank. O carnaval é Shawshank e o filme é Rita, jogando o cabelão.
Talvez na próxima eu fale de Deus. Quem sabe de Júpiter. Ou até do sorvete de chocomenta com uma colherinha de sorvete sabor limão "para abrir o apetite" que o tiozinho da sorveteria me vende.
Só espero não deixar uma hiato tão grande entre uma postagem e outra. Pois esse blog é pra mim.

30.12.07

Meu mundo e nada mais

Ah, 2007! Feliz ano novo. Garrafas de cidra baratas sendo quebradas no asfalto, fogos, gente bêbada, promessas. Mal o ano começa, temos um buraco. Ou uma cratera, como queiram. São Paulo questiona, pela primeira vez, o valor de uma vida humana diante de obras necessárias, porém faraônicas e mal planejadas. O tal apagão aéreo vira panfleto e prosélito da classe média que pode viajar de avião, as estradas se tornam a violenta rota de fuga.
Próximo do meu primeiro ano como funcionário público, percebo que não há glamour, só cobranças. De um apedeuta ginecológico, passei a quase ser mulher de tanto falar com naturalidade em citologia oncótica, metronidazol e puérpera.

Num mundo onde tudo precisa ter planejamento mercadológico e uma sigla, Luís Inácio e seus rapazes e moças lançam o PAC, para esconder o fracasso do programa Primeiro Emprego. Ou seria para revitalizar a economia do país, que segundo os tais especialistas de jornal (engraçado, eles nunca estão no poder... suas idéias funcionam melhor em editoriais), não cresceu como a China, que faz o trabalhador suar 16, 18 horas por dia, ou como a Índia, que valoriza o ensino superior ao mesmo tempo que suporta a miséria ao lado das universidades. Enquanto o menino João Hélio morria de forma assustadora nas mãos de uma corja sem escrúpulos e o prefeito de São Paulo, descontrolado, chamava de vagabundo um homem, lá estava eu, dentro de um ônibus, indo para Tramandaí ver o mar pela primeira vez, ao lado de uma das melhores pessoas do Universo. Depois revi Porto Alegre ao lado de outra das pessoas mais incríveis do Universo (ok, meu universo é limitado pelo rio Jundiaí). Foi um carnaval sem samba, sem marchinhas e sem desfiles. Viu só como Deus ainda existe?

Aquela menina do Shop Tour, vestida como corista de igreja, entoou o mantra oficial desse ano, "Vai tomar no cu". Foi explícita, pois esse ano muita gente nos mandou tomar onde o sol não bate dizendo coisas como "relaxa e goza". Bastante apropriado, pois sexo anal é dolorido. Ou renunciando ao cargo para não perder os direitos políticos. Ou voltando à Câmara com apoio popular. Ou fazendo gestos obscenos após uma reportagem.
Não comemorei aniversário nenhum. O meu, deixei passar. 38 anos sem muito brilho, ao lado de pessoas igualmente opacas. Bem, comi um pedaço de bolo e comprei um tênis novo - sempre compro meus presentes - além de ter beijado com fervor pessoas que jamais verei de novo.
Meu blog fez um ano e esqueci de presenteá-lo com meia dúzia de palavras. Ele veio me assombrar, noite dessas, e me deu inspiração para duas ficções que ganharam o prêmio Hugo, foram indicados ao Pulitzer e receberam propostas de produtores para que fossem transformadas em filmes, um dirigido pelo Fernando Meirelles e outro pelo Brian de Palma. Acordei banhado em suor, com a fronha translúcida graças à minha baba e lembrando das duas pessoas que comentaram a minha incursão à seara ficcional. "Sai dessa lama, filho". Saí.

Enfrento a maioria de meus medos. Me sinto desconfortável quando me deixo levar por um motorista em uma rodovia cheia de carros frenéticos mas não deixo de viajar. Não gosto de sentir aquela luz cegante durante uam consulta oftalmológica, não gosto de ter a pressão de meu globo ocular medida, e nem por isso deixo de ir ao oftalmologista. Certo, não subo em um cavalo por motivo algum - tenho PAVOR desse bicho - e não ando de moto nem se minha vida dependesse disso - tenho PAVOR daquele treco motorizado sobre duas rodas - , porém sou um sujeito que encara os jilós da vida com a boca aberta (mas não muito). Contudo, quando o avião da TAM se chocou contra o prédio da TAM Express, tive outro medo. "Será que algum de meus amigos está no vôo?", me questionei, aflito e egoísta. Quando vi a dor dos parentes, queimei no fogo de Hades e logo voltei ao Valhala (eita, que angu mitológico é esse?) ao conversar com meu irmão gaúcho no MSN.

Depois de um hiato, voltei a ver uma novela. Quando criança, não as assistia; preferia Vila Sésamo. Na adolescência, vi algumas pequenas gemas de Cassiano Gabus Mendes, Janete Clair, Walter Negrão. Quase adulto - ok, sou adulo apenas cronologicamente. Podemos continuar? - , algumas de Silvio de Abreu, Benedito Ruy Barbosa e Manoel Carlos. Depois todo mundo quis fazer novela e o dejá vù foi asfixiante. Até o advento de Camila Pitanga e Wagner Moura. Parafraseando Luís Inácio, nunca na história desse país se viu um casal tão... delicioso. O cara era o vilão da história e tinha tudo para ser apenas mais uma caricata figura da teledramaturgia; a garota, uma prostituta mergulhada nos clichês e lugares-comuns preconceituosos. Graças à catiguria da cachorra e o amor que o escroque sentia pela vagaba, todas as cenas que vi da novela eram apenas as que eles apareciam. Se a Taíxxxx fosse um pouco melhor aproveitada, como era ao lado do vilão-mor, eu poderia dizer que vi quase toda a novela. Mas Paraíso Tropical, para mim, eram apenas "Bebel e Olavo" e a música da Elis, mal aproveitada.

A dor em minha perna direita, que ainda me acompanha, me fez abandonar o supletivo. Ouvi muita asneira, vi muita cara feia. "Você quer é viver de forma medíocre", "falta é força de vontade", "que desperdíco de inteligência, agora você vai desistir de vez". A dor é minha, de mais ninguém. Se alguém consegue se concentrar em uma aula de supletivo com adultos se comportando como bebês mimados, sentado em uma carteira feita para crianças até 12 anos e sentindo o latejar de uma dor quase insuportável, mérito de quem consegue. Não sou tão forte e concentrado assim. Pretendo me transformar num daqueles monges de filme de ação do Michael Dudikoff, que quebram paredes de isopor, ops, concreto, apenas com a força do ki.

Enéas morreu. ACM morreu. E nem assim as raposas percebem que esse é o final de todos. Nair Belo morreu. Benazir Bhutto morreu. Pavarotti morreu. Paulo Autran morreu. O Lé morreu. Eu ainda não morri. Aguardo notícias.

Quase consigo ter um computador de novo. A trave impediu o gol. Consegui me livrar de uma dívida com o Itaú. A bola foi onde a coruja dorme e entrou mansinha. Comprei um Mp3 baratinho com meu PASEP e contabilizo 98 músicas. Gol olímpico. Meu puxadinho teve que ser abortado antes mesmo de sua concepção. Chutou para a torcida.

Ouço vozes. "Por que no te callas?". "Pede pra sair!". "Bota na conta do papa". "Eu nunca vou te abandonar". "Ou ele ou eu". "Moço, tô com uma dor no pé da barriga". "Eu, na minha concepção, acho isso, você não acha?". "Quero marcar um ultra-vaginal". "Mô, é assim que faz?". "Nei, vem aqui". Vai pra sala um falar com a enfermeira...

Tevê digital. iPhone. Nintendo Wii. E eu só queria uma vitrola onde pudesse ouvir meus vinis. Como não encontrei, me desfiz de meus 30 discos restantes. Logo terei que me desafzer de meus CD's também. Ah, a tecnologia... a melhor desculpa para o abismo social.

Qual é a moral dessa mal e porcamente editada retrospectiva, afinal?

  • Minha vida é uma sucessão incessante de modorras.
  • O mundo anda tão complicado... (mas isso é título de música!)
  • A memória de alguém é função da intensidade do estilo de vida.
  • "Você precisa encher seu blog com algo, senão sua conta expira".
  • 2007 acabou.

Ah, 2008! Feliz ano novo. Garrafas de cidra quebrando no asfalto...

Ainda estou aqui. Quem sabe melhores retrôs virão, sem esse travo de amargura?

2.12.07

O referido é saudade e dou fé

Sinto saudade da rua Projetada. Visto com os olhos de hoje essas lembranças parecem vindas de uma realidade alternativa, mas minha rua, assim como muitas, antes de ter um nome oficial se chamava apenas Projetada. A terra avermelhada batida onde, para desespero das mães, eu e muitas outras crianças jogávamos bola, brincávamos de pique-esconde, mãe-da-rua ou balança-caixão (e se você não sabe do que estou falando, jogue isso no Google e descubra). As touceiras de capim-gordura, os cheiros da poeira e da chuva, puros e sem aditivos, os coquinhos de indaiá. As casas separadas por cercas de bambu amarradas precariamente e os vizinhos com seus comentários "sábios" sobre a vida, emaranhados de lugares-comuns ora bem vindos, ora amaldiçoados. Uma compreensão geográfica limitada mas compensada com toneladas de imaginação.
Sinto saudade dos programas de rádio que era obrigado a ouvir. Zé Bettio e seu arsenal de músicas caipiras, e uma provocação pessoal (pelo menos para mim era MUITO pessoal) que ele fazia depois de chamar a vaca Mimosa: não havia um mísero dia em que ele não falasse pra nonna (quem era essa tal nonna, perguntava eu para mim mesmo antes de descobrir o que era essa palavra) jogar água no gordo! Eli Correa e seu bordão "oooooooooi, geeeeeenteeeeeee!", seu populismo e suas histórias tristes. Lá ouvia-se muito Fernando Mendes, Márcio Greyck, Paulo Sérgio e Roberto Carlos. O terror dos terrores, Gil Gomes e sua voz aterrorizantemente anasalada a narrar as agruras do mundo cão, o preferido do meu pai e claro, meu preferido, "A volta do sucesso", com Altieris Barbiero, o principal responsável por amar tardiamente a Jovem Guarda.

Sinto saudade do forno de barro em meu quintal. Os pães feitos naquele forno eram deliciosos. Demandavam cuidado artesanal, como tudo na longínqua década de 1970, onde quem era pobre tinha que se virar e o fazia magistralmente - diferente de hoje, mas abafa o caso - : deixar a massa homogeneizada com força e carinho crescer debaixo de uma manta Parahyba, cortar pedaços cuidadosos e deitá-los em folhas de bananeira que iam ao forno previamente aquecido - não, não se ligava o gás, crianças; acendia-se a lenha - e aí esquecíamos um pouco dos bolinhos, que logo viravam pães dourados, macios e insequecíveis.
Sinto saudade da minha classe de primeira série na EEPG Benedita Wagner de Campos. Ficava perto do pátio da merenda, longe de todas as outras. Era uma bobagem, mas dava uma impressão de exclusividade... foi lá que aprendi a escrever, pois ler eu já sabia. Dona Sandra (não, ela não era minha tia) trazia letras de mão pontilhadas para que eu pudesse exprimir o que eu já sabia interpretar com os olhos. O DNA de minha letra veio de um capricho de um professora, veja você.
Sinto falta dos especiais do Roberto Carlos da década de 1970. Talvez fossem as músicas, numa fase onde ele não era o pastiche autoritátio de hoje. Talvez fosse a mão do finado Augusto Cesar Vannucci. Talvez fosse a inexistência de concorrência. Não sei. Mas eu adorava ver aqueles proto-videoclipes.
Sinto falta dos videoclipes. Desde aqueles do Fantástico, onde sempre apareciam os olhos de quem estavam cantando num close, se movimentando da direita para a esquerda, passando pelos clipes do programa Clip Trip da TV Gazeta (moderno até a medula! Via desde pérolas do britpop até o início do rap mainstream) e os bonecos da cópia da Globo, o Clip Clip, inventor da nefasta mania de editar os vídeos. Sonhava em assistir à MTV, mas as antenas de UHF não pegavam bem aqui na cidade.
Sinto falta da She-Ra e do He-Man. Do Pernalonga e do Patolino. Dos Trasnformers. Dos Thundercats. Do Toro e do Pancho. Da Cobrinha Azul. Da Super Máquina, mas não do David Hasselhoff - acredite, gostava do Kitt por causa da voz do Isaac Bardavid. Do Cannon. Da Dama de Ferro. Das Sessões da Tarde com filmes da década de 1950 e 1960. Dos filmes de Jerry Lewis e do Elvis. Deus meu, sinto falta até do Bozo!