22.11.08

Geração Caminho Suave

Meritocracia.
Essa palavra norteia minha vida mesmo antes que eu soubesse seu significado. Quando eu aparentemente ganhava um doce de meus pais, meus avós ou tios, sabia que era uma troca: eu fazia algo que os agradasse, ganhava um prêmio, mas que não houvesse condicionamento pavloviano! Minhas notas na escola eram boas de forma árdua; lendo os caros livros didáticos que minha mãe comprava (que moleza os estudantes têm hoje...), pesquisando em dicionários e enciclopédias na empoeirada biblioteca da cidade (crianças, estou falando do período entre 1980 e 1984), fiz com que meus oito anos no primeiro grau - hoje esse período é de nove anos e é dividido em ensino infantil e ensino fundamental. Acho que é isso mesmo, né? - tivessem valor. Um valor de médio para bom, mas ainda assim valoroso.
Os enpregos e sub-empregos que tive foram todos conquistados pela minha procura e tenacidade. Provavelmente isso aconteceu porque ainda acho que o significado de Q. I. seja quociente intelectual. Meu primeiro emprego com carteira assinada, numa confecção como enfestador (calma, é só o camelo que desenrolava os rolos de jeans para que os moldes de calças fossem cortados) foi conseguido da mesma maneira dos posteriores: currículo na porta da empresa - logo substituído por "currículo na agência de empregos" - , telegrama, entrevista, emprego.
Por ser adepto ferrenho das conquistas por mérito, minhas escolhas erradas pautaram minhas derrotas e as aceitei, primeiro com um muxoxo, depois com uma constatação fria: se estou na merda, foi porque fiz por onde. Não completei o segundo grau? A culpa não foi da falta de apoio, de dinheiro ou por forças divinas que quiseram me castigar: a culpa foi minha, da minha falta de empenho. O emprego que tenho não me provém o que considero justo? Não, a culpa é minha por não saber reinvidicar e mostrar mais empenho. Minhas dívidas não surgiram por causa do crédito que me deram, mas por não saber utilizá-lo. Simples, não?
Mérito. Hoje essa palavra foi escorraçada pelos novos ideólogos do século XXI, graças, em parte, a uma excrescência do final do século passado: as palavras e expressões politicamente corretas.
A idéia, a princípio, era nobre: eliminar expressões racistas e sexistas dos meios acadêmicos e jornalísticos. Perfeito, se a chamada "esquerda", algumas ONG's fundamentalistas e alguns intelectuais não tomassem isso como novo modus operandi mundial, fazendo com que tenhamos medo de chamarmos gordos de gordos, gays de gays, negros de negros, surdos de surdos, cegos de cegos e é melhor eu parar por aqui.
Provando que eles sequer estavam antenados com o mundo que os rodeava (ser contemporâneo não é a principal qualidade de quem quer simplesmente nos dizer o que fazer), tudo o que era discutido teve quase força de lei na mídia por causa do emburrecimento da população. Sim, emburrecimento. O sistema educacional público foi sucateado, ninguém, com exceção de algumas escolas particulares e universidades, consegue mais criar cidadãos com cérebros analíticos. Há um terrível fundamentalismo que cria bitolados em dogmas e paradigmas que não são questionados.
Hoje, ao invés de se tentar resolver a sinuca de bico em que os governos meteram várias gerações de brasileiros, promovendo uma profunda reestruturação da escola pública, preferem simplesmente adotar o ridículo sistema de cotas. Ignora-se o fato da pessoa não ter base educacional em seus anos de ensino fundamental e médio e dá uma vaga em uma universidade graças à pobreza (ops, situação de vulnerabilidade social!) ou pelo fato do camarada ser negro (ops, afrodescendente!).
Mérito? Para que se esforçar em ser bom, ou o melhor que alguem possa ser, se o governo sempre proverá minha mediocridade?
(Pretendia utilizar o título dessa postagem-desabafo em outro contexto; eu e muitos outros de minha geração foram alfabetizados por uma cartilha chamada Caminho Suave e minha intenção era andar calmamente na avenida da memória e dizer coisas sobre a vida sobre outro regime de coisas. Infelizmente tive que ser sarcástico e irônico. Peço desculpas também pelas idéias truncadas e ditas aos borbotões.)

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