4.9.09

É só um número, não é mesmo?

No dia 27 de agosto, completei 40 anos. Datas redondas costumam ser mais visadas que outras, porém se dependesse unicamente de mim, seria apenas mais um dia, como nos anos anteriores. O grande problema é que o número quarenta também chegou a algumas "instituições" nesse ano. Resultado: se eu olhasse a televisão, lá estava o número. Em algumas camisetas, um quarenta enorme. Nos jornais. Na internet. A internet. Isso porque eu cresci ouvindo "1969 foi um ano sem graça".

Neil Armstrong dando o pequeno passo. O seu Internê, hoje uma onipresença. Cid, Sérgio, William e Fátima dando boa noite. O avô do sistema Linux. Os manos muito loucos se enlameando. E regionalmente, a autarquia de água e esgoto - nada mal para uma cidade onde, na década de 1970 e em parte da de 1980, ainda se buscava água na bica e nem fazíamos ideia do significado prático das palavras "saneamento básico". E minha tentativa de fazer essa data ser apenas uma passagem a mais na direção do fim mostrou-se ineficaz diante da força dessa força poderosa chamada "mídia".

Bem, já que não consegui esquecer que agora faço oficialmente parte dos "tiozinhos", dei tratos à bola. Resolvi ganhar presentes, e a única pessoa que poderia me fornecer esses mimos é a única que me ama incondicionalmente: eu mesmo. Reduzi tudo a um pequeno frenesi consumista, oferecido por uma grana inesperada e muito bem-vinda. Lógico que minha primeira providência foi matar no ninho qualquer revolta hippie sobre o real valor da vida, não quantificado pelo dinheiro. Isso é muito lindo em algum espaço utópico que ainda mantenho entre o apagar das luzes e o sono, mas a vida, desde que o ser humano decidiu dar valor a pedras e papéis, tornou a ambição parte de nossas vidas travestida de "empreendedorismo", "coragem", "qualidade de vida" e outros eufemismos jornalísticos.

OK, primeiro presente: a quitação de minhas dívidas. Sabia que isso consumiria boa parte de meus proventos, mas também sabia que isso me livraria, pelo menos por algum tempo, de alguns dissabores. Me deu pena ver tanto dinheiro indo embora assim, e ainda por cima pra bancos.
Depois, uma sessão de massagem. Sentir músculos retesados ficando livres de tensão, mãos firmes conduzindo seu corpo a um  nirvana carnal, quase dormir. Seu  Osvaldo, definitivamente o dinheiro mais bem gasto comigo mesmo em muito tempo.

O dicionário. Esatva passeando entre sites, quando vi um Houaiss na Saraiva. Dos habituais 250 reais, uma baita grana, caiu para 158. Ainda uma baita grana, mas eu a tinha e dessa vez não havia desculpas. Não devia satisfação a ninguém (em 1990, eu quase comprei um Aurélio, mas meu querido tio, que tantas vezes antes atravancou minha vida profissional e pessoal, disse  "aquilo era dinheiro jogado fora, pega essa grana e faz uma boa compra pra despensa!") e era um desejo acalentado há três décadas. Imprimi o boleto.
Quando a caixa chegou, não me contive. Cheirei, apalpei, li, senti a textura. E fiquei como bobo repetindo "agora eu tenho um dicionário". Agarrado a ele como se ele tivesse sido parido por mim.

Também me permiti sonhar. Me dei um dos encadernados do Sandman de Neil Gaiman. Queria o primeiro, "Prelúdios e Noturnos", mas não achei. Fiquei com "Fábulas e Reflexões", que reúne histórias que podem ser lidas sem prejuízo da coerente cronologia dos 75 números da revista. Contos majestosos, meu amigo. Ele une terror e mitologia, sonho e pesadelo  em histórias urdidas com um cinzel de palavras quase mágico. Claro que não há magia, e sim uma pesquisa profunda dos personagens abordados e das mitologias (grega, cristã, muçulmana) que faz com que Sandman ultrapasse a fronteira de ser "apenas banda desenhada" - um dia respeitam a nona arte por isso, e não a execram pelos Rob Liefelds da vida - e se transforme em Literatura, com L maiúsculo.
O bom é que não preciso esperar as areias do Oniromante para ter alguns sonhos. Até porque meu sono é pesado e ruidoso.
Ah, roupas... nem faz tanto tempo assim, eu andava em verdadeiros andrajos, por pura falta de amor-próprio. Sempre comprei roupas apenas para não andar nu e quando elas naturalmente se desgastavam eu as remendava. Minhas calças com remendos entre as pernas são tristemente famosas por onde quer que eu estivesse, porque alguém sempre reparava. Piorou quando comecei a trabalhar exclusivamente com mulheres, bichos futriqueiros - que mané detalhistas, isso é invasivo. E politicamente correto de cu é rola - que notam até a cor do cadarço dos meus sapatos.
Isso só me colocou uma determinação: comprar roupa. Muita roupa, como eu jamais tinha feito em minha vida. Ultrapassei cotas auto-impostas por medo e covardia. Sapatos, meias, calças, camisetas. Me senti uma patricinha, com a diferença que o que moveu essas compras foi a particidade e os preços, não as grifes.

E claro, mais acesso à internet. Se antes meu objetivo era voltar a ter um computador, meu lado prático me alertou: de que adianta um PC sem conexão à grande rede? Por mais que a grana que eu tinha e mãos pudesse me dar a ilusão de poder manter, digamos, um modem 3G, meus proventos normais (ou seja, meu salário baixo) puseram essa tola ambição no seu devido lugar: dentro do meu dicionário!

Depois de tudo isso, voltei ao normal e me dei meu habitual presente de todo ano - e enfim meu lado hippie pôde se manifestar livremente, pois esse presente não precisa de dinheiro.
Nove horas da manhã do dia 27 de agosto. Calço os tênis depois de ter escolhido roupas leves. Saio sem ser notado, não porque sou discreto, mas porque ninguém se importa. Abro o portão; a cidade me espera.
Em silêncio, ando pelas ruas já não tão calmas de Indaiatuba. O céu está tão azul que penso ser parte de algo sublime, porém indefinido. Sento na grama, olho o espelho d'água perto da prefeitura. Uma garça propositalmente se exibe, deixando um pequeno rastro finito na água.
No Centro, as pessoas com olhar perdido são apenas sons indefinidos de passos. A fonte da praça jorra, um sabiá se banha no jato coreografado. Paro, mas depois me vou.
Uma sombra me espera ao meio-dia. Ninguém mais me incomoda. Respiro pausadamente. A cidade sempre é minha em meu aniversário. Eu a tomo nos braços. Ouço meu próprio sussurro. "Feliz aniversário, vellhote".

40 anos. Não sou tão importante quanto o sistema Unix. Nem tão famoso quanto Armstrong. Nem psicotropicamente louco quanto a geração do poder da flor. Minhas lágrimas não abastecem ninguém. Mesmo assim tenho 40. Boa noite. Som de rotativas.


Italian Music of the 17th Century by Altri Stromenti

3.9.09

O amanhã existe

Tenho uma propensão à preguiça maior que a habitual. Desde fevereiro esse blog está abandonado. E nem é por falta de opinião ou do que dizer. Não que minhas palavras tenham algo maior ou menor, eu aprendi a não me levar a sério demais. Mas acontece o de sempre: vou a uma lan house.Acesso por duas, três horas. De repente lembro de uma música e a procuro no You Tube. Hoje, por exemplo, voltei à infância ao ouvir uma esquecida canção da Turma do Balão Mágico. Mnemonicamente, uma coisa puxou outra. E outra. E outra. Lá se foi minha vontade de batucar.

Aí me recordo de minhas tentativas em ser um contista ficcional. Era uma tentativa honesta, uma trama de ficção científica ambientada no passado, coincidentemente parecida com minha vida. Ao passar os olhos em um de meus sites prediletos, o Omelete, contudo, descubro que há uma série na BBC com uma temática parecida. Como jurar desconhecimento não adianta nada nessa era de informações velozes, abandonei a trama antes que algum sujeito olhe e me acuse. Lei de Murphy existe e insiste em ser cumprida, principalmente se você insiste em que algo dê errado.

Lendo o habitual excelente texto do Inagaki sobre procrastinação, vi o que estava fazendo. E sinceramente me envergonhei. Um escriba do quilate do japaraguaio se achando, hã, um procrastinador (como sou pobre, sou vagaba mesmo) mesmo postando no InterNey, no Yahoo!, no Tumblr, na Rolling Stone... e eu, curtindo férias (que já estão no fim, que pena. Pensem o que quiserem, mas amo ficar de bobeira nos meus trinta dias de férias. Andar à toa, sentar e vegetar numa das praças de Indaiatuba, dormir, minha nossa, dormir!) e nem usar esse tempo livre pra, por exemplo, dizer que CONSEGUI COMPRAR UM DICIONÁRIO, DEPOIS DE TRÊS DÉCADAS! Como ninguém pode me mandar embora do meu próprio blog ( eu morro e não vejo tudo mesmo...), essas letras maiúsculas representam graficamente a minha satisfação em ter, finalmente, um pai dos burros. Mais que um computador, que tive e infelizmente se foi, o dicionário era um desejo acalentado desde meus 10 anos.

Imagine um moleque remelento em uma Indaiatuba em versão menor e mais caipira. Imagine esse mesmo moleque vendo a versão completa do Aurélio na biblioteca da cidade, tomando ciência das primeiras palavras mais elaboradas em papel-bíblia. Imagine a frustração em não poder levar para casa, e pior: nem podendo comprar. Agora tenho um Houaiss. Papel-bíblia. 447 mil verbetes. E não usei nenhum deles pra postar algo aqui.

Se bem que existe a metalinguagem. Usar o objeto pra falar sobre o próprio objeto. Usei isso uma vez, e até gostei. Foi um lance ficcional bastante satisfatório. Acho que estou fazendo isso nesse exato momento. E enfim, após sete meses, algo foi postado aqui. Antes que isso me assombre de novo.

Não que eu acredite em fantasmas. Não acredito. Até o momento em que eles puxam minha sintaxe embaixo da cama.


Handshake Smiles by Arthur Yoria

2.1.09

Coldplay Fix You - Legendado Português

É o que vou fazer em 2009. Me acompanha?

Madeleine Peyroux - Dance me to the end of love

De Leonard Cohen, com carinho, na voz de dona Peyroux. Feliz 2009.

5.12.08

Capítulo 1 - A espera

Um choro tímido, já no final do café, anuncia a presença de Cícero. "Caramba", pensa Homero, ainda em estado de choque, "ele ainda é um bebê!". Dona Lívia se levanta e vai na direção do lamento. Homero olha embevecido sua mãe caminhando, ainda digerindo tanto o pão quanto sua presença nesse recanto que deveria pertencer apenas às suas já esparsas memórias. "Ainda bem que fui um moleque calado; ninguém vai estranhar esse meu silêncio", mentaliza, quase se refugiando em seus pensamentos.

Cícero aparece no colo, olhos remelentos, fungando o choro que já não bradava mais. Dez meses, e aquele rosto sem os vincos precoces do cigarro e da bebida que ele tão bem copiou de seu Lucas, o olhar ainda vívido de inocência, as quase palavras ditas (algo como "mã, tadatabati") que deixaram dona Lívia preocupada quando, aos dois anos, ele se recusava a dizer algo inteligível. Termos como "fonoaudiólogo" passavam longe do vernáculo daquela família, mas ela pensou seriamente em "levar esse menino pro médico". O grande problema é que essas lembranças ainda não ocorreram...

Antes que sua mente fundisse, ele mastigou mais um naco de pão ("nossa, não era só uma lembrança boa. Isso é uma delícia mesmo!"), tomou o leite numa caneca que só viria a encontrar seu destino final em 2001, furada e abandonada e disse, timidamente:
"Mãe, pai, posso ir lá fora agora?". Mais um momento desconcertante: sua voz aguda, fiapo pueril que ele se esforçou para não estranhar mais do que já havia estranhado.
"Vai, filho. Cuidado com os estrepes e os pregos das madeiras que o seu pai deixou". A voz de dona Lívia sempre servia como a voz do seu Lucas, que raramente dizia algo que não fossem alguns resmungos sobre o trabalho, o Palmeiras ou alguma queixa genérica.
Homero foi lentamente, meio receoso com o que iria encontrar ao sair pela porta da cozinha. Era só o quintal, mas o quintal ainda de terra batida, o pé de banana, o pé de mexerica, o pé de laranja, a pequena e farta horta, o forno de barro onde o pão que acabara de comer foi assado. "Meu Deus, é a vó Antonia varrendo o quintal!", murmurou, horrorizado. Olhou para ela e para a casa contígua, onde ela e seu tio Dorival moravam.
"Omério, já tomou café? Vem comer um pedaço de angu, minino!". O chamado era o mesmo, o cheiro do pó levantado pela vassoura de mato igual, mas nem de longe era um dèjá vú. Cada vez mais aturdido, conseguiu balbuciar algo com as palavras "brincar" e "rua" e saiu correndo pela rua. "Cadê o asfalto? Cadê as casas? Quando vou acordar desse sonho maluco?".

Quando ele chegou onde deveria haver o Jardim Rondon, ele tropeçou em uma pedra e caiu pesadamente na grama, não sem antes torcer o pé. A dor foi imediata, e tudo o que ele disse foi o que ele sempre fala nesses momentos.
"Puta que o pariu!"
Ninguém ouviu seu palavrão de estimação. As casas do bairro ainda estão em construção e ainda havia grandes espaços vazios, com capim-gordura e carrapichos, pés de mamona e coqueiros-indaiá. Enquanto o pé lateja, vem a revelação lógica da situação. "Nos sonhos não há dor física, só a angústia. Então eu REALMENTE estou em 1977!".
O latejar perdeu a importância enquanto ele se sentava na grama e observava. O cérebro simplesmente não se permitiu funcionar, assentando-se na certeza de algo que parecia impossível. Não foi possível determinar o tempo desta prostração, mas quando ela acabou, Homero se levantou rapidamente, bateu o pó e as folhas secas de grama e começou a caminhar. Quando ele chegou à sibipiruna que foi arrancada em 1989 para a construção da praça Adélia Zocatela, parou, respirou fundo e começou a falar só, para se acostumar ao tom de sua voz.

"Ok. Isso não é um sonho, não é um episódio de Além da Imaginação, não apareceu nenhuma criatura divina, demoníaca ou extraterrestre. Vamos nos ater aos fatos: eu estava em minha cama, depois de um dia cansativo de trabalho. Era 23 de agosto de 2009, tinha acabado de completar 40 anos e sofri um ataque cardíaco. Ou pelo menos acho que foi!".
"De repente... isso. Caramba, depois de um piripaque desses, eu deveria é ter morrido, ou sofrido sequelas. Isso é loucura, mas está acontecendo. Minha mãe, meu pai e minha vó, vivos! E essa é a Acaratuba antes da industrialização e da especulação imobiliária".

Uma garça aparece voando na direção do córrego Itambé; a ave que dá nome à cidade voando parece uma pintura branca no fundo absurdamente azul. "Tá, isso não é um acesso de loucura, estou aqui, sou uma criança e mantenho minhas lembranças e vivências dos quarenta anos que ainda não vivi... minha nossa, isso tá confuso demais! É paradoxo em cima de paradoxo. Vi, cheirei minha mãe morta em 1994, meu pai tava lá, fumando aquele cigarro Continental fedorento. Minhas irmãs, ainda tão crianças. Cícero, um garoto mijão! Por que diabos isso está acontecendo?"

"Acho que se eu começar a questionar isso vou formular teorias baseadas no que sei e jamais vou saber a verdade. Tipo, tava na iminência de descobrir um puta segredo cósmico e fui reiniciado sem a formatação de meu HD... nah, Matrix demais até pra mim! Até porquê a primeira providência nessa queima de arquivo seria voltar como criança mesmo e não um adulto mentalmente formado, que poderia modificar o curso de seu próprio futuro".

"Mas que futuro? Tive um passado que agora é meu novo futuro... putz, isso é que dá ler muito gibi da Marvel. Ou será que sou como o Schwarzenegger e voltei para matar alguma Sarah Connor não especificada? Claro, com minha conhecida ferocidade para matar baratas! E essas conjecturas não estão me ajudando em nada, preciso analisar a situação de maneira mais prática e sem piadinhas gratuitas".
"Possibilidades. Isso, meu futuro agora é uma imensa possibilidade. Sei o que minha família pode se tornar, por ter vivido no, hã, meu futuro alternativo (mais Marvel? Acho que vou dar um jeito de ir aos Estados Unidos e matar John Byrne, Chris Claremont, Len Wein e Jim Shooter... ah, não, sem digressões!). Ok, onde eu tava? Ah! As possibilidades. Tudo bem que cronologicamente não tenho idade nem pra ir a um banco pagar um boleto... mas posso me tornar um prodígio!".

"É, seu burro, e chamar a atenção de todo mundo. Acaratuba ainda é um fim de mundo qualquer agora mas mesmo sem internet um moleque com trejeitos e fala de adulto chamaria toda a atenção do mundo e a primeira coisa que eu faria como viajante temporal psíquico - uia, que frase legal. Tonta, mas legal - seria adiantar em 30 anos o estilo Luciana Gimenez de fazer tevê. Se vou ser responsável por mudanças, que sejam mudanças mais íntimas".

"Posso vir a aprender muito mais do que hoje sei de hoje em diante, mas não sou nehuma sumidade; não vou 'criar' a tecnologia que conheço, mas vou absorver melhor o que for criado por já a conhecer. Mas que papo doido! Não, nada de pensar nessa escala planetária. Vou me ater a mudar o que está ao meu redor. Se eu conseguir que a mãe não seja morta por aquele..."

Homero pára de falar, os olhos marejam. Agora não é mais uma lembrança fugidia que o faz chorar; é a presença física de alguém que ele pensava não ser mais possível ver. Ele não se contém mais e chora como há anos não fazia.

"Ok. É isso. Vou alterar um futuro específico. O meu. E de todos os que me rodeiam. Não vivia reclamando sobre o rumo que dei à minha vida? Minha vida deu um reboot e posso começar de novo. Essa é a chance que qualquer um gostaria de ter, pois eu vou tentar não cometer as mesmas cagadas, não ter as mesmas atitudes covardes e nem pensar muito sobre meus atos. Se eu mudar algo do futuro que me lembro, que se foda; deveriam ter retirado meu cérebro para que isso não acontecesse".

"É óbvio que vou ter cuidado com que vou dizer. Não posso bancar o vidente, nem o super inteligente. Só quero ter a chance de não ter que chegar aos 40 de novo (se eu conseguir, né?) me achando um bosta. E a minha primeira atitude vai ser tomada amanhã. É o primeiro dia de aula, né? Vou reencontrar a professora Sandra, meus colegas cujos nomes não lembro e não mostrar tanta auto-suficiência".
Ele sorri, olha a árvore majestosa e volta à ainda nova velha rotina.

"Tchau, filho. Se comporta, não faz bagunça e estuda".
Dona Lívia acena e deixa Homero defronte ao portão da Escola Estadual de Primeiro Grau Antonia Wessel de Lima. "Que coisa, agora vou ter que voltar a usar a sigla E.E.P.G! Pelo menos escapei do construtivismo", pensa, com um leve sorriso nos lábios ao se dirigir à sala de aula. Dessa vez com calma, observando, cheirando, ouvindo. Enquanto seus pares organizavam a algazarra em pequenos e barulhentos grupos, ele preferiu sentar-se na quarta carteira da segunda fileira da janela para a porta. "Isso faço questão de manter como antes", murmurou, solene.

Toca o sinal. Uma por uma, as outras crianças entram; mal se dão conta da presença de Homero, enquanto ele faz um portfólio mental de rostos e tons de voz. "Dessa vez não vou deixar ninguém me surpreender no futuro, dizendo meu nome enquanto eu sequer sabia quem era o fiadaputa!". Um jovial e quase cantado "bom dia" foi dito ainda à porta, enquanto dona Sandra entra e dispõe os livros e pastas na mesa dela. Ele até tenta prestar atenção no que ela diz, mas seus pensamentos são mais vorazes. Visualizando a sala, reconhece Mariana, a loirinha que o acompanhava até sua casa, falando pelos cotovelos, que já o olha com um misto de curiosidade e fascinação. "Vou cortar as asinhas dela antes que elas cresçam", ordenou a si mesmo mentalmente.

Tudo foi rápido demais. Alguns nomes para se juntar aos rostos e vozes (Joaquim, Ricardo, Ana, Cristina, as inúmeras Marias Aparecidas e os incontáveis Josés), o recreio ("certo, certo, não ria, você É uma criança e pode dizer isso!") com um pãozinho recheado com carne moída e um kisuco de sabor incerto - "acho que é abacaxi, mas tem um toque de morango, que esquisito!" - as primeiras letras ditas à exaustão. "Nossa, aprender as vogais é tão complicado assim?".

Das sete da manhã até às 10, religiosamente. O sinal toca de novo e Homero percebe que precisa prestar mais atenção a essas passagens de tempo. "Tudo bem, ainda tenho 179 dias de aula para me adaptar...". Seus pensamentos foram interrompidos por Mariana.
"Oi."
"Oi", responde Homero.
"Vamos embora? Voce é o menino que mora perto da dona Idelice, né?"
"Sou sim, meu nome é Homero, e o seu?"
"Mariana. Você gostou da aula? A professora é bacana, né? Ela me ensinou como desenhar o U, você quer ver como? É assim, ó..."
"Legal...". Ela queria se afastar da escola junto com ele, mas Homero simplesmente ficou parado.
"Você não vem?"
"Não. Vou esperar minha mãe."
"Ah, mas a gente mora pertinho. Vamo!"
"Não, obrigado. Ela disse que vinha. Vou ficar aqui e esperar. Até amanhã".
Aparentemente contrariada, Mariana não respondeu. Foi pisando duro até sumir na esquina. Homero simplesmente ficou.
Pouco tempo depois, na mesma esquina, dona Lívia veio. Usando uma calça jeans e uma blusa vinho, andando elegante e calma. Homero não pôde conter o embevecimento e o largo sorriso. Quase foi na direção dela, mas foi contido pelo seu "não" mental.
"Oi, filho, demorei?"
"Não, mãe. Tava aqui te esperando".
"Eu sei. Dá aqui seu material. Gostou da escola?"
"Muito! Nunva vi tanta criança junta. E a professora é legal. Você sabe como desenha o U?"
Não, ele não seria mais esperto e independente. Seria apenas um filho esperando a mãe no fim do dia de aula. "E isso é só o começo", pensou enquanto ouvia o cardápio do almoço.

24.11.08

O fim

O tranco na porta anuncia a chegada. Há anos, quiçá uma década, que Homero promete a si mesmo consertar o batente, trocar a porta ou coisa associada. E para variar ela nunca está trancada; o fato dele ter a chave não é motivo suficiente para mantê-la sob a frágil, porém unica segurança da lingueta gasta. Ele bate os pés sobre a camiseta velha usada como capacho e pano de chão e retirá o pó inexistente dos tênis.
Homero observa rapidamente os ângulos conhecidos dos cômodos da casa. A cozinha está razoavelmente limpa, sem panelas no fogão. "Bem, acho que vou comer aquele rango frio de novo!", murmura inaudível para si num tom de deboche acomodado. A sala está na penumbra, a tevê só mostra sua presença através do led verde; no quarto de Cícero e Helena, o lusco-fusco da televisão envolto no sussurro dos atores da novela. Mochila deitada na cama, tênis retirado displicente. "Nossa, a melhor coisa que fiz foi comprar aquele talco anti-chulé!", borrifando nuvens discretas do que restou do talco ao tirar a meia.
No chuveiro, a lembrança do dia de trabalho foi menos monótona. As doidas que trabalham na repartição compraram um bolo, refrigerantes e um presente singelo (um frasco de desodorante adorável) para comemorar os quarenta anos dele. Homero nunca se sentiu tão querido quanto naquele momento; fez valer os cinco anos e meio tendo que suportar a superdose de mulheres. A ironia de trabalhar em uma repartição que é um feudo feminino sendo gay sempre dava deixas para piadas de gosto duvidoso que ele adora proferir. Mas não naquele momento. Ele simplesmente ficou quieto enquanto Lúcia, sua chefe, lia um texto curto, repleto de lugares-comuns. Homero não chorou porque ele soltou uma frase feita, com chavões irônicos. O bolo estava delicioso.
Enxuto, trocado e com fome, Homero foi até a geladeira. Panelas guardadas (e isso porque Helena encheu o saco do seu irmão para comprar alguns "tapaué" de 1,99!), o arroz branco, pálido, implorando tardiamente por uma refoga de cebola e alho, o feijão, um guisado indefinido, suando gordura. "Prefiro a fome a isso", profere mentalmente com ira, fechando a porta.
Escova de dentes, creme dental. As gengivas são limpas com fervor, os dentes esfregados quase com fúria. Quando a língua passa pelos dentes que não existem mais (coincidentemente os dois pré-molares), o arrependimento pelo dinheiro não gasto num tratamento sempre volta. O fio dental do fim da escovação age com eficiência, limpando as gengivas e pensamentos.
A cama o convida, mas o hábito de tentar ver algo que preste na tevê persiste. Uma ou outra notícia dada pelo Carlos Nascimento, uns tais Yeah Yeah Yeahs verbalizam coisas em inglês para uma encantada Domingas Person, algumas tramas confusas nas novelas - "dá até saudade de minha vida de noveleiro acéfalo" - e o sono mune as pálbebras de areia. É hora de ficar olhando oescuro até que ele o acolha.
Geralmente é rápido, "pá e bosta", como diria seu tio; um punhado de frases pinçadas no cérebro, uma lembrancinha, a epifania que é rapidamente esquecida e o sono. Só que esse dia específico é diferente. Homero teima em colocar a vida em retrospectiva uma vez por ano, ao soprar de mais uma velinha. Um amontoado de frases iniciadas com a conjunção "se".
"Se eu tivesse começado a trabalhar mais cedo. Se eu tivesse completado o segundo grau. Se eu tivesse pretado vestibular para jornalismo. Se eu saísse da barra da saia dessa casa. Se eu não fosse gay e não gostasse tanto de homens mais velhos. Se eu tivesse continuado a trabalhar na Müller. Se eu fosse mais magro. Se..."
A cada conjunção, uma resposta dura. E a prespectiva de uma velhice cada vez mais próxima, solitária e desprovida de recursos financeiros. "Minha nossa", pensa, irritado, " nem para mim mesmo deixo de usar essas metáforas politicamente corretas. Seu gordo pobre e viado, você nunca vai se mancar e tomar uma atitude??". Como se fosse uma resposta implícita, uma enorme e atordoante angústia toma conta dele. A epifania veio e não permitiu ser esquecida:
"Sou fruto de minhas decisões".
A angústia doeu. E não foi apenas metaforicamente. Algo em seu peito começou a querer explodir, como um motor arrancado do capô a marretadas. Homero soltou um gemido de dor, que se transformou num grito. Todos os músculos pareceram se retesar, mas seu cérebro ainda teimava em permanecer lúcido, como se saboreando sadicamente o sofirmento.
"Deus... é um ataque cardíaco... alguém... me aju..." foi o que ele quis dizer, em meio à lamentação uivante. O corpo dele espasmava sem controle, títere sem cordas que o apoiasse. Mais um grito feroz, quase um urro animalesco. Os olhos arregalaram e viram a escuridão do quarto se preenhida pela luz. A cegante luz.
____________________________________________________________________

A luz do dia preencheu o quarto. Homero pula assustado da cama, colocando a mão no peito, já sem dor. Atordoado, balança a cabeça fortemente e o que era apenas luz toma forma. As paredes azuis... "peraí, as paredes do quarto são brancas!", pensa. "Devo estar no hospital. Muita bondade do Cícero...", murmura, irônico. Quando passa as mãos no rosto, um susto: aquelas mãos pequenas. Pequenas demais! Incrédulo, olha para si mesmo com mais atenção. Suas pernas... encolheram. E essa cama? "Parece a cama de palha onde eu...". Não consegue terminar a frase. De seu corpo, olha para o quarto. As paredes ainda continuam azuis. E mais.

"Meu Deus... é a máquina de costura de minha vó! E a antiga cômoda! Ela foi jogada fora em 87, como pode isso?" Os pés descalços sentem o piso sem o revestimento. E está vermelho! O teto... onde está o forro? A janela... é do mesmo tom das paredes e é de madeira.

"Eu morri... tive um ataque cardíaco e morri, é isso. E essa é a representação do céu que estava reservado para mim??? Que piada de mau gosto é essa, Deus????". Homero sai quase correndo do quarto, não querendo acreditar no que viria. E ele viu. O conjunto estofado verde, a mesinha onde a televisão preto-e-branco ficava. " O espelho. O espelho.", sua mente bradava. Ele finalmente se viu no espelho da prateleira onde ele antes reconheceu o vidro de perfume Unforgettable, o pó compacto, o vidro de desodorante Italian Pine, seu rosto das fotos da década de 1970 no reflexo.

Horrorizado, Homero quase gritou e só foi impedido por uma voz.

"Homero, já acordou? Vem tomar seu leite, tem pão também."

Lentamente ele se virou na direção da cozinha. O cheiro de café acompanhou o vagaroso movimento de seu pescoço incrédulo. Aquela voz...

"Mãe?", ele disse timidamente.

"Vem, o leite tá esfriando. Já passei margarina na sua banda de pão.", ordenou suave a voz.

Alguém manipulando o tempo deve ter acionado a câmera lenta nesse momento. Passo a passo, ele foi na direção da voz. A cozinha era como ele vagamente se lembrava, mas agora estava colorida e vívida na frente dele. A mesa de madeira feita pelo seu Lucas. Seu Lucas sentado. Fátima, ainda criança, comendo sua banda de pão. Rosa, quase um bebê, sorvendo um chá numa chuquinha dada pela patroa de... dona Lívia.

"Mãe?", repetiu Homero, já na iminência de chorar.

Dona Lívia, encostada no fogão vermelho, adoçando o leite. Seus longos cabelos presos em um lenço, sua saia branca, suas chinelas. "Isso não é possível!". Suas pernas bambeiam como nunca antes. Antes dele cair no chão de cimento, dona Lívia, agílíssima, o agarra. Seu rosto se preocupa, seu Lucas, prático e seco, vocifera: "o que que te deu, moleque?". As mãos dela percorrem o rosto agora infantil de Homero, que se recupera, incrédulo e quase mudo.

"Tá tudo bem, Homero? Se não, te levo pro hospital."

A voz suave, o timbre decidido com leve sotaque caipira. Era ela mesmo, ele se permitiu dizer. E todos estavam ali, naquele instante. Aquilo era tudo, menos a morte. Mas o que era esse "tudo"?

"Tá tudo bem, mãe. Foi só uma tontura", e seu tom infantil soou alienígena aos seus próprios ouvidos.

"Ainda bem, ainda mais que amanhã é seu primeiro dia de aula!"

Estamos em 14 de fevereiro de 1977.

(Continua)

23.11.08

Mea culpa

Desde que me tornei "adulto" ouvia, quase sempre acompanhado de uma detalhada descrição da vida do meu interlocutor, a definição de felicidade e o porquê de eu não conseguir ser feliz. E foi ouvindo tantas descrições de felicidade que descobri, enfim, mais uma daquelas fórmulas mágicas. Só gostaria de ter um mínimo talento literário para poder enrolar, digo, escrever um livro de auto- ajuda; best-seller incontestável, principalmente se eu o intitulasse com algo prosaico, engraçadinho, emotivo ou qualquer que seja o tom que eu viesse a dar ao meu calhamaço.
Eu poderia ser feliz, por exemplo, adquirindo um vício socialmente aceito. Se eu fumasse, poderia sempre usar a boa e velha desculpa do isqueiro para puxar uma conversa, seja numa roda de desconhecidos que poderiam ser amigos ou para aquela gatinha solitária, caso quisesse tentar fazer sexo sem compromisso ou perpetuar a espécie, se ela fosse a mulher de minha vida. Claro que logo meu enfisema pulmonar e meus problemas cardíacos me faria persona non grata tanto em planos de saúde quanto no SUS, mas até lá eu seria irremediavelmente feliz.
E se eu bebesse? Definitivamente teria inúmeras histórias para contar, a imensa maioria com forte teor cômico, pelo menos para quem ouve. Desde a primeira carraspana - todos se lembram da primeira vez em que enfiaram o pé na jaca (eu me lembro muito bem!), - até histórias sobre vômitos, verdades ditas durante uma bebedeira, brigas por causa de palavras não comprendidas, esporros dados pela mulher, filhos, amigos. O problema é se eu não sobrevivesse no caso hipotético de eu dirigir depois de algumas biritas ("eu shóó thomeeei chinco caipirecs, sheu gualda!"). Bem, não sei dirigir mesmo...
Taí. E se meu maior sonho fosse ter um carro, como todos os que conheço? Ser fascinado por um modelo específico, tipo maníacos por Fusca, Opala, Maverick. Ou ser do tipo que adora especificações técnicas, como injeção tiptronic full flex com câmbio GPS Pinnifarina. Talvez adorar ir pela Augusta (ou qualquer rua) a 120 por hora. O importante é fazer o que muitos fazem: usar um carro não como veículo automotor, mas como símbolo de status do feliz proprietário. Se eu não fosse excessivamente cuidadoso (acho que alguns diriam covarde) ao ver no que o trânsito se transformou - só aqui em Indaiatuba a proprorção carro/habitante é de 1,78, se eu não me engano - ou não quisesse ser mais um a preencher o ar com mais gás carbônico, poderia ser mecanicamente feliz.
Alguns me dizem que preciso encontrar felicidade em uma religião, desde que ela seja baseada no cristianismo. Realmente. Moro em frente a um templo evangélico, e a quantia de barulho que eles fazem para louvar a Deus denota uma explosão de felicidade. Mas felizes são também os que repetem à exaustão a liturgia católica - quando eu tinha 12 anos, ultima vez em que frequentei uma missa, tinha decorado todo o roteiro (sim, era um roteiro! Uma indicação ordenada de frases ditas todo domingo, com algumas incursões improvisadas) da liturgia e decidi que não iria mais a uma missa. Acho que eu disse algo como "isso é muito chato". Pois é, se eu não achasse isso tão aborrecido, poderia compartilhar do êxtase. Mas eu sou herege mesmo, como uma colega de trabalho me rotulou.
Poderia ser feliz sendo gay! Ora, etimologicamente a palavra gay significa alegre. E me parece que ser gay é ser feliz, mesmo sendo considerado opção, doença, encosto... o problema é que eu teria que me encaixar em alguma ortodoxia. Ou eu teria que emagrecer, muscular meus bíceps, transformar minha barriga em um acessório de lavanderia, ou criar pêlos em minha casca adiposa para me transformar em um animal carnívoro, da família dos úrsidas, ou me submeter a silicones para poder soltar "a mulher em mim". Xi, mas antes teria que fazer uma bioplastia peniana; tenho, hã, um instrumento muito pequeno e como diria um sujeito cujo nome esqueci, size does matter!
Já sei. Sou solteiro. Feliz é quem tem uma mulher, cinco filhos, uma casa própria com prestações ainda a quitar (mas só faltam 13 anos), um emprego onde você precisa mostrar que é competitivo, antenado, uma mulher carinhosa e que saiba que o mundo agora pertence a elas, com TPM e tudo. Justo agora que descobri que viver só é muito inebriante...
Sou um idiota mesmo. Não presto para ser feliz. Terei que ser eu mesmo até o fim de minha vida, que droga!