18.6.07

Roupas amarrotadas na mala sem alça

Meus dois leitores, ferrou.

O PC que eu utilizava pra escrever está fora de meu alcance. Quero dizer, posso até escrever, mas sempre haverá alguns pares de olhos alcagüetes atrás de mim.

Meu tempo, que já andava um bocado escasso, graças aos meus estudos e trabalho - só para constar, estou indo bem, obrigado. Logo termino o primeiro termo, e com boas notas - agora rareou por causa dos trabalhos escolares. Puxa vida, ter que procurar dados sobre Tales de Mileto e a imigração de povos que formaram nossa brasilidade (tá, forcei a barra ufanista) entre um atendimento e uma ligação covalente não é mole...

Tornei-me arrimo de família de novo. Não me peça para chorar minhas pitangas, pois já é duro ter que sorrir para quem merece um murro na cara.

Para coroar, ando mais cansado que o habitual. São meus 37, quase 38 anos cobrando os abusos de décadas de heroísmo infrutífero.

Por isso e por mais outras coisas, este blog entrará em um período sbático maior do que eu gostaria. Tentarei escrever algo entre uma visita esporádica ao cyber e outra, mas meu onbjetivo de manter pelo menos dois textos por mês foi pro vinagre. Espero que meus dois leitores ainda me visitem de vez em quando. Vocês sabem se virar, né? Tem café na garrafa, o bolo tá no forno, se quiserem refri é só abrir a geladeira. Só não reparem no pó que porventura estiver acumulado na estante.

Não se preocupem. Só acaba quando eu disser it's over, ok?

17.5.07

O fantasma dos blogs passados

As noites de todos os dias são preenchidas por uma assombração. Vestindo uma roupa indefinida, graças à luz que cega, e de tom azulado, o blog de Sidnei encarna um personagem de fábula logo que ele chega em casa, perto das 23:30, após as aulas. O blog matraqueia mal Sidnei começa a se despir.

- Ei. Ei. Eeeeeei! Tá lembrado de mim, seu ingrato? É, sou eu, aquele que você criou para escrever seus delírios, opiniões e frases feitas. Não sei se você tem alguma noção, mas não há postagem nova em mim há mais de mês. Um período de trinta dias – tá, fevereiro tem vinte e oito, mas ele só serve para deixar o calendário gregoriano certinho – e sequer uma sílaba. Tá achando que sou o quê?

Sidnei, ainda absorvendo análises sintáticas, números atômicos e o teorema de Pitágoras entre bocejos, dirige-se ao banheiro como um zumbi e liga o chuveiro. O blog fala, já acostumado a tecer longos monólogos.

- Não sei se você se lembra, mas sou seu terceiro blog. Terceiro, seu inconseqüente! Os outros morreram de inanição por não terem coragem de falar sobre o abandono a que foram submetidos. Provavelmente porque neles você era mais obsceno, venal e confessional e por respeito se calaram, imaginando que o silêncio seria recompensado com pelo menos lembranças. Pois os anos passaram, você se desfez de seu PC e nem sequer uma sinapse, ingrato! Pois comigo será diferente, tá ouvindo?

Se Sidnei ouviu, não demonstrou. Aliás, não havia semblante discernível entre uma enxugada e outra. Seus atos, mecânicos, o vestiram com uma bermuda que ele ganhou de presente de um amigo e uma camiseta branca puída. O cérebro dele ordenava “água” e um copo foi cheio. Dois. Três. O blog não pára de falar.

- Caramba, você parece um camelo, cremdeuspai! Ou seria um dromedário? Enfim! Olha, sei que eu insisto sobre sua falta de talento, mas é só uma maneira de estimular sua criatividade. Veja seu histórico: primeiro você se escondia atrás de sua baixa auto-estima e escrevia proto-poemas. Depois, usava o arremedo de família como escudo e não escrevia nada até que eu apareci. Quero dizer, o “eu” aqui representa metaforicamente outros blogs... ih, mas peguei sua mania de ser prolixo por osmose, credo!
- De novo. Olha... já é difícil ser um blog sem fins lucrativos. Na era dos blogs profissionais, repletos de vídeos virais e links patrocinados, você insiste nesse romantismo anacrônico. Escrever pelo prazer de escrever, que é isso? Mas já que você é idiota o suficiente para acreditar na “pureza” inicial dos diários virtuais (caraca, até seus ídolos, Inagaki e Janio, ganham com o inegável talento deles para a escrita!), você poderia, pelo menos, manter uma regularidade. Se não diária, como era sua intenção inicial – coitadinho, achou que era um Cony da vida? – pelo menos quinzenal. Vá, um boi pra você: mensal. Mas o que você faz? O quê?

As cerdas da escova de dente são gentis na boca bocejante de Sidnei. Nesse momento ele parece prestar atenção ao que o blog diz, ou melhor, grita. Mentalmente ele imagina uma situação, ao mesmo tempo em que se lembra de um fato passado. Mas o sono é impiedoso, assim como o discurso inflamado do blog.

- Não se atreva a simular cansaço, seu preguiçoso! Você tem um computador à disposição, alguns momentos de ócio e um monte de merda na cabeça! Merda! Sou profissional, aceito qualquer coisa que digitam em mim, o que não significa que não tenha senso crítico. Você só escreve merda, meu caro. Mas é uma merda que rende grana aos meus criadores. Por isso, deixe de se esconder sobre seu pseudocansaço e lote seu disquete de coliformes fecais!

Sidnei aciona o despertador do celular – agora com “Vilarejo” da Marisa Monte – enquanto lentamente abre o cobertor. Ao apagar a luz, ele profere as primeiras palavras:

- Por favor, vá até a sala um e se informe com uma enfermeira...

No escuro, ele se deita de lado e apaga como uma vela. O blog entra em pânico, vendo que sua explosão verborrágica não surtiu efeito algum.

- Peraí... não durma ainda. Ok, exagerei ao comparar seus textos à merda, mas você precisava de um sacolejo. É que... estou tão só... e quando vejo seus diários preferidos sendo atualizados com freqüência, me sinto vazio. Olha, seus textos não são tão ruins assim. Aquele do... como é que é mesmo? O do dia em que... enfim! Sei que tem dias em que você não tem grana para ir ao cybercafé, sei que nem sempre o PC está disponível, afinal é seu local de trabalho... você já está dormindo?

O ronco de Sidnei é entrecortado, trilha sonora do sono cansado e profundo. A escuridão o acolhe, o blog se cala, boca seca e se senta na beira da cama. De algoz, o blog se transforma em vigilante, quase o mestre dos sonhos.

- Tudo bem... descanse. Por hoje serei apenas uma lembrança. Mas eu volto... – diz, num sussurro, como cantiga de ninar.

No mínimo, a Terra

A escola onde faço o supletivo do ensino médio é a mesma onde voto. De dois em dois anos, desde 1994, mantive um ritual de expiação, se posso chamar assim. Não via motivo para ir ao Jardim Pau Preto com a freqüência de antes de 94, por isso aproveitava o meu dever cívico para cumprir outro dever, desta vez com minhas lembranças e medos. Saindo da escola, ia até a rua Hércules Mazzoni, esquina com a rua Padre Vicente Rizzo, a duas quadras. Lá estava ela. A casa.

Agora que meus deveres estudantis me levam ao bairro, não há como escapar. A rua está próxima demais para ser ignorada. No dia 26 de março, lua crescente e céu estrelado, desci a rua Antonio Zoppi e virei à direita na rua Hércules Mazzoni. Duas quadras. A casa.

O muro cresceu meio metro e o portão agora é maior; a casa ganhou nova pintura e perdeu parte do imenso quintal. O pé de limão vinagre foi podado mas a torre de televisão continua no mesmo lugar. E nos poucos minutos que fiquei parado na calçada, memórias.


Noite de primavera de 1977, o terreno onde hoje se localiza a praça Andréa Bonachella. Entre setembro e março o espaço era ocupado por parques de diversão e circos itinerantes. Numa sexta-feira de outubro, noite, minha mãe levou meus irmãos e eu ao parque instalado durante a semana. Foi uma farra: pusemos nossas melhores roupas e nos dirigimos,excitados, às luzes coloridas. Lá, as lâmpadas vermelhas, azuis e amarelas piscavam, o burburinho parecia brotar do chão até a lua cheia e a pipoca, a maçã do amor e o cachorro quente formavam um caramelo de odor inebriante.

Na barraca das argolas, ganhei um urso de pelúcia. Minha mãe também. Minhas irmãs rodaram no chamado chapéu mexicano, a mim faltou coragem. No carrossel, aquele cavalinho azul onde minha irmã se sentava ficava eternamente com a boca aberta, enquanto eu ficava de pé, já grande demais para me divertir como se deve. Ao longe, meu nêmesis, brilhante e assustador: a roda gigante.

Protelava até o último minuto possível a terrível viagem e sempre conseguia me safar. Ou fingia que estava sonolento ou simplesmente dizia “deixa pra próxima vez, mãe”. Dessa vez não houve quem demovesse dona Benedita da idéia de me levar ao alto da roda gigante. Ingressos na mão esquerda, minha mão esquerda na mão direita dela. E nós dois naquele banco suspenso, balançando temerariamente.

O responsável pelo brinquedo acionou uma alavanca e a roda começou a girar em sentido anti-horário. Quando o banco começou a balançar e o chão ficou longe dos meus pés, todo meu corpo começou a tremer. Sem controle e vigorosamente. Tentei inutilmente controlar os espasmos, mas eles só fizeram piorar quando a roda parou conosco no ponto mais alto dela. Meus dentes batiam violentamente uns contra os outros, quase um triturador bucal. Meu cérebro paralisado só voltou a funcionar quando senti a mão de minha mãe pousar sobre a minha, que estava retesada, e ouvi a voz dela. “Calma. Eu tô aqui”.

Ao captar a voz dela, ouvi também minha respiração. A respiração milagrosamente acalmou o tremor, que deixou meus dentes em paz.. O toque transformou-se em afago e vi o sorriso dela, aberto. Pude contemplar a cidade às escuras e suas poucas lâmpadas na época. A lua sorria num ângulo de 45 graus no quarto minguante e a brisa cantava.





Dois cachorros, ambos vira-latas, determinam a posse do território com latidos veementes. O quintal parece bem cuidado, ainda de terra batida mas bem capinado. Não que antes não o fosse. Só que agora parece que crianças brincam nele freqüentemente. Cães, uma bola, um daqueles triciclos. Crianças em um quintal são sonoras, alegres e espantam os fantasmas de agouros passados. Fantasmas que ainda rondam a casa toda vez que ouso passar naquela calçada.


Eu e meus irmãos já sentimos medo antes, mas nada que se comparasse ao que passamos naquele 10 de março de 1979. Acordamos e enquanto nos preparávamos para mais um dia minha mãe dispara, aparentemente do nada: “arrumem suas coisas. Nós vamos embora”. Não questionamos, apenas obedecemos; o que aparentemente foi rápido já tinha sido planejado há algumas semanas. Quando saímos para a rua, um táxi nos esperava com o motor ligado. Eu e meus três irmãos nos acomodamos no banco de trás do Corcel amarelo e supusemos que estivéssemos fugindo de meu pai, o que foi confirmado quando minha mãe pediu que nos mantivéssemos com a cabeça baixa enquanto passávamos por ruas próximas.

O relacionamento de meus pais era, para ser educado, bastante tumultuado. O alcoolismo de meu pai e a insatisfação de minha mãe, traduzida, soube depois, nos casos extraconjugais que ela manteve, deixavam o ambiente familiar tenso. A gota d’água foi a briga em uma festa de aniversário que culminou numa cena digna da era da pedra lascada: o pai arrastando a mãe pelos cabelos no meio da noite. Depois desse fato ela começou a arquitetar a fuga.

E o táxi era apenas a primeira parte. Ele nos levou até os portões do clube de campo da associação 9 de Julho, onde outro carro nos aguardava. Uma mulher, com um perfume adocicado e pronunciado pediu para que nos sentássemos, como sempre, no banco de trás. Estava assustado; só vi o rosto inexpressivo de meus irmãos e a poeira formada pelos pneus na estrada velha Campinas – Indaiatuba.

Poucos minutos depois o carro deixou a mim e minhas roupas num lugar chamado Cidade dos Menores de Campinas. Só eu e a mãe saímos. Ela foi em direção a um homem velho e corpulento dizer algumas palavras em voz baixa. Depois de longos minutos ela veio a mim e disse: “olha, Nei, você vai ficar aqui, tá? Se comporte direitinho, obedeça ao seu Agenor e não se preocupe. Logo eu venho te ver.”. Ela me deu um abraço tímido e me deixou perto daquele estranho. Moleque besta que era, não tive coragem de perguntar como me comportar direito diante daquele povo esquisito, com nomes e comportamentos alienígenas.





A garagem continua a mesma. Ela faz parte do terreno onde a casa se localiza e mantém a mesma tinta, talvez tenha as mesmas pichações. Quase consigo ouvir a proto-banda do filho da patroa de minha mãe tentando tocar “Sunday, bloody Sunday”, geralmente com resultados desastrosos. Os sábados à tarde tinham música de qualidade duvidosa e temperos bem dosados. As lembranças nem sempre têm sabor de fel.


Aquela segunda, 19 de abril de 1994, começou estranha. Meu tio, após a carraspana que dura uma semana (outro dia explico isso), resolveu voltar ao trabalho. Eu tinha uma entrevista de emprego, nada muito promissor mas era a primeira em meses. Súbito, o homem que morava com minha mãe aparece no portão de casa e diz que ela estava em Itu. Visivelmente alterado, ele queria que meu tio o acompanhasse. Como ele não conseguiu seu intento, saiu rápida e nervosamente. A princípio não demos bola; afinal, tínhamos nossos compromissos e não era a primeira vez que ele aparecia imerso em palavras sem nexo.

Foi à tarde que percebemos que algo não estava bem. Quando ligamos para a casa onde ela trabalhava – em um orelhão, não tínhamos telefone – o telefone tocava, tocava e ninguém atendia. Como se fizéssemos parte de um dantesco vaudeville, minha irmã Andréa apareceu e disse que o sujeito que morava com minha mãe passou rapidamente na casa dela e disse que minha mãe tinha viajado com a patroa dela para São Paulo. As estórias discrepantes nos deixaram em pânico. Rumamos a pé até a casa. Eram cerca de 16 horas.

A rua Padre Vicente Rizzo começa do lado direito da igreja matriz, olhando-a de frente. Eu, Andréa e meus sobrinhos descemos, primeiro com passos vigorosos mas ainda lentos. Quando vimos ao longe policiais correndo e uma pequena multidão se aglomerando, começamos a correr. Ouvimos um estampido quando estávamos quase no portão e vimos o sujeito que morava com minha mãe ser carregado por três policiais, ensangüentado. Fui contido por mais três policiais ao tomar ciência, mesmo sem ver, do que tinha acontecido.

Minha mãe estava estirada no chão da sala, sobre o tapete. Seu pescoço foi cortado de orelha a orelha por um facão e deixou seu sangue se esvair. Não vi a cena ao vivo, mas o jornal local exibiu a foto do local do crime em preto-e-branco. Lembro de mim espantando os transeuntes e curiosos como um cão raivoso, com os olhos ardendo de tanto chorar. Lembro-me do vazio e do ódio.

E toda vez que ouso ficar parcos dois minutos na frente da casa, a memória exibe um filme de três horas, mais extras. Não é algo que eu faça com freqüência; essas lembranças são caudalosas demais até mesmo para mim, que me acho forte. Dois minutos são suficientes. Mas minha mãe merece bem mais do que lágrimas e desconforto. Merece uma música; a música que sempre toca em meu cérebro nesses momentos.

“Ressucita-me, para que a partir de hoje (...) a família se transforme.”
“E o pai, seja pelo menos o Universo. E a mãe, seja no mínimo, a Terra. A Terra.”

A Terra.

31.3.07

Tardes vazias

Do alto da cidade, na vila Avaí, próximo da sede da rádio Jornal AM, a cidade que se via em meados da década de 1980 era a dos telhados de barro, das copas de árvores e dos raros edifícios, sendo o mais pronunciado o prédio do hotel Alvorada, branco e com letras azuis. Gostava de ir até lá. O caminho era muito tranqüilo, principalmente aos sábados e domingos. Ou eu percorria uma linha reta pela rua 15 de Novembro, caminho preferido no final de ano, graças a algumas mangueiras que ficavam apinhadas de manga-espada, numa casa perto da avenida Presidente Kennedy ou imitava uma barata tonta, ziguezagueando entre o centro e os bairros Cidade Nova, Vila Suíça, Vila Furlan e Jardim América.

Uma ladeira, nada muito íngreme, rodeada de terrenos vagos, árvores e um quase silêncio me levava até o topo. No início da primavera a Vila Suíça era, e ainda é, brindada com o balé parabólico das andorinhas, felizes por encontrarem o sol. Nas casas, famílias e seus sons e odores; “crianças (...) sob o olhar carinhoso dos pais”, como diria Léo Jaime numa obscura canção de seu LP (não riam, crianças!) “Vida Difícil”. E no topo, a visão da cidade.

No meu período autista não havia melhor lugar para ficar. A cidade aos meus pés, o pasto e algumas chácaras atrás de mim. Quando eu me abastecia na biblioteca, um dos meus locais prediletos para ler era à sombra de uma cerca onde o maracujá florescia, perto de uma árvore cujo nome não sei até hoje (taí, acho que vou ler algo sobre botânica). Li várias obras de Agatha Christie e J. M. Simmel sentindo o cheiro de maracujá e pinheiros.

Quando a tarde anoitecia, o sol teimava em se pôr de maneira cinematográfica, deixando os pastos vermelhos e azuis. Bovinos e o verde do pasto, imóveis, pintavam um cartão-postal diário. O burburinho dos pardais e o vôo simétrico das garças davam o tom bucólico de minha contemplação. Quase sentia pena em deixar meu posto e voltar para casa.

Estive lá há dois domingos. Tudo o que vi foram casas, sobrados, prédios de maior ou menor altura. As buzinas eram sons recorrentes, assim como o pancadão dos alto-falantes. Tropecei em garrafas pet, copos descartáveis, cacos de litros de vinho e vodca, e as conseqüências nas pessoas que bebiam o conteúdo do que foi descartado.

O sol só mostrava o traço carmim enquanto se punha. E me pus de volta ao meu caminho, sem andorinhas.

O futuro do giz

No dia 12 de fevereiro de 2007, um novo recomeço. Após anos protelando, ora por desânimo, ora por incompatibilidade de horário, ora por incompetência tanto minha quanto de outrem, estou de volta a uma sala de aula para completar meu ensino médio. É um supletivo em escola estadual, o que quer dizer aulas em ritmo acelerado e com conteúdo reduzido ao mínimo necessário, quase medíocre. Não que os professores o sejam, mas o conteúdo pedagógico precisa ser adaptado a quem se dispõe a colocar os neurônios empoeirados em funcionamento.

Entre professores recém-saídos da universidade e veteranos calejados por anos de quadro-negro – deve haver traços de giz no DNA deles – é possível obter conhecimento, basta saber o que e como perguntar, sem medo de parecer “bobo”. Tome o professor de Português, Ronaldo. Ele pulsa de entusiasmo e adora o que ensina. Ou a professora Tatiane de História, que mostra que sabe o que leciona. Mesmo os professores mais tarimbados, como Pedrinho de Biologia, gostam de ouvir perguntas e respondê-las claramente.

Quando me propus a estudar, tinha em mente alguns preceitos: é um supletivo rápido, num horário onde nosso corpo demonstra cansaço, porém com colegas de classe adultos e com o propósito de completar o ensino médio. A rapidez e o cansaço se confirmaram e é possível adaptar o cérebro às informações e à fadiga. O que me surpreendeu negativamente foi a atitude dos alunos.

São homens e mulheres, a maioria com mais de 25 anos, quando não com mais de 30. Têm filhos, netos, adoram dizer que são vacinados e pagam impostos. Mesmo assim, não raro interpelam o professor quando ele “escreve demais na lousa”, gritam como infantes mimados, riem alto como se ouvissem piadas, conversam sobre celulares e baladas, mostram sua verve com frases de efeito recheadas com palavras de baixo calão e preconceitos, perguntam “ ‘fessor, é pra pular linha?”, “é com lápis ou com caneta?”.

Há, ainda bem, quem se preocupe em aprender. Mas se os diálogos esparsos dão uma pista sobre o motivo pelo qual marmanjos freqüentam uma sala de aula, ela é: eles querem apenas o canudo, um certificado de presença para mostrar ao RH da empresa em que trabalham ou à agência de emprego. Como na “era ISO” vale o que está impresso em papel timbrado, o conteúdo é o que menos importa.

Desde que o governo Mário Covas instituiu a chamada progressão continuada, o ensino no estado de São Paulo tornou-se risível. Basta aos alunos do ensino fundamental ter uma freqüência de 75% às aulas para que se considerem aprovados. No ensino médio, instituíram as “eliminações de matéria”; não é preciso mais do que 60% de acertos para que alguém seja considerado apto. O que mais me deixou estupefato, contudo, foram os chamados conceitos. As notas tradicionais (de A a E ou de 0 a 10) foram substituídas por avaliações conceituais conhecidas por siglas (PS – plenamente satisfatório, S – satisfatório e NS – não satisfatório). Mais uma vez o aprendizado foi preterido em favor da mediocridade dos certificados. Não há estímulo para aprender, apenas para passar de ano. Como se os anos não passassem!

Claro que estudarei até o final dos termos, com todo o afinco possível. Sou CDF assumido, adoro estar em uma sala de aula e ouvir os monólogos professorais. Só está sendo um pouco mais frustrante do que imaginei. Não queria sair da escola estadual Geraldo Enéas de Campos apenas com um certificado.

17.3.07

Parte três - É com esse que eu vou

“Tudo passa, tudo passará...”. Quarta, 21 de fevereiro, começo da tarde. A freeway, definida como “monótona” pelo meu anfitrião, nos guia na volta a Porto Alegre. O campo eólico de Osório continua hipnótico e todos nós observamos as hélices brancas. Pouco mais de hora e meia e estávamos no centro da cidade, depositando as malas no apartamento do Janio, espaçoso, convidativo e muito agradável. Não sei bem porquê, mas a Maria-Lavadeira atacou novamente e fui ao estranho tanque instalado na área de serviço. Era um retângulo; o apoio para as roupas é perpendicular ao chão. Enquanto lavava meus panos, me lembrei de Fernando, o amigo virtual que fiz e prometi conhecer pessoalmente. A ansiedade veio e se manteve.

Seria o segundo amigo à distância que eu conheceria ao vivo, e tão inteligente e espirituoso quanto Janio. Pior: Fernando é escritor e artista plástico; o tipo de pessoa que me assusta. O que posso dizer e pensar perto de um homem culto? Resolvi esfregar meu jeans com mais vigor e não sofrer por antecipação.

Mais tarde, durante o almoço, marcamos o ponto de encontro por telefone: a entrada do shopping da Rua da Praia. Mascava meu bife cuidadosamente enquanto Janio me tranqüilizava.É engraçado como eu me sinto bem perto desse menino. Podíamos ficar em silêncio, falar qualquer coisa e nunca conseguiria me sentir inadequado perto dele. Era como ficar perto de um irmão. Definitivamente o conheci no momento certo de minha vida; não sei se aproveitaria esse convívio virtual e real aos meus 25 anos, o período mais negro de minha biografia (sombrio o escambau, esse lance “politicamente correto” é uma tremenda babaquice).

Banho, roupas limpas e calor. Deus, como Porto Alegre é quente! Com desejos de boa sorte caminho até a rua da Praia, também conhecida como rua dos Andradas (não me pergunte, sou apenas um turista). Não deixo de ficar impressionado comigo mesmo: quatro anos se passaram e ainda me lembro como chegar até lá. E lá chegando espero. Curta espera; em menos de quinze minutos Fernando vem em minha direção, braços abertos e sorriso fácil. Os medos imbecis foram expulsos a porrada.

Fernando é 115% gaúcho. Além de nascido na capital, usa e abusa das famosas interjeições “bah” e “tchê” com a naturalidade com a qual digo “trem” e “cremdeuspai”. Seus 57 anos foram bem aproveitados e vividos, pois sua retórica é clara e seus olhos brilham ao falar. Enquanto tirávamos o pó da distância – afinal, era a primeira vez que conversaríamos ao vivo, sem a distância que o computador nos impunha – num papo superficial, já foi decidido: já que estávamos no centro, que fôssemos aos pontos turísticos do centro.

O principal empecilho era a semana em que estávamos. Durante o carnaval não há espaço para a chamada “vida cultural”, se a cultura não vier acompanhada de teleco-teco, balacobaco e ziriguidum. Ou seja, nada de Santander Cultural. Mas o MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) não acompanha o rufar dos tamborins e exibia uma interessante mostra de fotos em preto-e-branco do francês Pierre Verger. Ele captou instantes brasileiros muito expressivos em meados do século passado: festas, pescas e rituais afro-brasileiros em diversos estados. As exposições permanentes mostravam esculturas, instalações e pinturas. O ponto negativo foi a ausência do ar condicionado, que, segundo uma das funcionárias, estava em manutenção.

Próxima parada: a igreja matriz. Linda, para ficar no comentário óbvio. Os vitrais, a abóbada, a nave. O cheiro de madeira é o cheiro do tempo. Fernando me conta uma passagem intransigente de um cardeal, que não cabe a mim dizer aqui, pelo menos por enquanto, e ilustra o porquê de certos pensamentos que ele tem. Nos confessionários, a lembrança de minha primeira comunhão e do padre Guedes.

Praças e estátuas. Ruas sinuosas e aclives (Fernando as chama de lombas). O Guaíba ao fundo, ao lado e em frente. Enquanto víamos o banco onde Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade discutiam a eternidade em bronze, Fernando decidiu que me hospedaria. Dois segundos de hesitação. Vasculhei os bolsos, as chaves do apartamento do Janio soaram. Aceitei.

O apartamento dele fica na zona sul (puxa, ninguém mora mais em casa térrea?). A acolhida foi calorosa e não demorei a me sentir bem. O quarto onde eu fiquei tinha ao longe a paisagem urbana que um dia teve o Guaíba no horizonte. Na janela da sala, uma sibipiruna (é uma sibipiruna mesmo, Fernando!) recebia pássaros e dava sombra. Nas paredes, os quadros a óleo, guache e outras técnicas feitas por ele, inclusive arte feita na planilha de texto Word. Na sala, livros, muitos livros... e um dicionário Aurélio! Pude confessar que a visita ao MARGS foi a primeira vez que visitei um museu. Estranho, já que o MASP fica a 100 km de minha cidade. Talvez eu seja um paulista sem convicção.

A rotina dos quatro dias restantes de minha semana foi quente (nas palavras de Fernando, “bah, mas que calor, tchê!”) e repleta de passeios a bairros e shoppings. Almoçamos sós ou acompanhados dos amigos dele, absolutamente simpáticos. Caminhamos pelo calçadão que margeia o estuário Guaíba, que tem o descalabro de ser mais tranqüilo do que o do parque ecológico de Indaiatuba. Visitamos a Livraria Cultura, onde quase me esqueço que sou um sujeito honesto e tive ganas de sair correndo com um Aurélio e as edições encadernadas de Sandman debaixo do braço. Dividimos o vício por café em cafeterias muito aconchegantes. Tomamos chuva. Falamos sobre tudo. Tudo.

Deixei uma de minhas “primeiras vezes” para Porto Alegre de propósito. Fomos eu e meu novo anfitrião a uma churrascaria degustar um espeto corrido – o rodízio para os cidadãos acima do Trópico de Capricórnio – e não me arrependi por ter deixado para fazer isso quase aos quarenta anos. Numa palavra: sen-sa-cio-nal! O carnívoro em mim ficou plenamente satisfeito. Só restou uma dúvida: como sou uma nulidade no que se refere a conhecimento de corte de carne – se você me disser que determinado corte é picanha, alcatra ou coxão mole, acredito – fiquei sem saber que corte de carne os gaúchos chamam de vazio...

Mas isso é uma digressão. Falava da rotina. E mais uma vez me senti dentro de um comercial de margarina. No café, retirar a fruteira e o cinzeiro em forma de camelo da mesa – Fernando deixou de fumar há cinco anos, muito bem! - e colocar a toalha; aquecer o leite, dispor pão, margarina, requeijão, café solúvel e talheres sobre a toalha; conversar sobre arte, quadrinhos, vida, morte, religião, Jack Kerouac, Manoel Carlos e o que desse na telha enquanto comíamos. No fim, retirar a mesa, enquanto a hierarquia da limpeza é determinada: ele lavava, eu enxugava; ele guardava os alimentos, eu, a louça e os talheres. E conversávamos. Sobre filhos e netos, pais e avós, amores e decepções, orgulho e esperança. Tudo. Tudo.

Um pequeno ato escancarou a alma de meu anfitrião e mais novo querido amigo. Estávamos durante a letargia após o almoço, quietos, ouvindo a Guaíba FM quando um piano introdutório o deixou em estado de alerta. Quando Elis Regina começou a cantar, ele simplesmente e apaixonadamente acompanhou nota por nota o curso da canção: “É com esse que eu vou sambar até cair no chão,/ é com esse que eu vou desabafar na multidão...”. Como não ser amigo de um homem que é fã de Elis e de Cássia Eller, um dos objetos de nossas conversas?

“Tudo passa, tudo passará...”. O sábado, dia 24, chegou; o dia de comprar as passagens de volta. Hora das despedidas; no apartamento do Janio, dois presentes: um livro e um abraço. Como um bocó, desando a chorar de saudade. Foi um choro tão genuíno que me assustou. Por conta disso pedi um favor para o Fernando: uma hora antes de minha partida, durante os preparativos, que ele tocasse o CD “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”. Foi salvador: entre “Eu sou terrível” e “Quando” eliminei as lágrimas, entrei no carro e fomos para a rodoviária.

No caminho, reiteramos a amizade com palavras corretas. Poucos silêncios, e a noite seguia calma. Porto Alegre na penumbra também é atraente, entrecortada pelos faróis dos carros e silhuetas de prédios e estátuas. Perto do estádio Beira-Rio, não pude deixar de notar como a luz deixa a construção linda.

Despedidas são tristes e promissoras ao mesmo tempo. Deixei para trás as lembranças de uma semana inigualável, um abraço paternal e o compromisso da volta. O aceno de mãos na janela e o sorriso que trocamos quase anularam o efeito Roberto Carlos. Quase. O motor do ônibus e a tagarelice dos passageiros dos bancos da frente fizeram a Rádio Neural selecionar “Encontros e despedidas” na voz de Maria Rita. “Coisa que gosto é poder partir sem ter planos, / melhor ainda é poder voltar quando quero...”.

Chuva na pista em Santa Catarina. Os restos do que foi um Vectra no acostamento. Araucárias. Hortênsias. A duplicação da pista. Não me permiti ver o tempo nem os estados passarem. Só senti que estava em São Paulo quando na última parada ouvi a Educadora FM de Campinas nos alto-falantes.

Terminal Tietê. Na ida tinha testemunhado o caos humano causado pelo feriado. Na volta, o caos causado pela chuva. Tudo aquilo que eu via no conforto de meu sofá em imagens aéreas pude testemunhar ao vivo, ainda que a uma distância segura: os pontos de alagamento, o trânsito parado. Como eu disse, a semana das “primeiras vezes”.

Dei às nuvens o prazo de hora e meia. Tempo suficiente para namorar revistas (comprá-las, nunca mais), comer um saudabilíssimo Jesus-me-chama chique e tomar um capuccino. Quando tudo aparentemente se acalmou, finalmente pedi: “uma para Indaiatuba, janela, por favor”.

Já era noite quando finalmente dei as caras em casa. Enquanto desfazia a mochila e me preparava para mais um dia no posto de saúde, tive uma epifania. Ao me ver de volta à “minha” rotina indaiatubana, descobri enfim que sentimento aparentemente inexplicável era aquele que me assolou em Tramandaí e em Porto Alegre com meus amigos. Aquela alegria por algo, aquele calor humano, aquele chorar de bobo alegre.

Pela primeira vez me senti fazendo parte de uma família.

Parte dois - Um vento bom

Foi a semana das “primeiras vezes”. Na noite de domingo, 18 de fevereiro, estava dentro do carro do Álvaro, ouvindo o som dos pneus sob as pedras – Janio disse que eram fragmentos de basalto – e olhando freneticamente as casas de madeira. Numa delas o portão se abre e entramos. É uma viagem pela história; 50 anos, firme e saudosa dos filhos que brincaram, dos cafés da manhã tardios e dos preparativos para a praia.

A casa fica na cidade de Imbé-RS, que já fez parte de Tramandaí antes da emancipação. Na entrada da cidade há uma imagem estilizada de um boto, que, segundo Janio me disse, guiam os pescadores aos cardumes de sardinha. Desenhei uma imagem mental pífia, nocauteada pela visão de homens com água até a cintura com varas, tarrafas e um instrumento estranho nas mãos pescando no rio Tramandaí. Mas voltemos a casa.

Rapidamente fui acomodado em um quarto. A mochila foi depositada no chão e minha voz nos ouvidos dos meus dois anfitriões. É agradável conversar com pessoas inteligentes e bem humoradas e isso fez com que o cansaço da viagem fosse simplesmente esquecido. Fui convidado a fazer uma pequena caminhada por Tramandaí na noite quente, porém agradável. Atravessamos a ponte sobre o rio, ainda com pescadores. Pela arquitetura do entorno da ponte, tudo foi pensado para a acomodação dos pescadores; passagens ao lado da ponte, mirantes na beira do rio. As curvas sinuosas das redes jogadas com precisão pelos pescadores dançam até caírem em harmonia no espelho d’água.

No que me pareceu a principal avenida de Tramandaí, a multidão fervia. Fantasias, música alta e animação. O tal carnaval. Desviando de transeuntes e de jatos de espuma comprimida de foliões muito empolgados, observávamos, eu e Janio, todo aquele frêmito com olhos quase antropológicos. Ele conseguia diferenciar os sotaques gaúcho e catarinense com uma facilidade que só o hábito explica, além de iluminar alguns aspectos obscuros aos olhos de um paulista caipira dos “usos e costumes” daquele lugar.

Na volta, alta madrugada, um boa-noite e os preparativos para desmaiar. Me dirijo ao quarto que por três dias será meu. Pela primeira vez tive um quarto “inviolável”, com uma porta que o separa das áreas comuns. Meus quartos ou eram comunitários (já dormi com irmãos, tios, avós, primos e primas... mas cada um em sua cama, catre ou colchonete, seres maldosos!) ou era parte do caminho entre cômodos, como hoje. Quando fechei a porta, respirei fundo essa sensação de privacidade inédita. E dormi um de meus sonos mais profundos e revigorantes.

Ao abrir os olhos, não me senti estranho. Eu, bicho do mato, antes tão envergonhado em ficar perto de qualquer pessoa, estava à vontade naquela madrugada. Madrugada, sim; acordar às 6:45 em pleno gozo de minha folga é acordar com as galinhas, embora não houvesse nenhum galináceo por perto. Meus anfitriões dormiam o sono dos justos e caminhei calmamente pela casa, observando os detalhes que fazem de uma edificação um lar, ainda que provisório. A luminária colorida, as janelas que se abriam graças à habilidade do dono – pequenos macetes comuns. Ou você vai mentir para mim, dizendo que não dá três tapinhas para destravar algo ou coisa parecida em sua casa? – e o ceder do piso de madeira perto de uma mesinha; me sentia como Godzilla tremendo Tóquio a cada passada. Na cozinha, lembranças de uma época distante em reproduções de cartazes de cinema e propagandas. De repente baixa em mim a Maria-Lavadeira e decido ir ao tanque – imaginando que haja um tanque no quintal.

Flores vermelhas e um céu meio azul, meio cinza me recepcionam. O ar está leve, o silêncio é acolhedor. Minhas roupas sujas me esperam. Quando o sabão e a água formam a espuma, minha garganta dá voz à minha Rádio Neural. Me senti tão à vontade que me esqueci onde estava. Sorte que meus anfitriões são muito pacientes e amigos.

Por falar neles, eles sim estavam com o espírito da folga: acordaram depois das 9, muito relaxados e iniciaram a liturgia da manhã: aquecer o leite, arrumar a mesa com um jogo americano amarelo, xícaras, facas e colheres, dispor os acepipes matinais. Aqueles movimentos me fascinaram; pela primeira vez eu fazia parte de um ritual “comercial de margarina”.

Como se não bastasse, experimentei (e gostei muito!) uma iguaria cuja fama a precedia, porém não existe acima do Trópico de Capricórnio: a cuca. Estava aqui tentando descrevê-la ao meu paladar paulista, fazendo alguma analogia e o melhor que consegui fazer é comparar a massa a um pão-de-ló mais pra pão do que pra ló (não me pergunte o que isso significa, por favor), coberta com uma... farofa de açúcar, ou algo assim e recheada com delícias calóricas. Abacaxi, coco e mu-mu. Aí você, que não é gaúcho, me pergunta: o que cazzo é mu-mu? Pois essa definição de doce de leite sofre da mesma contaminação que nos faz chamar lâmina de barbear de Gillette e esponja de lã de aço de Bom Bril, entendeu? Achei uma graça.

O tempo não queria colaborar com meu primeiro encontro com o mar, mas meus amigos são gaúchos e não desistem nunca. Após o café, lá fomos nós. Primeiro comprar algo decente para usar na orla, claro. Não que eu fosse usar sunga. Eu e essa peça do vestuário sofremos de incompatibilidade estética. Mas enfim...

O mar. A primeira vez veio cinza, com marolas contínuas e inquietas. O horizonte líquido era infinito, não era possível que nosso planeta tivesse o nome inadequado de Terra. O som lambe os ouvidos e acalma. Quando vi a água deslizar sobre a areia fina, a Rádio Neural me lembrou de uma canção interpretada por Ney Matogrosso: “o mar passa saborosamente a língua na areia...”. O mar é tudo o que os poetas e cronistas disseram; aliado a isso, a companhia de meu querido amigo dividindo o som das ondinhas e de nossas vozes. Chuva? Tempo “feio”? Momentos como esse transcendem picuinhas climáticas.

Andamos até onde o rio Tramandaí deságua no oceano Atlântico. A “última parte” do rio é rasa, pescadores ficam dentro dele com água até a cintura, no máximo. Um desfile de redes sendo abertas e senhores jogando uma estranha rede em formato cônico amarrada em um grosso bambu. Abordo um deles, que me explica que está “brincando de coca”. Essa tal coca é jogada inúmeras vezes e captura sardinhas (foi o único peixe que vi sendo pescado) numa quantidade pequena, o que justifica o título de brincadeira dado àquele formato de pescaria.

Pena que a chuva não nos permitiu ser mais livres. Porém minha felicidade estava a poucos palmos de distância. Numa rede, para ser mais exato. Nunca tinha me deitado em uma, por um medo besta de cair. Não me sentia confortável deixando meus pés no ar, sem que me apóiem. O dono da casa me ensinou a deitar em uma e na manhã do segundo dia em Tramandaí (tá bom, seus chatos, Imbé!) pus em prática as lições. Sentar, se soltar, deitar. O frio na barriga foi diretamente proporcional ao prazer de balançar sobre o piso. Tudo embalado por uma música do Leoni que conheci graças ao Inagaki, “Melhor pra mim”. Maldita Rádio Neural! Mais uma pra lista de músicas que me fizeram chorar!

Nos três dias de minha estada, senti algo que não consegui verbalizar ou exprimir. Na caminhada que fizemos, no descascar e fritar das cebolas para o molho do macarrão (Janio é um baita cozinheiro!), quando almoçamos ao som da “Primavera” das Quatro Estações de Vivaldi, quando assistimos “Durval Discos”, quando pacientemente meus anfitriões me ensinaram a jogar lambe-lambe, ao falarmos bobagens necessárias ao nosso bem estar, nas louças lavadas e secas, nas confissões. Eu, que gosto de precisar com retórica mais ou menos apurada tudo o que sinto, mesmo impreciso e superficial, não conseguia falar que espécie de felicidade era aquela que estava sentindo. Achei que fosse o mar e seu feitiço. Ou a morte da saudade que sentia de meus amigos.

Era algo mais. Algo novo. Mas eu estava feliz demais para analisar.

(Um adendo: quase chamo essa segunda parte de “Eu vou fazer um leilão”, graças ao ohrwurm que infectou Janio.)