10.9.07

O nono par

Em 1982, com meus quase falecidos 12 anos, minha professora de Ciências observou minha dificuldade em ver o que ela escrevia no quadro-negro em minha confortável carteira no fundo da sala. Ela me colocou na frente, o que melhorou um pouco minha percepção, mas a sensação "areia nos olhos" continuava. Não precisei dizer nada; o apertar dos olhos, quase me fazendo parecer um personagem do Jim Henson's Shop Creature, definiu a atitude de dona Sandra: chamar meus pais (melhor seria dizer "chamar minha mãe")e fazer com que eu visitasse um oftalmologista.

O sinal de alerta foi acionado: havia a possibilidade de usar óculos. O horror! Já antevia o que poderia acontecer com a minha nulidade social. De um gordo CDF e inofensivo ao coruja balofo com fundos de garrafa na frente dos olhos. Meu mantra antes da consulta era "tomara que eu só precise de um colírio".

No dia da consulta, apesar do doutor ser calmo e ponderado, entrei em pânico. Como assim, vão colocar esse treco em meu olho para "medir a pressão ocular"? E se ele furar meus olhos por engano? Descobri que especialidade médica me causava pavor. Nunca tive medo de agulhas, nem da broca do dentista. Mas o tonômetro... tentei não dar bola, mas o tremor e o bater de dentes foram espontâneos. Bem, como posso ver tudo o que escrevo, creio que o exame foi um sucesso.

Sim, um sucesso, exceto por um detalhe: eu tinha miopia com um pequeno, porém nada desprezível, grau de astigmatismo. "Mas pode ser curado com um colírio, né, doutor?". Ah, minha idiotice (ia escrever "inocência", mas não posso ser bondoso comigo mesmo)! Não escapei de minha primeira armação. Feita de aço, pesada pra burro e marcou minha vida. Não, literalmente marcou. Duas cavidades atrás das orelhas, mais duas onde os aros encostavam em meu crânio. Mesmo assim, o medo de ser alvo das piadinhas foi solapado pela melhor visão que tive desde que comecei a ler. Tudo ficou incrivelmente cristalino; podia ler cartazes a uma distância impensável há pouco mais de um ano, lia sem chupar meu rosto como os velhinhos do Muppet Show. Em menos de dois dias fiz as pazes com esse estranho instrumento com lentes côncavas.

25 anos depois não consigo me ver (sacaram? Ver, olho, óculos... é, ficou uma porcaria. Não sirvo nem como roteirista do Zorra Total) sem óculos. Alguns conhecidos e amigos tecem loas à praticidade das lentes de contato. Se eu tenho medo de um mísero tonômetro , que dirá de algo que preciso enfiar cristalino abaixo! E hoje, graças aos avanços tanto tecnológicos quanto estéticos, os óculos deixaram de ser um treco de metal para suportar as lentes (como meu terceiro par, imortalizado em uma bisonha foto 3X4 colada em minha identidade) para emoldurar o rosto de qualquer um.

Hoje, três graus mais cego - ou com uma ligeira perda de acuidade visual. Tá bom assim, panfletários politicamente corretos? - adquiri mais um par. Quando experimentei o modelo de um marca famosa (essa aqui, caso estejam curiosos) e não senti quase nada em meu rosto, toquei o que restou da depressão atrás de minhas orelhas e sussurrei: "essa é para vocês".



Acredite, me lembrei até da música que ouvi ao colocar os meus primeiros óculos. Essa aqui.

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