4.9.11

#5


Música sempre foi essencial em minha caminhada. Mesmo frustrado em minhas pretensões iniciais de cantar bem ou tocar algum instrumento – é preciso aliar vontade ao talento – nunca deixei de ter uma trilha sonora, real ou neural. Em meus delírios pueris e juvenis me via parte integrante de um imenso musical; enquanto muitos achavam absurda a ideia de ver marmanjos cantando para expressar alguma coisa em filmes, eu sorvia “Cantando na Chuva”, “Sete Noivas para Sete Irmãos” e “Mary Poppins” com voracidade quase religiosa.
Quando eu escolhia minhas músicas prediletas, valendo-me dos mesmos valores subjetivos dos críticos mas sem poder embasar minhas preferências usando a história ou o profundo conhecimento das técnicas envolvidas (hah), eu preferia as canções mais tristonhas, seja nas letras ou na linha melódica. Gostava, e gosto, do desamparo, da desesperança, da crueza e das lições implícitas nestas tristes canções.
Quando eu cantava a plenos pulmões “Meu mundo e nada mais” com meus cinco anos, eu não estava ferido e amargurado como a persona da letra; apenas achava bonito que alguém pudesse expressar tão bem sentimentos tão tristonhos. Mas foi ao conhecer Elton John que vi que a dor e a amargura poderiam ser munições perfeitas para a música pop. Vou falar especificamente de uma.
Em 1973, uma novela fazia muito sucesso: “Carinhoso”, escrita por Lauro César Muniz. Uma das músicas da trilha sonora internacional fez um estrondoso sucesso, “Skyline Pigeon”; ela é uma daquelas canções que fazem parte do inconsciente coletivo dos brasileiros, como outras que fizeram parte de trilhas sonoras de folhetins na década de 1970 (nem me faça começar). Foi através da música que conheci o senhor Reginald Kenneth Dwight, cujo nom de plume tornou-se sinônimo de música pop e rock de qualidade.
Nesta época, só alguns privilegiados tinham aparelhos de som que mereciam o nome; eu tinha uma Sonata que me tio havia me dado junto com alguns compactos simples. Um destes privilegiados era o filho da patroa de minha mãe à época; num sábado eu fui com minha mãe até a casa desta mulher (enorme e linda, com apetrechos que eu só tomaria real conhecimento do que eram na década de 1990) para ajudá-la a trazer algumas roupas que ela havia ganhado. Enquanto ela dispunha vestidos, calças e camisetas em sacolas, eu permaneci quieto, olhando tudo com um misto de fascínio e curiosidade. Os odores daquela casa eram muito diferentes dos que eu estava acostumado a sentir, e muito de minha percepção futura de “casa de rico” vem desta memória olfativa.
De repente o filho da patroa passa pela porta do quarto onde estávamos eu e a mãe com um disco nas mãos. Era uma cópia americana de “Goodbye Yellow Brick Road”, como ele fez questão de frisar. Ele entrou em seu próprio quarto e colocou para rodar. Além da faixa-título, uma música em particular me chamou a atenção. Mal sabia minha própria língua, mas a canção não-nomeada era linda. A voz cristalina de Elton John, o piano, aquele jeito de cabaré, e o que mais me chocou: a tristeza e pungência com que ele cantava o refrão. Fomos embora sem saber que música era aquela; afinal, o filho da empregada não podia dirigir a palavra a um dos membros de tão rica família (quando soube, décadas mais tarde, que eles eram, e são, apenas uma família de classe média, me penitenciei por ser tão subserviente às convenções implícitas naquela época). Ela nunca foi exatamente um hit aqui no Brasil, assim como a faixa-título e , talvez, “Benny and the Jets”. Por isso a canção tornou-se uma espécie de fantasma que assombrava minha memória de tempos em tempos.
No começo de 2011, estava eu tentando ouvir rádio (coisa que se torna cada dia mais difícil graças à qualidade de certas rádios pop), girando o dial aleatoriamente quando ouvi a tal canção misteriosa de Elton John. Foi como se eu visse a pessoa amada pela primeira vez: minha pele pipocou de arrepio, minha boca ficou seca, os olhos lacrimejaram, o coração bateu descompassado – e não estou exagerando. E a tristeza do refrão continuava intacta; pude ouvir a gaivota no final da canção, dando um ar mais desesperançado ao conjunto.
Agora tenho a música em meu pen drive. Ela se chama “Sweet Painted Lady”, primeira faixa do lado A do disco 2. E meus instintos estavam certos: a letra é de uma certa forma uma ode à tristeza de uma vida sem muitas expectativas, e que pode ser resumida no refrão: “Sweet painted lady/ Seems it's always been the same/ Getting paid for being laid/ Guess that's the name of the game, ooooohh”.
Sem querer, o filho da patroa quis me cooptar ao lado comodista da Força. Não conseguiu. Mas eu gosto de saber que ele existe para inspirar tão belas canções.

#6


A primeira vez que me senti apaixonado foi aos 13 anos. Não era um desejo carnal tão comum quando os hormônios nos fazem ir à caça e o cérebro, este órgão fanfarrão, quer transformar tudo em uma linda história cheia de preceitos morais, éticos e humanos. Era uma paixão pelas partes do todo que culminavam em uma obsessão pelo objeto completo.

Os cabelos longos e de um amarelo dourado. Os olhos castanho-esverdeados. As mãos a segurar lápis e canetas. O cheiro. E, claro, minha falta de coragem para me declarar. Quando a coragem veio, fiz que faço de melhor: escrevi uma carta (ok, engraçadinhos, eu acho que escrever é o que faço de melhor, posso? Agora parem de rir. É sério. Ah, qualé...).
Foi a pior atitude que eu tomei. Eu não era alvo do radar dela, mas quando apareci no monitor ela percebeu que tinha um motivo para se divertir. De uma certa forma foi até bom; alguns homens não sonham ser a razão da alegria e das risadas de uma mulher? Pois é. Pena que eu era só o bobo da corte, não o cortejador.
Ao vê-la beijando um rapazinho diametralmente oposto ao meu tipo físico – corpo longilíneo, tez alva e cabelos loiros, se fazem tanta questão de saber – meu corpo entrou no horizonte de eventos próximo a um buraco negro. Só não fui sugado porque eu descobri os gibis da Marvel e que o cheiro da biblioteca era melhor do que o perfume dela.
Cheiro. Há o rosto, há o toque, há até o paladar da saliva, mas assim como um Grenouille tupiniquim eu sou atraído pelo cheiro. Chego a me apaixonar por ele. É como se ele exalasse algo que me falta. Por isso eu nunca dei muita sorte nessa coisa que algumas pessoas chama de amor – meus amigos, essa coisa que vocês chama de amor nada mais é que a ação dos verdadeiros donos do seu corpo, os hormônios, como a noraprinefrina, a serotonina e a dopamina. Mas estou divagando.
Falava do cheiro e dos efeitos nada benéficos que ele causa em minha vida afetiva. Sem entrar muito em detalhes, digamos que, ao seguir os conselhos de muita gente que dizia “jogue-se, entregue-se, ouse”, eu esqueci de uma coisa muito importante: as pessoas baseiam-se em seus olhos e ouvidos. E não sou exatamente uma escolha agradável à visão de algumas pessoas. Pensando bem, se não fossem os perfumes que uso, nem meu cheiro seria tolerado!
Você não entendeu? Que pena.

#7


Fuscas sempre disparam alguns gatilhos em minha memória. Num dos famosos casos de falta de pauta de um programa zapeado ao acaso,foi ao ar uma propaganda de 1965, eu acho, do Fusca, ressaltando que ele era “o único carro brasileiro com refrigeração a água”. Graças à referência líquida, dois casos que envolveram eu, meu pai e um Fusca vieram à tona do nada, me fazendo rir como um bocó, sozinho, no sofá da sala.
Eu tinha seis anos. Meu pai, à época um funcionário público que trabalhava no matadouro municipal, conseguiu, sabe-se lá como, a permissão para usar um dos carros da frota da secretaria ao qual ele era subordinado (não me pergunte qual, pois os nomes mudaram muito de 1976 para cá). Um Fusca branco. Feliz e pimpão, meu pai e mais dois amigos saíram do expediente já dirigindo a caranga numa sexta feira com o tanque cheio e algumas ideias na cabeça.
Chegando em casa, meu pai e seus asseclas começaram a se mover num frenesi coletador: pegaram varas de pescar, aquelas de bambu mesmo, uma sacola de lona cheia de tralha indefinida de pesca, um lampião a querosene, herança de meu avô, mais os sanduíches que minha mãe foi quase que obrigada a fazer com os pães que meu pai comprou. Eu, ao longe meio que via a movimentação, meio que brincava com meus “hominhos de doce de banana” (se você nunca os teve é porque não é tão velho quanto eu) no monte de areia. E tudo terminaria ali para mim se não fosse a surpreendente frase do pai no final da arrumação: “Nei, vem com nóis. Cê vai pescar com o pai”.
Surpreso, olhei inquisidor na direção da mãe, que murmurou um indeciso “vai”. Me levantei, fui tomar banho (ordem do pai, e com uma recomendação singela: “vê se não banca o lerdo debaixo do chuveiro!”), coloquei um short, uma camiseta e meu par de chinelos e entrei no banco de trás do Fusca, junto com um dos amigos do pai, um sujeito cujo nome não me lembro mas cheirava à banha que minha vó usava para guardar as carnes de porco que ela tanto gostava de fazer. Não sei porquê, mas ao invés de sentir asco, senti fome.
Na viagem, tentava olhar para a paisagem através do vidro, tentativa frustrada pela escuridão da tarde que já se adiantava. Me contentei com os vultos de casas, árvores e a visão das luzes longínquas acesas nas ruas. Ao chegarmos ao destino, notei que não havia nada que se parecesse com alguns curso de água corrente; apenas um apinhado de casas térreas construídas ao largo de uma extensa rua de terra batida. A voz do meu pai, como um trovão, cortou o breve silêncio após ter desligado o carro (minha nossa, como aquele Fusca era barulhento! Fazia algo tipo rrrruuuuummmm-pocpocpoc-rrrruuuuuummmm... ). 

“Nei, tem pão e suco aqui na sacola, Fica aqui dentro”. Não entendi nada: se o objetivo daquela pequena viagem era uma pescaria, por que diabos eu tinha que ficar trancado ali dentro? Ato contínuo, apareceram uns vultos femininos indistintos que pegaram meu pai e sus amigos pela mão, não sem antes olharem o interior do carro; uma delas falou com uma voz infantilizada incongruente: “olha só que menininho bonitinho!”, soltando uma risada e levando os três adultos para dentro de uma daquelas casas. Fiquei sem ação, tanto pela atitude estranha do meu pai quanto pelo suposto elogio que aquela mulher disparou. 
 
Sem ter muito o que fazer, comi alguns dos sanduíches (mortadela com aquela linguiça fininha, não sei até hoje o nome daquela variedade), me deitei no banco e adormeci profundamente. Quando acordei já estava em casa, ouvindo minha mãe possessa, falando coisas desconexas entre um xingamento e outro. À época, não entendi o porquê daquela reação tão extremada. Só depois de alguns anos e dono de informações mais privilegiadas é que pude entender o significado de algumas daquelas palavras sem nexo: Itatinga. Luz vermelha. Mulheres da vida. Meu pai realmente foi pescar naquele dia.
Ele pegou muitas piranhas.

Três anos depois, o pai ficou incumbido de levar um Fusca azul para uma pessoa não especificada. Esse Fusca estava em uma oficina mecânica perto de casa e esse amigo sem nome pediu ao pai para levar o carro até o bar do Vando, onde eles se encontrariam e se confraternizariam bebendo cachaça e comendo aqueles jesus-me-chama entre uma partida de bocha e outra.
Eu estava quieto em meu canto, eu juro. De repente ele me chama. “Nei! Vem, vou te levar pra passear de carro!”. O pior era a falta de opção; assim como no Brasil desta época, “democracia” era apenas uma palavra no dicionário. Fui. O Fusca azul até estava com bom motor, mas os bancos... o da frente tinha uma mola que insistia em cutucar minha nádega direita. No meio do caminho entre minha casa e o bar do Vando havia mais dois bares. O pai parou nos dois. Bebeu nos dois. E a cada enroscada da embreagem eu temia pela minha vida (tá, parece meio melodramático, mas experimente não cagar nas calças ao ver a distância entre você e uma pata-de-vaca diminuir consideravelmente até que o motorista se lembre que lugar de carro é no asfalto!). Antes do destino final (o bar, não o Elísio!), ele parou bruscamente ao virar na rua Cerqueira César. Ainda sou capaz de sentir o gosto do vidro Blindex quando paro pra lembrar do dia. Bati fortemente o rosto no para-brisa, quase desloquei a coluna. E ele parou para dar uma mijada!
Quando ele desceu, eu imediatamente pulei para o bando de trás e lá fiquei, me lembrando daquele outro Fusca. Ao invés de uma mulher exaltando minha fofura, apareceu o pai no vidro. “O que cê tá fazendo aí, Nei?”. “Vou sentar aqui agora, pai”. “volta pra frente AGORA!”. Bati o recorde mundial de salto em bando de Fusca. E quando enfim chegamos ao maldto bar, quase imitei o papa ao descer do carro.
Depois ainda perguntam porque eu não faço questão de aprender a dirigir...

Sobre as vergonhas engraçadinhas


Você já teve o dissabor de alguém, geralmente um parente muito próximo, ter desencavado para pessoas externas ao convívio familiar fotos comprometedoras da infância – tipo “pagando bundinha com as fraldas caindo”, “cara de choro ao ser contrariado por alguma bobagem” - ou histórias que só fazem sentido em contextos terrivelmente pessoais? Quem já teve desnudada essas passagens sabe que, por mais cuca fresca que sejamos, a vergonha é um sentimento inevitável.

Mas se antes estas passagens nada abonadoras costumavam ater-se ao círculo de amigos íntimos dos pais, o que restringia o vexame aos bares, igrejas, templos, sinagogas e praças do entorno – e é MUITA coisa para algo tão vexatório quanto um episódio que envolve alguma idiossincrasia pueril – elas tomaram de assalto qualquer pessoa no planeta que tenha acesso a Internet e assista ao YouTube.

Se o objetivo inicial era apenas perpetuar a gracinha vergonhosa de uma criança ou adolescente e mostrá-la, não sem uma nesga de crueldade, aos parentes apenas com um clique, hoje busca-se a notoriedade da web. Depois que deram cria a uma criatura chamada “vídeo viral”, a internet notabilizou-se em esculpir em pedra o adágio fanfarrão de Andy Warhol. E dá-lhe crianças discutindo sobre o sentido da vida sob os efeitos do óxido nitroso, bebês grunhindo gracinhas ininteligíveis, emulando o movimento de pernas de Beyoncé ou chorando por causa de uma formiguinha morta.

O problema que ninguém consegue visualizar, por estar aparentemente tão distante, é: e depois? O que a adorável criança fará quando crescer, ter seus próprios valores sobre o que é engraçado ou não e ter que conviver à sombra de um vídeo viral? Crianças não são psicologicamente preparadas para este tipo de exposição simplesmente por ainda não terem amadurecido – e é por isso que são CRIANÇAS. Não que eu vislumbre um futuro distópico onde adultos traumatizados por terem sua intimidade pueril devassada pelo mundo extravasam sua raiva, frustração ou qualquer reação Jungiana ou Freudiana que o valha através de atos de extrema violência.

Esse seria, acreditem, o melhor dos futuros possíveis. Porque casos assim são resolvidos rapidamente, seja pela força da lei, seja pela pena de Talião que todos condenam abertamente mas exultam a cada reportagem de um programa mundo-cão qualquer. Estas crianças vilipendiadas em seu direito divino de ter privacidade podem vir a ser formadores de opinião ou lideres carismáticos, que poerão usar sua influência e poder para devassar, tripudiar, envergonhar e lucrar com as vergonhas alheias. E tudo isso com a anuência de uma geração que se habituou a achar que privacidade é “babaquice” e que vergonha alheia é engraçado.

Talvez fosse a hora de pensarmos mais a longo prazo, sem a urgência que esta geração tanto preza. Nem todos se sentem confortáveis sendo motivo de chacota para uma audiência cada vez maior e mais voraz. E por mais que uma gracinha infantil tenha seu encanto, ele é fugaz perto dos efeitos imponderáveis do futuro que não tarda a vir.

20.1.10

Skank - Calango

Não fui eu quem disse isso, mas o fatos estão aí. 1994 foi um daqueles anos musicalmente marcantes. Se hoje somos reféns, por exemplo, de bandas de rock emo, culpem o Weezer - mas não muito, pois eles são bons. Bandinhas que distorcem guitarras, fingindo ser punk ganhando mesada da mãe? O Green Day e seu Dookie. Também tivemos Oasis, Portishead, Blur, Jeff Buckley.

Mas aqui nas paragens brazucas tivemos momentos dignos de nota, para o bem e para o mal. Vou me ater a falar sobre um disco em particular, por tê-lo e por gostar muito dele, o segundo do Skank.

Quando os quatro mineiros de Liverpool (ouçam Cosmotron e descubram o que estou falando) lançaram o primeiro CD, ainda em uma época em que CD's eram "coisa de outro mundo", não dei muita atenção. Fora uma versão de Dylan e uma ou outra canção de "protesto", para meus ouvidos eram apenas branquelos queendo fazer reggae e se entregando demais à devoção a mister Marley. Vi uns clipes,ouvi umas coisas nas rádios e foi simplesmente "ok. Próximo".

Ainda bem que existe algo chamado evolução. Provavelmente por serem fãs de Marley, Tosh e outros, também ouviram por tabela vertentes mais desencanadas vindas da Jamaica; os meninos abraçaram o dancehall com toques brazucas e perpetraram onze canções pop que muito cara bom demorou uma década pra compor. Canções como "Amolação" (um libelo corno com um toque de humor cáustico) e "Sam" (espécie de "declaração de princípios" do vocalista e, por tabela, do grupo) dão, em velocidades diferentes, um passeio malemolente pelo "quase samba-reggae".

"Te ver", uma das mais tocadas do CD, reúne a síncope da Jamaica, os metais resvalando no jazz e uma letra que escancara a herança "Clube da Esquina" de qualquer mineiro nascido depois de 1960, mesmo que inconscientemente. "É como mergulhar no rio e não se molhar/ é como não morrer de frio no gelo polar...".

Alguns críticos chamaram a atual fase do Skank de "amadurecimento a là Roberto Carlos", o que me assustou. Visualizei Samuel Rosa exaltando as mulheres de vestido grená ou algo parecido, mas eles (ainda bem) simplesmente copiaram os grupos mod ingleses (tá bom, mal humorados, copiaram os Beatles!) e seguiram em frente. No "Calango", eles deram uma amostra desse amadurecimento com o, hã, rock-embolada "A cerca": os inevitáveis samplers que grassaram a década de 1990 mas sem os metais das outras faixas e com uma levada brasileira ( se é que posso qualificar um som com um gentílico). Falando em Brasil e no Roberto, a cover de "É proibido fumar" é (minha opinião aqui) primorosa.

Mas esse CD tem lugar cativo em meu coração por ter uma música que está em meu panteão particular; poucas músicas para mim são perfeitas. Na verdade, acho que 5 ou 6 tem essa (dúbia) honra em meu córtex cerebral. Pois depois de "Esmola", conheci mais um pop perfeito. A guitarra deu um início suave. A bateria deu o tom, um pequeno milagre. O baixo era quase obrigado a alcançar o Elísio dos tambores. Mas o que me matou suavemente foram os metais. Foi arrepio à primeira audição. Quando Samuel entoou os versos, fui intimado a aprender os versos, cantar junto e acender o isqueiro. Para se ter uma ideia, a última vez que senti isso foi quando ouvi "Por isso corro demais" na minha infância. Um passeio pelo paraíso chamado "O beijo e a reza".

O sol na nuca, e o corpo dela ofusca a luz do sol. E o sol de 1994 brilhou como poucos com esse disco. Mais um dentre tantos essenciais.

Álbum: Calango
Artista: Skank
Ano de lançamento: 1994

Lista de músicas aqui

9.11.09

Legião Urbana (1985)

Tudo bem, ninguém está olhando. Pode confessar. Nega a todos que o vê compenetrado, sério, focado em sua carreira; bom pai ou boa mãe, quase uma referência entre seus pares, criador de frases pensadas e ponderadas. Enfim, um cidadão respeitado pela sociedade. Mas agora somos só você e eu, não precisa se esconder, não pra mim. Pode dizer: você já foi jovem.

Sim, a juventude já correu serelepe por suas veias tão honradas, não? Era inebriante, vívida e vez por outra inadequada e inadequante. Não esconda o sorriso quase envergonhado ao relembrar que um dia você foi paradoxal. Sem as travas da maturidade, o amor que você tanto queria era ao mesmo tempo sufocante e desejado, saudoso e grudento. As lágrimas eram por todas as razões acima, os sorrisos também. E ao verbalizar isso, era com gritos de incompreensão e sussurros de culpa.
               Tire suas mãos de mim
               Eu não pertenço a você
               Não é me dominando assim
               Que você vai me entender
               (...)
               Nos perderemos entre monstros
               Da nossa própria criação
               Serão noites inteiras
               Talvez por medo da escuridão
               (...)
               Brigar pra que, se é sem querer?(...)

Você não entendia, mas queria se fazer entender. O mundo era apenas um grande campo de provas. O maior objetivo nessa época era um vago desejo de mudar o mundo. O mundo! Essa esfera cheia de pessoas tão díspares, e a força que você achava que tinha resumia-se nas frases curtas e na empáfia. Você sabia de tudo, tudo tinha uma resposta. Entusiasmo que contagiava enquanto fogo. De palha.
              Não sei o que é direito
              Só vejo preconceito
              E a sua roupa nova
              É só uma roupa nova

E as brigas, eternas como o entusiasmo em mover o mundo. Uma incerteza em ter certeza de... alguma coisa. E quando o sexo entrou na equação, o prazer imediato tornou-se O objetivo. Prazer em correr, para ter um corpo desejável. Prazer em ganhar o primeiro dinheiro, para a primeira balada (ainda chamam assim os encontros regados a música inaudível e bebidas?) e as primeiras pegações. A doçura resiste até a primeira camisinha furada. Mas isso é só um empecilho. O mundo!
              Uma menina me ensinou
              Quase tudo que eu sei
              Era quase escravidão
              Mas ela me tratava como um rei
              (...)
              Sei que ela terminou
              O que eu não comecei (...)
              Ela falou "Você tem medo"
              Aí eu disse "Quem tem medo é você"
              Falamos o que não devia
              Nunca ser dito por ninguém(...)

Em alguns momentos você tem epifanias não reconhecidas. Afinal, o mundo está mudando graças à sua intervenção. Nem sempre suas ideias são aceitas (na verdade, nenhuma de suas ideais foi adiante... mas isso era apenas questão de tempo) e a cada frustração, um tombo. E no chão, tão confortável, mais ideais criados.
              A violência é tão fascinante
              E nossas vidas são tão normais(...)

              E era como se jogassem Space Invaders
              Perdendo mais dinheiro de muitas maneiras(...)

              Parece energia, mas é só distorção
              E não sabemos se isso é problema
              Ou se é a solução (...)

Quando você se levantou, o diapasão reverbera na direção do ódio, puro, simples e primitivo. O mundo iria mudar, quer ele queira ou não. Quem era do tempo dos fanzines fazia os mais subversivos panfletos, recheados dos novos signos linguísticos, os palavrões. Você era blasfemo, irônico e anticomercial. Tomando refrigerante e cerveja de grandes corporações e comendo em fast foods.

              Depois de vinte anos na escola
              Não é difícil aprender
              Todas as manhas do seu jogo sujo(...)
              Vamos fazer nosso dever de casa
              E aí então, vocês vão ver
              Suas crianças derrubando reis
              Fazer comédia no cinema com as suas leis(...)
              Geração Coca-Cola

Súbito, o mundo deixa a órbita de seu umbigo. A namorada, ou namorado. O novo papel dos pais. O dinheiro, agora "rendimentos" ou "dividendos". Planos, bandas, sexo, sexualidade. Preconceitos. Assimilações. Individualidade. Novas famílias.

             Mudaram as estações e nada mudou(...)
             Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
             Que tudo era pra sempre
             Sem saber que o pra sempre sempre acaba(...)

E num dia, nem sempre tão belo, você amadurece.

Artista: Legião Urbana
Disco: Legião Urbana
Ano de lançamento: 1985  

Lista de músicas aqui.              




31.10.09

Arrested Development - Zingalamaduni

Nessa vida longa e louca, descobri uma coisa engraçada: não me arrependo de minhas cagadas. Se as fiz, foram todas conscientes. Sabia  dos riscos e benefícios, os bônus e ônus. Sempre soube que os frutos de minhas decisões seriam colhidas ou jogadas fora por minha conta e risco. O que não significa que eu nunca me arrependa.

Como eu disse, quando as decisões foram ditadas pela consciência, mato no peito e chuto pro gol, embora seja um pálido reflexo de jogador de futebol (no popular, perna-de-pau). O problema é quando faço algo ditado pelo acaso, ou pela empolgação, das duas, uma: ou descubro novas fórmulas da pólvora ou crio chicotes para meu autoflagelo. Pois em meados de minha adolescência fiz algo que me arrependo profundamente: apresentei o rap ao meu irmão.

Não sou tão seminal; não posso me gabar de ter conhecido Grandmaster Flash, mas me lembro de "Basketball" do decano Kurtis Blow, "I'm a ho" do Whodini e de ter pirado por ouvir excertos de outras músicas criando outras, faladas e com DNA funk - depois é que descobri o anglicismo sampler. Quando meu irmão mais novo era apenas um projeto de menino, fiz com que ele ouvisse a Bandeirantes FM (acreditem, antes da proliferação das rádios piratas e de outras ondas concorrentes, como as ondas dos telefones celulares, ouvia-se as FM's de São Paulo, capital, claramente aqui em Indaiatuba) e que ouvisse a melhor seleção de black music disponível para ouvidos leigos até então.

Não poderia imaginar o quanto ele gostaria de tudo aquilo. Claro que no começo havia uma preocupação em se fazer algo com o mínimo de conteúdo, como os gringos Eric B & Rakim, Kool Moe Dee, Run DMC e mais tarde os heróis brazucas da São Bento (salve, Thaíde). Infelizmente, uma das vertentes tornou-se mais evidente do que outras pelo mesmo motivo que outras manifestações culturais, políticas e religiosas se tornaram evidentes: a polêmica. O chamado gansta rap, capítaneado no final da década de 1980 por nomes como Ice-T e N.W.A., reduziu os arranjos limpos e funkeados por um minimalismo que poderia ter sido genial em alguns momentos (não dá pra dizer que Dr. Dre seja "apenas um rapper sem noção") mas que graças à repetição ad nauseaum tornou-se chato e aos mimos ditos com a boca cheia pelos rappers. Os manos virarram niggas, as minas viraram bitches, os desafetos juntaram-se todos num uníssono motherfucker e isso, graças a uma sucessão de fatores que não cabe a mim dissecar aqui, virou a nova fonte de renda de muitos "cantores". Se hoje excrescências como 50 Cent, Flo Rida, Chamillionaire e quetais são ricos e musicalmente influentes, agradeça a quem tinha por objetivo mostrar a vida estilizadamente violenta dos guetos americanos.

Tarde demais, tentei mostrar que havia, sim, rap que poderia combinar as raízes sólidas em que foram originadas com uma mensagem menos belicosa; talvez um pouco proselitista, mas com o uso de alguns neurônios além dos que formulam xingamentos. um dos CD's que comprei para comprovar isso foi o segundo disco de estúdio do grupo Arrested Development.

O respeito começava no encarte, com todas as letras. Escritas pelo rapper Speech (nome de guerra de Todd Thomas), com eventuais colaborações, mostrava uma preocupação em mostrar o orgulho em ter a pele negra, ter raízes africanas e fazer com que isso não se tornasse discurso panfletário, embora nisso, até por causa dos temas, fracassasse fragorosamente. A sorte dos ouvintes eventuais é que ele é um produtor bastante competente. O uso de samplers econômicos e inteligentes (como nas minhas favoritas "Africa's inside me" e "Ease my mind") e scratches precisos fez o disco ser palatável a quem achava que rap só exortava a posse de armas, mulheres em trajes sumários e palavrões.

Infelizmente dois fatores foram determinantes. Se não eclipsaram totalmente o álbum, não permitiram que ele brilhasse como ele merecia:  o ano em que ele foi lançado (1994 foi um dos mais férteis anos da indústria fonográfica mundial) e a preguiça mental que não permitia que grupos como Digable Planets, A Tribe Called Quest e outros fossem assimilados pelos niggas e pelas bitches, ávidos pela grana fácil trazida pela cooptação ao mainstream do estilo bandido dos ganstas. E atrás desse trio foi meu irmão que, se ainda consegue ouvir "In the sunshine" - a preferida dele no CD - e pirar o cabeção, acha graça em grupelhos de rap que proliferam na 105 FM que acham o máximo falar dos manos do X enquanto acham que falar palavrão é ser o novo Mano Brown.

Acho que vou queimar no fogo do inferno. Ao som de Eminen. Vou tentar negociar para ver se posso pelo menos ouvir 2Pac, na fase onde ele amadurece e faz gansta rap com método e conteúdo. Tão bom que é morto por causa disso. Bem, isso e por outras tretas, né?

Arrested Development - Zingalamaduni
Gravadora: Chrysalis - EMI
Ano: 1994

Lista de músicas aqui.