19.1.07

A ida

Cinco e dez da manhã. O celular, sem crédito, funciona como despertador e toca uma melodia sintetizada com o sugestivo nome “Zen”. Os olhos abertos de repente se acostumam com a nova escuridão e me estico; primeiro as pernas; músculos reticentes em despertar, auxiliados pelas falanges dos pés; arqueio minha coluna e puxo meus braços longe do tronco, estalando os dedos durante o processo. Me levanto, calço meus chinelos pretos e me dirijo ao primeiro interruptor disponível.

Cinco e vinte da manhã. Debaixo do chuveiro, me ensaboando, ouço os primeiros proto-ruídos do dia. Um bem-te-vi, um ônibus, uma torneira. Silêncio. Pardais, um carro, passos sonoros. Silêncio. Ainda nu e molhado tiro as penugens de minhas bochechas e queixo, chamadas carinhosamente de “barba” por alguns engraçadinhos. Às vezes uso creme de barbear, mas me acostumei à espuma do sabonete.

Cinco e meia da manhã. Dou tchau ao meu irmão, que pedala sua bicicleta em direção ao seu trabalho. Tomo um copo de água, verifico meus pertences numa sacola de compras (camiseta, suspensórios e algum item de higiene pessoal ocasional) e saio, não sem antes ver se no puxadinho onde meu tio mora as luzes estão acesas. Se estiverem, me despeço dele também.

No meio do caminho, duas figuras recorrentes: o baixinho peludo e seu saco de pães, que nunca me cumprimenta e some na primeira rua da Vila Costa e Silva, sempre usando camiseta regata e bermuda e um homem já idoso, esbelto, bigode pequeno e grisalho, ou vestindo jeans e camisa ou trajando um daqueles conjuntos de moletom,também com pãezinhos. Trocamos um bom-dia rápido e impessoal.

Cinco e quarenta. Utilizo as calçadas da CECAP, vazias até as imediações da praça Renato Vilanova. Uma viatura da guarda municipal e sonolentos moradores esperando o ônibus dividem o espaço entre o banheiro público e o ponto de ônibus. De longe vejo as luzes das geladeiras do supermercado e o velhinho que aparentemente “toma conta” do patrimônio sentado numa das cadeiras de um dos caixas, olhando para fora. Seus óculos refletem as fortes luzes do lado de fora.

Um pouco mais à frente as duas senhoras que todos os dias caminham juntas e que há pouco estavam atrás de mim me alcançam e me superam; as duas com cabelos grisalhos (a de estatura mais baixa os tem por completo), as duas usam óculos, as duas vestem calças corsário em tons cáqui e camiseta com o logotipo da SESLA (Secretaria de Esportes de Lazer). Raros comentários e passos firmes até o viaduto da rodovia SP-75. De repente, clique!

Passo em frente a uma loja recém inaugurada que tem um sensor de movimento – clique! – que aciona lâmpadas fluorescentes, iluminando a vitrine. As roupas são irreais demais para um gordo como eu e não me chamam a atenção, excetuando-se uma inscrição ou outra em Inglês numa camiseta baby-look.

Cerca de cinco e cinqüenta. A padaria que delimita o fim da CECAP (na verdade o nome oficial do bairro é Núcleo Habitacional Brigadeiro Faria Lima. Entenderam o porquê usamos mais a sigla - Central de Casas Populares?) aromatiza a calçada. Lá o quilo do pãozinho francês custa 4 reais e 50 centavos. Uma padoca que, após a reforma, ficou com ar chique, com direito a uma cafeteria, tevê de 29 polegadas, mesinhas e um canto com gôndolas cheias de produtos de mercearia. De lá saem uma mulher de rosto pouco amigável, policiais saciados de sua fome matinal, outra mulher, bonita, com roupas compatíveis à sua faixa etária – blusinhas e saias curtas, alguns homens uniformizados, uma sucessão de logotipos de empresas situadas aqui.

Cerca de seis horas. Alguns raios de sol tímidos deixam o horizonte atrás do Jardim Kyoto avermelhado e já estou na calçada da Fundituba, uma (dããã...) fundição situada em um enorme terreno entre a CECAP e o Parque das Nações. Calçada ampla, onde os pedestres são obrigados por força da velocidade a conviver com ciclistas. Cruzo com os habituais senhores e senhoras, caminhando juntos por recomendação médica e com outros uniformizados. O homem que passa assoviando canções sertanejas antigas passa como um bólido em sua bicicleta. Já reconheci “Chico Mineiro”, “Franguinho na panela”, “Baile na roça” e “Fio de cabelo”. É assustador conhecer tantas músicas que não ouço com freqüência.

Já no Parque das Nações, o sol já um pouco mais pronunciado e o horizonte, agora acima do Centro de Atividades do SESI, já fica mais azul do que vermelho. Próximo ao PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) uma banca abre sua porta e seu dono ajeita as edições dos jornais do dia e algumas revistas recém-chegadas. Um anacrônico cheiro de almoço se apossa entre o meio e o final do bairro; cebola, alho, óleo de soja e caldo de carne, vindos de um restaurante especializado em marmitas. Espero ver o grande luminoso do Habib’s, em frente à rotatória da avenida Ário Barnabé. É o fim de mais uma parte do trajeto e verifico a hora. Seis, seis e cinco.

A avenida Ário Barnabé corta o Jardim Morada do Sol, de longe o maior bairro da cidade. Ela forma um trapézio com a base voltada pra cima; o cume é a ponte sobre o córrego Barnabé. Os postes são novos e formam uma grande serpentina iluminada no centro, junto à ciclovia também nova. Ando no lado esquerdo. Desço sem esforço o declive (pra baixo todo santo ajuda!); perto da terceira padaria (o pão está 4,50 o quilo também) os guardas noturnos trocam os turnos lentamente entre goles de café: o guarda do supermercado, os guardas de uma empresa não identificada. Junto deles há uma matilha de cães, cinco ou seis (é, sou exagerado, mesmo), esperando as sobras de comida e um pouco de carinho.

Antes do aclive começo a me transformar em uma entidade: o moço do postinho. Quando cruzo com gestantes recebo um olhar de reconhecimento seguido de um “oi” acompanhado de um sorriso. Se as mulheres são pacientes de climatério, a abordagem é diferente. O olhar é de dúvida, seguida da pergunta: “escuta, você não é o moço do postinho?”. Quando confirmo, relutante, sou bombardeado com perguntas diversas sobre dias, horários e eventuais queixas.

Subo a segunda parte da avenida e não há como deixar de comparar meus atuais 37 anos aos meus 18, 20. Uma época onde eu ainda era gordo, porém bem mais resistente às distâncias e aos acidentes geográficos. Bastava um par de chinelas velhas, uma bermuda puída e uma camiseta e lá estava eu, vendo o (pouco) movimento do centro da cidade, perambulando pela zona rural, vendo ao longe o estande de tiro da comunidade helvética ou simplesmente vendo o pôr do sol em pontos hoje impossíveis.

Há um ponto de referência espertamente colocado no alto da avenida: um Cristo de braços abertos. Duas quadras antes da estátua do filho do Senhor, segundo a liturgia cristã, dobro a rua 32, à esquerda. Começa o final da peregrinação, diante da confusa numeração do bairro. Depois de uma grande loja de materiais de construção e de dar bom dia a um velhinho que sempre encontro sentado numa pequena mureta, as ruas perpendiculares seguem uma ordem definida provavelmente entre doses de cerveja e porções de salame: primeiro a rua 26, depois a 27, 28, 29 e 30. Logo após vem a 75 (isso mesmo!), a 76, a 77, a 78, que é onde fica o posto e depois a rua... 53, a rua 79, a 80, a 81, a 82... é melhor parar por aqui.

Perto da quarta padaria (3,50 o quilo do pão) o catador de papelão e latinhas – ops, reciclador, de acordo com a cartilha politicamente correta – conduz um carrinho já lotado em silêncio e de cabeça erguida. A rua é estranhamente deserta nesse horário, seis e quinze mais ou menos; alguns moradores saem sobre duas rodas, motorizadas ou não ou a pé mas uma quietude nervosa reina. Mais três quadras e chego perto da quinta padoca (olha, 2,99 o quilo do francesinho!) e da escola estadual que divide a quadra com o posto. Retiro as chaves dos portões do bolso.

Seis e meia, um pouco mais. Se for segunda ou sexta-feira, certamente já há algumas pacientes aguardando a coleta de sangue e agendamento de prevenção. Nos outros dias há sempre uma ou duas querendo ser “a primeira”. Não deixo de me irritar internamente. Nunca vi com bons olhos essa mania de se formar filas antes do horário de abertura de qualquer instituição. Os bancos, por exemplo; se eles abrem às 10 horas, por que perder uma preciosa hora de nossas vidas sob sol ou chuva? O prazer de ser “o primeiro da fila”, talvez? Ou a culpa é da quase endeusada falta de tempo... o fato é que independente de tudo isso, a verdade é uma só: os bancos só abrirão às 10, os postos só abrirão às 7. Se não há necessidade de senhas prévias, as filas formadas horas antes são inúteis, contraproducentes até. Ih, olha o panfletário!

Abro os portões tanto da rua 78 quanto os da rua 53. Dentro do posto, depois de acender as luzes, me limpo rapidamente. Camiseta nova, suspensórios no lugar, fito o espelho. Às vezes não gosto do que vejo; olhar perdido, algo desesperançado, músculos sem expressão. Quando me vejo assim, jogo água em meu rosto e bato em minhas bochechas vigorosamente. Uma, duas, no máximo três vezes. “Isso mesmo, acorda par vida!”, penso em voz alta, junto com o mantra ensinado por Alexandre Inagaki: “a vida é boa e cheia de possibilidades”. Quando reconheço meu sorriso saio e me preparo.

Sete horas. Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo!

13.1.07

As colinas estão vivas e tristes

Música que me faz chorar me deixa constrangido. Mesmo que não chore mais ao ouvi-la pela sétima vez há sempre o ligeiro desconforto seguido de um pensamento contraditório: “puxa, que música bonita”. O que acontece depois, pelo menos comigo, é escutar a canção até que os tímpanos estourem. Depois as audições tornam-se menos freqüentes até rarearem, virando objeto de culto particular. Como a trilha sonora do primeiro beijo, da briga, do momento mais feliz ou triste.


A grande diferença de músicas com essas que citei e as que fazem chorar é o imponderável. Ninguém espera derramar lágrimas enquanto caminha despreocupado ou está dentro de um ônibus; no entanto é o que acontece, ainda bem que não freqüentemente. E minhas poucas músicas choronas são:


- “Ready to take a chance again”, Barry Manilow – essa eu ouvi dias depois de minha mãe ter me visitado na Cidade dos Menores, caso já contado aqui. Não bastaram minhas lágrimas após a partida, esse corno do Barry tinha que me lembrar que estava tudo ok, mas não muito bem. Diabos!
- “Kissing a fool”, George Michael – o primeiro disco de vinil que comprei foi o álbum duplo “Bring on the night” do Sting e o segundo foi “Revenge” dos Eurythmics – herdei alguns discos do Roberto Carlos de meu tio, o que me fez admirar perdidamente a Jovem Guarda. O terceiro foi a obra-prima pop “Faith” (minha humilde opinião aqui), recheada de gemas do quilate da faixa-título, “One more try” – que um fulano disse ser um libelo gay antes dele assumir, graças à interpretação do gajo cujo nome não lembro – e “Father figure”. No lado B (quem ainda se lembra dos vinis sabe do que falo) a última música foi uma flecha. O piano jazzy, a escovinha na bateria e George cantando suavemente a crônica de um abandono. Calhou de estar num momento incerto de minha vida e ao ouvir “você está longe, e quando eu poderia ser sua estrela”... bem, foram lágrimas bem derramadas no sofá.
- “Os velhinhos”, Roberto Carlos – o disco agora é “Roberto Carlos canta para a juventude”. Embora os destaques sejam as inacreditáveis canções “Brucutu” – versão esperta de “Alley Oop” feita por Erasmo Carlos – e “Eu sou fan do monoquíni”, onde ele narra as aventuras de um brotinho (essa gíria antiga é muito engraçada) de monoquíni que antes só usava biquíni e que desfilou seu corpo numa sessão de nado em uma praia - na época ele não podia contar que viu os peitinhos desnudos, que meigo! - , a última faixa do lado A, com uma candura anacrônica até para os anos 1960, é que me fez imaginar um futuro idoso e um tanto melancólico. “Amanhã estaremos velhinhos, contaremos juntinhos os segredos do amor para os nossos netinhos”. Brega pra cacete, né? Por isso chorei.
- “Despedida”, Roberto Carlos. Esse nem preciso dizer com minhas palavras o porquê; vou apenas transcrever a letra: “já está chegando a hora de ir/ venho aqui me despedir e dizer/ que em qualquer lugar por onde eu andar/ vou lembrar de você./ Só me resta, agora, dizer adeus/ e depois o meu caminho seguir;/ o meu coração aqui vou deixar/ não ligue se acaso eu chorar/ mas agora adeus...”. Tá bom pra você?
- “Seguir em frente”, Rick e Renner - ok,ok, música breganeja é um pouco demais, mas algumas escondem pequenas doses de poesia, sim. É como cantou sabiamente Lulu Santos: “as canções mais tolas, tendo seus defeitos, sabem diagnosticar o que dói no peito”. É difícil acreditar que uma dupla que compõe para a dupla Gino e Geno coisas como “eu já fui de você, eu já fui de você; meu amor, eu não esqueço que eu já fui de você” possa me fazer chorar. Porém, dentro do ônibus fretado pelo meu ex-empregador em 2003, ouvindo compulsoriamente a rádio cem por cento breganeja preferida por muitos moradores de Indaiatuba, os versos “amanhã, semana que vem ou mês que vem, quem sabe (...) eu vou encontrar um amor de verdade” foram um soco; as lágrimas vieram tão rápido que tive que engoli-las para que meus colegas não percebessem. Bem,se serve como explicação, estava em uma de minhas fases mais carentes.
- “Come on home”, Everything but the Girl – descobri os videoclipes como fonte de diversão lisérgica sem precisar de drogas. Toda beleza e podridão dos pioneiros dos vídeos musicais eram exibidos na tevê aberta e eu tomava minha overdose diária na TV Gazeta e semanal na Globo.
Numa sexta do ano de 1990, só em casa, sentado em minha poltrona predileta (ela era dobrável, com um tecido de algodão azul com flores que não sei identificar – talvez copos-de-leite), terminava de ver um clipe dos Eurythmics - “There must be an angel (playing with my heart)” – quando tudo escureceu. Uma luz fraca deixava as silhuetas de um maestro, alguns músicos com violinos e metais e uma cantora flutuando como fantasmas no tubo televisivo (minha tevê era preto-e-branco; só vi tevê em cores em 1994). De repente as cordas soam, discretas; uma lágrima cai ao mesmo tempo. Tracey Thorne canta, suave; mais lágrimas. Para resumir, durante os aproximadamente três minutos da música chorei, sem motivo aparente; não entendi a letra, não me identifiquei com a personagem da canção, não liguei nenhum sentimento reprimido ao que era cantado. Só chorei como criança. Principalmente quando ela quase implorava “venha para casa, meu bem, venha para casa”. Ouso dizer que foi o segundo melhor ataque de choro que tive.

Música que me faz chorar me constrange. Mas gosto de chorar. Como diz uma propaganda, dá um alívio...

12.1.07

Dias de molhos e massas

Gastronomia. A baixa. Não há como não me lembrar, entre salivações intensas, dos sabores de minha vida. Trabalhar entre mulheres traz essas lembranças graças à intensa troca de receitas entre elas. E não venha me classificar de machista; estou entre elas (um amigo disse, ironicamente, que sou bendito entre as mulheres, pobre de mim) e só digo o que ouço e vejo. Ok, sem digressões.

Uma de minhas colegas estava escrevendo uma receita de bolo de cenoura e veio à minha boca o sabor inesquecível dos bolos que minha mãe fazia. O pão-de-ló leve, o doce tanto do açúcar quanto da cenoura e a casca que a calda de chocolate formava – às vezes era o chocolate do padre, noutras era achocolatado mesmo – misturavam-se numa harmonia quase orgástica.

Os domingos de boa vontade eram domingos de nhoque. Minha mãe, empregada doméstica de forno e fogão, aprendeu os segredos da massa com uma de suas inúmeras patroas descendentes de italianos. Antes das massas prontas e da praticidade de hoje, ela dedicava a manhã num ritual que eu acompanhava fascinado. Primeiro, as batatas, afogadas em uma grande panela no fogo. Enquanto elas coziam, ela separava a farinha de trigo, os ovos e o óleo e os deixava à mão. Em outra panela, uma refoga com cebolas e alho moído aromatizava o ambiente, esperando a companhia da carne moída.

Com o molho borbulhando – Deus, o aroma do manjericão! – era hora de descascar e espremer as batatas, já macias. Ver as antes imponentes batatas desmancharem-se em pequenos filetes cilíndricos era, e é, hipnótico. Toda a massa formada pelos filetes era amalgamada pela farinha, pelos ovos e por um pouco de óleo de soja, numa massagem vigorosa, até formar um único bolo enfarinhado e amarelado. Nessa hora minha mãe dava um sorriso e anunciava: já está quase tudo pronto.

Chegava a hora de minha parte predileta. Molho pronto, massa devidamente misturada, era hora de colocar mais uma panela no fogo, dessa vez com água apenas. Enquanto a água aquecia, o enorme bolo era repartido em pequenas bolotas, que eram enroladas numa superfície enfarinhada para formar um grande cilindro com diâmetro de um centímetro, centímetro e meio. Habilmente dona Benedita cortava com uma faca pequenos travesseiros. Cilindros, travesseiros, cilindros, travesseiros... e quando a água fervia, minha mãe dizia: “Nei, me ajuda”. Ela colocava os travesseiros na água e depois me orientava: “quando a massa subir, tira com a escumadeira e coloca no escorredor”. Quando ela disse isso pela primeira vez, não entendi... como assim, “a massa subir”? Foi quando vi a maravilha: a lei da gravidade simplesmente deixou de existir e as trouxinhas começaram a emergir, uma a uma. Os travesseiros giravam em seu próprio eixo e flutuavam na água quente.

Momentos extraordinários culminando com um almoço delicioso. Esses domingos de nhoque eram pequenas raridades, no máximo 5 por ano. Era o que eu chamava de perfeição: fartura, satisfação e calma. Sim, comida é prazer e memória.

31.12.06

Estrada de minhas lágrimas

Sim, eu choro. Não tanto quanto deveria mas choro. Sempre achei bobagem o conceito “homem não chora” por motivos biológicos: se não choramos, por que nascemos com glândulas lacrimais? Quem quer que tenha inventado a suposta força masculina não levou em consideração que somos diferentes das mulheres apenas em alguns traços biológicos. Esconder o que sentimos pode ser “coisa de macho” mas torna-se contraproducente com o passar dos anos, ao nos vermos angustiados e macambúzios sem um motivo aparente.


Pode ser por vergonha, falta de traquejo; são raros os homens que sabem chorar. E saber chorar não é apenas deixar as lágrimas verterem rosto abaixo, é entregar parte de nossos medos e deixar o abandono consumir as energias a cada soluço. É preciso entender que o choro não precisa de um motivo lógico, apesar do que nos foi ensinado no decorrer da infância e adolescência.


Veja a tristeza, por exemplo. Ela é o motivo clássico do choro e mesmo ela é solenemente ignorada numa fungada proeminente e na mudança de assunto. Num belo dia o homem reclama das noites sem dormir, da inquietude sem motivo aparente, da irritabilidade com mulher e filhos e culpa qualquer causa externa disponível ao intelecto. Onde já se viu, ser responsável por algo mais do que o pagamento das contas?


Aprendi o valor terapêutico do choro da melhor maneira: chorando. Tinha nove anos em 1979 e estava numa instituição que abrigava menores em Campinas – um dia eu conto o porquê. Num domingo de julho minha mãe foi me visitar. Não esperava que ela viesse, pois sabia que ela trabalhava muito, inclusive nos finais de semana. A ausência dela era sentida apenas como um leve desconforto no peito, rapidamente abafado pelo dia a dia de estudo e trabalho.


Naquele domingo, porém, ela caminhou devagar em minha direção após sair do carro. A princípio não acreditei, depois corri alucinado para receber e dar um gostoso abraço. Durante o período da visita, entre 9 e 17 horas, senti a felicidade em seu estado bruto. Ouso afirmar que esse momento é um dos cinco mais felizes de minha vida até então. Estava eufórico, falante, sorridente. Mostrei meus lugares prediletos, sentei-me ao lado dela em meu banco (eu o considerava meu por ser meu ponto de fuga, para evitar o contato com aqueles estranhos que me chamavam pelo nome). Na pequena capela, rezamos um Pai-Nosso e continuamos a falar amenidades, nada memorável em termos de retórica porém era como um cobertor felpudo durante aqueles invernos de sete graus.


O tempo, que não está nem aí para a saudade alheia, determinou o fim quando ela olhou para o pequeno relógio de pulso que ela portou até o dia de sua morte e me disse, suavemente: “Nei,tenho que ir embora”. Fiquei quieto e a acompanhei até o Fusca, onde outra mulher a esperava. Dividimos outro abraço, depois ela sorriu e acariciou meu rosto. O último “tchau” foi dado entre a poeira que os pneus fizeram ao afastar dona Benedita de mim.


Sabia que antes do anoitecer deveria estar na casa 3, onde eu e mais 29 meninos convivíamos. Sabia que eu deveria tomar banho antes de jantar e guardar os lençóis de domingo. Sabendo de tudo isso fui ao meu banco, entre os eucaliptos e desabei nas tábuas parafusadas em troncos. Coloquei as mãos em meu rosto e senti o aroma do perfume dela; um odor adocicado com pequeno tom verde. Então chorei. Solucei. Todo o desconforto transformou-se em saudade doída que me deixou vertendo lágrimas salgadas e abundantes.

Após muito tempo, não sei precisar o quanto, parei, exausto. Respirava fundo, quase comendo o ar. Enxuguei meu rosto com as palmas das mãos, suspirei e me dirigi à casa. Tomei meu banho, comi meu jantar, dobrei e guardei meus lençóis de domingo. E dormi. Profundamente.


É apenas um pequeno fato de minha vida. Chorei sim. Mas depois a vida seguiu seu curso e não remoí aquela saudade pungente. Chorei mais vezes, por motivos diversos – como por exemplo ao ouvir “Seguir em frente” do Rick e Renner no ônibus, na ida ao meu antigo emprego ou por ouvir “Os velhinhos” na voz de Roberto Carlos, ou por ouvir “você não faz meu tipo” da pessoa que mais amei até 2004-e depois de cada lágrima,o cansaço e um certo alívio. Sim, pois quantas toneladas pesam um rancor, uma palavra não dita!


Choro sim. Não com a mesma intensidade e com a mesma freqüência com que dou risada, mas choro. E sei que preciso chorar mais.

29.12.06

De cinco em cinco

Resisti bravamente à tentação de tecer listas, prognósticos e desejos. Embora mais cedo ou mais tarde eu acabe cedendo e fazendo listas, prognósticos e tendo desejos, desta vez o motivo é nobre: o pedido de meu amigo Janio, que para mim tem força de decreto presidencial. Ele enumerou cinco objetivos para o ano vindouro (adoro essa palavra, “vindouro”. Soa tão... profética!) e pediu para alguns blogueiros fizessem o mesmo como em uma corrente. Ele não fez apenas isso, contudo: também disse cinco coisas que ninguém sabia sobre ele.

Cinco, assim como dez, são números que nos perseguem pela praticidade. Afinal, tudo começou com os dedos de um senhor no Oriente Médio sentindo necessidade de contar ovelhas. Ih, mas já enrolei demais. Sem mais delongas e com mais algumas listas – mo meio do processo me empolguei – aqui estão:

Os cinco objetivos para 2007

1 – voltar a estudar. A matrícula está feita e a escola, escolhida. Chega de procrastinação estudantil; ou eu completo esse bendito ensino médio ou jamais terei paz.
2 – ler mais e melhor. Se na minha adolescência eu era uma draga de best sellers na biblioteca, em minha idade adulta estagnei. Dos meus vinte anos até agora li pouco mais de cinco livros, entre eles “O xangô de Baker Street” e “O homem bicentenário”. Preciso ler os clássicos, por mais herméticos que eles sejam. Ler os mais vendidos também, claro, se o preço ajudar. Ler tudo que me enobreça. E algumas bagaças também.
3 – ver o mar. Pra dizer a verdade, nunca achei necessário estar perto do oceano; uma de minhas bobagens pragmáticas. Sequer sei nadar! Só que ver o mar não tem nada a ver com nado, tem a ver com deslumbramento. E é tão fácil: basta ir à rodoviária de Campinas e entrar num busão pro litoral. Mas nada de sunga! Ninguém merece ver um gordo em trajes de banho.
4 – beijar, beijar e beijar. Nunca senti tanta falta dessa troca de saliva quanto em 2006. Esse ano que finda foi o mais produtivo sexualmente falando, mas por motivos que fogem de minha compreensão encontrei a parte da população que não beija. Lábios sedentos, apresentem-se!
5 – voltar a Porto Alegre. Foi um de meus impulsos mais produtivos; conheci um povo diferente do estereótipo “brancos racistas e metidos a besta” que era obrigado a ouvir de meus colegas ao externar meu desejo em conhecer o Rio Grande do Sul, desejo que guardava em mim desde meus 15 anos. Feliz impulso que me fez arrumar uma mala, pegar a estrada e conhecer pessoalmente a pessoa que mudou perspectivas importantes de minha vida (nem vem, Janio, é de você que eu falo). Eu vou voltar. Preciso conhecer o que não tive oportunidade de ver na primeira vez.

As cinco coisas que ninguém sabe sobre mim

1 – quando estou nervoso ou excitado ou ansioso, mordo a parte de fora do meu punho esquerdo fortemente. Essa autoflagelação era mais comum entre meus 12 e 28 anos, um período de descobertas e ódios extremos. Hoje esse hábito reduziu-se a quase nada. Mas quase, como sabiamente disse Roberto Carlos, também é mais um detalhe.
2 – por força de minha solidão sempre me fiz de forte e auto-suficiente. Emulo essa pujança tão bem que todos me deixam só e me acostumei a isso. Às vezes, contudo, gostaria de ter um colo onde pudesse recostar minha cabeça, ou braços que me acolhessem.
3 – adoro salada de rúcula. Adoro! Se em um churrasco faltar carne, eu até entendo. Mas rúcula? Nem pensar.
4 – amor, amor MESMO só senti pela minha mãe, apesar do abandono, pelo meu pai, apesar do alcoolismo, pelos meus irmãos, apesar da indiferença, pelo Janio, por tudo que ele representou, pela Maria Ângela, apesar das chacotas, e por alguém cujo nome não posso dizer, por me ensinar o que é sofrer por um amor não correspondido. Espero que em 2007 esse rol de amores aumente.
5 – gosto de rir, mas também de chorar.

Cinco quase nomes do meu novo blog

1 – “Memórias num velho computador”
2 – “Memórias do pó”
3 – “Janela lateral”
4 – “Tudo, nada e mais alguma coisa”
5 – “Respiro, logo existo”

Cinco frases que eu adoraria dizer, se tivesse oportunidade

1 – “Me dá um beijo, porra!”
2 – “O referido é verdade e dou fé”
3 – “Ubi dubium, ibi libertas”
4 – “Adoro seus dedos em meu cabelo”
5 – “Eu te amo, sabia?”

28.12.06

Gotas e sonhos

Ao identificar o ursinho Pooh com asas, senti falta de minha inocência. Vi um morcego e o Tutubarão também. O céu cheio de nuvens era uma tela onde o vento fazia as vezes de pincel. Sentados nos terrenos gramados eu e meus irmãos descrevíamos cada forma que as nuvens tomavam. Carros e cavalos alados eram comuns, anjos e animais domésticos variados, amálgamas improváveis (“olha, Sid, é você com rodas de trator!”).
Quando um terreno nos oferecia um monte de areia, lá estava eu, criando estradas, túneis e pontes para meus carrinhos, verdadeiros prodígios arquitetônicos. E tal qual os terríveis monstros que Spectreman combatia, eu os destruía com pisadas e socos quando ouvia “Nei, vem tomar banho pra jantar!”.
Nem sempre o serviço de água era eficiente em minha infância, mas nem isso era empecilho para a diversão. A água não vinha na torneira? Hora de ir à bica d’água! Mãe, às vezes pai, tio e meus irmãos nos armávamos de baldes e garrafões de vinho vazios e nos dirigíamos a uma edícula próxima ao córrego Belchior, encher os recipientes e nos divertir no mais próximo de um parque aquático que tínhamos. Não havia verão que resistisse à refrescância de águas outrora limpas, entre gritos de êxtase.

Evidente que hoje ainda há resquícios desses anos pueris, mas infelizmente (ou não, dependendo da dose) as pimentas do cinismo e do sarcasmo temperam nossa visão e percepção. Não nos basta vermos pombas e montanhas formadas pelas nuvens; temos que saber que nuvens são feitas de gotículas de água evaporada e condensada e caso vejamos alguma forma temos que compará-la a um quadro de Vermeer, Goya, Boticelli. Se antes a chuva inesperada era motivo para pularmos nas poças, hoje nos irritamos se sujamos nossos tênis e tamancos. O pôr-do-sol era a promessa de mais um dia de arruaça, diferente de hoje, a confirmação de um dia a menos.

É inevitável sermos mais experientes e cínicos; nosso cérebro assimila o mundo com níveis de discernimento cada vez maiores. Só uma coisa resta: uma pequena nesga, uma pulga do que foi nossa ingenuidade. É quando nos pegamos cantando algo pertencente à nossa infância com os olhos marejados – no meu caso, “todo dia é dia/ toda hora é hora/ de saber que esse mundo é seu./ Se você for amigo e companheiro/ com alegria e imaginação,/ vivendo, sorrindo/ criando e rindo/ será muito feliz e todos serão também...” - , ou quando esquecemos que nossa roupa é da marca X e nos esbaldamos debaixo de um toró inesperado. Quando rimos de piadas antigas e puras como se a ouvíssemos pela primeira vez; quando saboreamos uma bobagem bem temperada com gosto de fogão esmaltado ou de lenha.

Ou quando vemos morcegos planando dentro de um donut que está para ser mordido pelo Mickey, estranhamente com uma capa de super-herói.


Sabe, no fim de ano fico extremamente sentimental. Pensei que os anos mudariam isso, mas vejo que não. Quem sofre é meu blog. Ainda bem que ele aceita meia dúzia de qualquer coisa. Mesmo.


Janio, meu filho, acabei de ler sua convocação. Farei a tal lista antes do fim desse ano par. Mas acho que cinco objetivos são demais. Enfim... o que você não me pede chorando que eu não faça sorrindo?
A propósito, que negócio é esse de acabar com o sorvete de pistache de Porto Alegre? Não se atreva a fazer o mesmo aqui em Indaiatuba...

21.12.06

O beijo

Meu caminho habitual cheira a pastel e algodão das toalhas no varal; tem cores primárias pintadas nos muros e pinceladas vivas em detalhes texturizados. Meu caminho faz parte da rotina que me acompanha das cinco da manhã às dez da noite. Rotina iluminada parcialmente pela luz da lua, pelas luzes de vapor de sódio e finalmente pela aurora para depois o ciclo ser refeito ao contrário. Meia década e pouca coisa fugiu do roteiro escrito sabe-se lá por quem no qual atuo. É uma segurança que me abraçou e que aceitei como parte de meus dias modorrentos.

Anteontem, contudo, alguns sons destoaram da normalidade. Seis da manhã, os pardais piavam excitados e as folhas das árvores onde eles estavam farfalhavam como sempre. Um ronco de motor diesel prenunciava o ônibus circular com poucos passageiros sonolentos. Súbito... tec, tec, tec. Um instrumento de madeira tateava a calçada impaciente enquanto pés arrastavam a sola de uma papete carcomida. O dono dos pés tem voz grave, como que saída do fosso de almas e disse, clara e fortemente:
- Me dá um beijo, porra!

A frase, fora do contexto habitual, fez meu pescoço direcionar minha cabeça ao som. Vi um homem, na casa dos 60 anos, talvez um pouco mais. Cabelos grisalhos emplastrados para trás, olhos pretos reluzentes, quase livros. Não, bibliotecas. Rosto arredondado, barba completamente branca e uma cicatriz sobre a sobrancelha esquerda, provavelmente proveniente de um caco qualquer, haja vista a irregularidade da marca. As marcas do tempo combinavam com seu jeito rude e sábio. Toda essa observação rápida não impediu o choque ao ouvir a ordem, repetida em tom mais alto e deveras áspero:
- Me dá logo esse beijo, porra!

Caminhando estava quando ouvi, caminhando continuei ao decidir que fingiria que não era comigo. Olhei célere para o horizonte de cumeeiras e apressei meu passo na direção de minha normalidade. Meus ouvidos, contudo, captavam cada sílaba dita com firmeza por aquele velho estranho, nos dois sentidos da palavra.
- Como é, esse beijo sai ou não sai?


A volta para casa teve os mesmos ingredientes dos outros dias, acrescida do medo. Medo de me deparar com aquele sujeito e seu pedido. Vigiei minha rotina: os carros, os passos apressados, as sacolas de compras, o cheiro de cerveja. Um suspiro de alívio profundo ao ver que tudo era como antes. Meu cérebro se acalmou e determinou a efemeridade da loucura daquele homem. Tudo voltaria à modorra aconchegante.

Ontem. Meus passos eram guiados pela música que não saía de minha cabeça desde alguns dias. A coreografia de meus passos ritmados lembrava a cena inicial de “Os embalos de Sábado à noite”, mas com trilha sonora diferente. Esbocei um sorriso, sorriso que logo foi apagado com borracha. A borracha do tec, tec, tec de uma bengala. Ela não era mais impaciente, era vigorosa. TEC. TEC. TEC. Não quis acreditar nem me virar e nem foi preciso: a voz anunciou o que eu não queria ver:
- Me dá um beijo, porra!

Impossível. Ele era apenas um velho maluco que não deveria estar ali por dois dias consecutivos! Ele deveria ter sido defenestrado da realidade ao pedir um beijo a outro estranho durante o dia anterior! O pânico quase me paralisou enquanto ele vociferava, não com insanidade, mas com o rigor de um coronel:
- Vamos, não tenho o dia todo e nem você, caralho! Me dá logo esse beijo!
Sorte minha que meus acessos de pânico são raros e meu corpo, mostrando que é mais inteligente do que eu, me pôs para longe do dono da voz. Passos quase corridos, enquanto o coração batia no compasso da bengala. Tec, tec, tec. Não senti os odores, não vi as cores, não ouvi a música recorrente. Tudo era abafado pela voz. A voz do caos que insistia em não respeitar minha rotina tão cautelosamente mantida entre muros de ignorância piedosa:
- Volta aqui e me dá logo esse beijo!


Hoje, três e meia da manhã. Meus olhos verificam as frestas iluminadas pela lua e se acostumam com as silhuetas dos móveis na escuridão. Minha cama toca a sinfonia de rangidos que eu raramente ouvia graças ao meu sono sempre tranqüilo. Não, definitivamente não é agradável a vida de um insone. E tudo culpa daquele velho.

Por que, dentre tantas pessoas, ele me escolheu? O que ele deseja ao ordenar que outro homem lhe dê um beijo? E por que ninguém mandou prendê-lo durante o dia? Será que ele faz isso apenas comigo? Minha nossa, muitas perguntas, inúmeras paranóias e uma noite desperto. Maldito velho, que com meia dúzia de frases pôs abaixo uma vida pacífica!

Tinha que mudar minha rota, isso mesmo. Escolher outro caminho para ir ao trabalho e assim evitar a terrível possibilidade do encontro. Deixe-me ver... posso tomar o caminho da esquerda, descer duas quadras e depois de uns 500 metros voltar à rota original. Isso tomaria uns dez minutos a mais mas... espere um momento!

Por que eu teria que mudar minha rotina? Aquele era MEU trajeto, MINHA rotina. Não vou sair mais cedo de casa por causa de um velho vindo sei lá de onde, querendo mostrar a todos que é gay e tem orgulho disso, ou seja lá o que ele queira provar. Deus, a falta de sono estava me deixando ridículo! Talvez ele nem esteja mais no meio do caminho, e se estiver é só dar-lhe um senhor esporro e continuar minha vida. Isso mesmo, um banho e novas roupas. Hoje isso terá um fim e poderei, enfim, retomar a calma de meus dias.

Seis horas. Meus olhos injetados não notam os tons vermelhos do horizonte, minhas narinas lembram dos pastéis mas não me transmitem as agradáveis sensações sob a língua. Me envolvo num silêncio que sequer os pardais ousam questionar. Meus passos são firmes e o café sem açúcar e extremamente preto me deixa alerta. Mas não o vejo. Ele não está ao alcance de minha visão. Nenhum vislumbre, nenhuma voz. Nada.

Eu, sempre contido, solto uma risada de escárnio. Um cachorro late, assustado. Uma senhora que cruzava meu caminho solta um olhar de reprovação. Enfim o conhecido. Enfim a volta dos dias modorrentos. Agora me permito escutar os sons. Piu, piu, piu. Au, au, au. Crunch. Splash. Tec, tec, tec...

Tec, tec, tec?

De novo, não. Não esse som destoante. Muito bem, só ouvi a bengala e não estou vendo o autor do barulho, por isso posso conti...
- Me dá um beijo, porra!
Raiva. Há muito eu não a sentia mas jamais esqueço como ela é. Ela retorceu meu estômago, fez meu sangue aquecer e escreveu rapidamente uma lauda de xingamentos em meu córtex. Virei meu corpo na direção do dono da frase e vi a barba, os olhos faiscantes, a bengala e uma elegância no traje incompatível com a grossura da retórica: a calça bem cortada, o terno (caramba, será que esse infeliz tinha grana para comprar um Ermenegildo Zegna?). Meu passo rápido que usei para fugir no dia anterior foi desafiador na direção do velho. Meus olhos davam a impressão de querer pular e esganá-lo e meu dedo em riste apontou para o nariz. Meu sermão só poderia começar com a famosa frase:
- Escuta aqui...
Ele não escutou. Simplesmente tirou meu dedo da frente de seu rosto, agarrou meu ombro esquerdo e vociferou:
- Não, seu merda, escuta você! Eu quero que você me beije, caralho!
Tão rápido quanto seu movimento ao retirar meu dedo da frente dele foi o movimento seguinte: sua mão no ombro alcançou minha nuca e forçou a aproximação de meu rosto ao dele. A surpresa não me permitiu ser veloz e ao notar isso, ele aproximou seus lábios dos meus e enfiou toda a língua dele em minha boca.

De olhos abertos vi, aterrorizado, o velho sorvendo minha saliva em transe, olhos fechados, pela primeira vez com doçura na face carcomida pelo tempo. Ouvi o pam! seco da bengala largada na calçada e senti suas mãos em minhas costas, na massagem sensual de quem beija. Eu deveria tentar escapar, demonstrar o asco teoricamente natural numa situação bizarra como essa e meus braços queriam se ver livres de meu tronco, deixando minhas mãos bailando desengonçadas.

Só que o calor da raiva foi substituído pelo calor daquela língua áspera e dos toques corretos em meu corpo antes retesado. Não é natural, não é certo... mas é bom. Um beijo, o beijo que ele tanto queria e foi roubado com argúcia e executado com mestria. Deus, esse velho beija divinamente bem! Minhas mãos desistiram da coreografia e se alojaram na parte de trás do terno. Não era certo, não era natural... mas todos esses medos esvaíram-se no beijo mais sincero que recebi em décadas. Nem meus beijos trocados com Rosana eram assim. Nada do que fiz até hoje, nessa vida certa e sem emoções, era assim. Nossa união no meio da rua, numa manhã de sexta, poderia não ser aceita. Mas era boa a sensação.

Longos instantes depois nos separamos. Seu rosto retomou o ar taciturno, o meu queria definir o que expressar. Súbito, plaft! Sinto uma dor no lado direito do rosto, graças a um tapa bem dado. Tão bem dado quanto o beijo. Não vi o movimento do braço e só senti o tabefe na dor. Não sabia o que dizer ou sentir, minha estupefação era palpável enquanto ouvia sua voz áspera:
- Seu viadinho de merda!
Ato contínuo, ele apanhou a bengala depositada no chão, sem tirar os olhos de mim. Ao pegá-la, virou-se abruptamente e caminhou para longe de mim. Tec. Tec. Tec. Não havia mais nervosismo ou impaciência no ritmo das batidas. Havia apenas a estátua de sal que eu havia me tornado atrás dele, sem um mísero sentimento útil numa casca despreparada para o inesperado.

Tec. Ele pára, se detém por alguns instantes e vira parcialmente a cabeça, com um sorriso satisfeito. Olho entorpecido, esperando mais um impropério. Ele ergue os olhos, me fita candidamente e diz:
- Você beija bem.