2.11.06

As colinas estão vivas - a missão

Locução de Dirceu Rabelo: “Uma Rádio Neural linha dura, batendo de frente com uma banda de nü metal barra pesada! Hoje, na Sessão da Tarde!”.


- “Michelle”, The Beatles – como qualquer ser humano nascido no final da década de 1960 e morador do interior, só conheci os besouros do ritmo (é, ficou horrível mesmo. Quem manda transportar uma piada interna pro blog?) em programas de flashback, e ainda assim com aquelas músicas (você leva “Ob-la-di, ob-la-da” a sério?) que os bêbados estraçalham em videokês, tipo “Let it be”, “Hey Jude”, “The long and widing road” – essa é a canção rainha da embromation society, culpa do Phil Spector e seus violinos. Por muito tempo não entendi o porquê de tanta adoração por caras que tinham a ousadia de cantar “Ob-la-di, ob-la-da” até ouvir “Rubber Soul”. É estranho nunca ter ouvido nada do período chamado beatlemania em minha adolescência, mas de certa forma foi bom. Pude ouvir os ingleses atravessando a porta da histeria e metendo o pé na onda lisérgica (Sgt. Pepper’s, alguém?) fazendo uma ponte confortável para que os fãs não debandassem. É claro que o lado John Lennon sobressai, afinal, ele era o cérebro e a emoção, quase um artesão pop. As faixas “Girl” (aquela... como direi? Aquela sugadinha...), “Run for your life” e “Norwegian Wood” são exemplos clássicos. Só que sou atraído pelas pessoas que se esforçam para não serem totalmente eclipsadas. E Paul McCartney era isso: um cara que queria somente fazer músicas bonitas e assoviáveis porque sabia que daria ao mundo apenas isso. E foi fazendo “apenas isso” que ele concebeu a balada “Michelle”, uma canção de amor como todas deveriam ser, simples e arrebatadora. Como ficar indiferente a alguém que se esforça para dizer meia dúzia de palavras numa língua estrangeira para a mulher que ama?
E falando no Macca...
- “Silly love song”, Paul McCartney – Lennon cuspiu em seu passado, foi viver com Yoko Ono (cá entre nós, ele pode ter sido um pusta compositor, mas não sacava nada de mulher!) e atraiu gente adorável como agentes da CIA e Mark Chapman ao seu redor. A Paul restou apenas criar asas e tentar voar (ok, mais um trocadalho do carilho infame). Ele nunca foi levado a sério, não nos mesmos moldes do seu ex-parceiro de banda, por isso ele optou em ser pop.
Formou os Wings, levou a sua esposa Linda Eastman a tiracolo e compôs um punhado de músicas para bater o pezinho enquanto assoviamos. A minha predileta é “Silly...” por um motivo banal: foi a primeira música onde eu senti o som do baixo em meu peito. Meu Inglês é inexistente (não se iludam, apenas copio o que vejo nas letras que ocasionalmente vejo em revistas e na Internet), o que não me impediu de curtir esse libelo irônico do romântico incurável. Como ele mesmo disse, what’s wrong with that?
- “O beijo e a reza”, Skank – tenho que concordar com alguns críticos: em alguns anos específicos há uma conjugação de fatores (o alinhamento dos astros, o valor das ações da Petrobrás, o ritmo da piracema do tucunaré...) que os transformam em anos memoráveis para a música popular. 1994 é um deles. Álbuns inspirados vindos de toda parte faziam o ouvinte de rádio poperô ir ao nirvana. Dentre os CD’s, um de uma banda de mineiros que curtiam um quase-reaggae, rotulado de dancehall (sei lá o que é isso) em seu segundo trabalho. “Calango” viria a se tornar paradigma de sucesso, haja vista as bandas que copiavam descaradamente o som da banda na época. Um dos poucos discos que venderam mais de 1 milhão de cópias na era do CD (e antes da explosão do MP3) no Brasil, as 11 faixas foram quase todas executadas “nas AM e FM dos elevador”.
Comprei o disco (era uma época propícia financeiramente pra mim) e coloquei pra rodar. Estava muito divertido e dançante; súbito a quarta faixa se apresenta pra mim num sutil riff de guitarra, embalado em uma cama de baixo e bateria mesmerizante. O naipe de metais chorou alegre e em uníssono. Foi aí que a música me pegou: adoro trombones e pistões. Já estava anestesiado quando Samuel Rosa ainda se atreve a declamar uma rara poesia popular, daquelas despidas de pretensão e pompa e recheadas de lirismo. “Me dá um beijo, porque o beijo é uma reza pro marujo que se preza”. Ela agora está junta no meu pódio particular com “Por isso corro demais”. E nunca fiquei tão feliz em ter comprado um CD que valeu cada centavo.
- “A dois passos do paraíso”, Blitz – Final de 1982. O prefeito da cidade teve um arroubo reformista e decidiu urbanizar alguns espaços criando praças e trocando a tubulação de água e esgoto. Para mim e meus irmãos significava uma coisa: montes de terra pra brincar.
Numa ensolarada tarde eu e meus três irmãos resolvemos pegar mangas. Há algumas mangueiras no terreno atrás do hospital Augusto de Oliveira Camargo, antiqüíssimas, que formam uma pequena trilha e são a salvação para os amantes de uma boa manga espada – isso é, quando os mortos de fome deixam os frutos amadurecer. No meio do caminho, as cordilheiras de terra ora roxa, ora avermelhada, que escalávamos com alegria. Chegando perto das árvores, uma visão que nos deixou excitados: morros de terra ainda maiores! Por um instante esquecemos nosso primeiro objetivo e resolvemos escalar nosso Everest.
Nessa época a “escadinha” que simbolizava a ordem de nossos nascimentos era visual e nos postamos em fila indiana na ordem: eu na frente, Andréa logo atrás, depois Kátia e Wagner. Nossas sombras projetadas no chão eram quase personagens independentes. Olhando as sombras me lembrei de uma música e comecei a cantar em voz alta: “Longe de casa há mais de uma semana...”. De repente formamos, sem combinação prévia, um coral: “... tô milhas e milhas distante do meu amor...”. Andamos por todo o trecho de valetas abertas cantando, felizes, e pela primeira e única vez compartilhando de um momento em conjunto.
Há um mês, mais ou menos, estávamos todos juntos de novo por causa do aniversário de uma de minhas sobrinhas (tenho seis... olha, que coincidência!). Como sei que meus irmãos não se sentem muito confortáveis na minha presença me limitei a ficar pouco perto deles enquanto conversavam. Rádio ligado, eu com um copo descartável na mão, ouvindo tanto o burburinho quanto as músicas. Subitamente uma slide guitar soa seguida da voz de Evandro Mesquita. Andréa, Kátia e Wagner silenciam até o momento do refrão, novamente cantado por nós: “Estou a dois passos do paraíso, não sei se vou voltar...”. No final nos juntamos naturalmente. “Nossa, você se lembra daquele dia na mangueira, Sid? Nunca vou esquecer!”, disseram, de uma forma ou de outra, meus três irmãos.
É. Eu também nunca vou esquecer.

1.11.06

Meu pai

“Nei, vai chamar seu pai, o almoço tá pronto”. Esse pedido feito pela minha mãe era comum na minha infância, pois nós sabíamos onde ele estava: no armazém do seu Gentil, tomando uns goles de cachaça. Calçava meus chinelos e ia levantando poeira e cantarolando.
Num desses dias, com cinco anos completos – adiantava-se o mês de setembro – me aproximei da venda, tirei os chinelos para entrar (uma das babaquices típicas desse que vos tecla) e me dirigi a ele, que lia meu pensamento e falava, com sua voz grave: “já vou”. Ato contínuo, ele se virou para um de seus companheiros de bebida e vaticinou, me abraçando (coisa incomum, já que normalmente nem a mão ele me dava): “esse é meu filho! Ele já sabe ler, gente!”. Morto de vergonha, olhando pro piso avermelhado, eu nada dizia enquanto ele punha em minhas mãos a edição do jornal O Estado de S. Paulo do dia e me disse para ler o corpo da manchete, cujo teor não me lembro.
No final da leitura houve um silêncio incrédulo, seguido de tapas doídos em minhas costas e exclamações exageradas. No final, meu pai pede um litro de vinho daqueles rosados e desafia: “quer ver como meu filhão é macho?”, enquanto tirava a rolha e despejava parte do conteúdo em um copo americano.
Meu pai pegou o copo cheio, colocou em minha mão e disse, seco: “bebe”. Com medo que ele me desse um tapa levei a borda até minha boca. Ao experimentar, uma surpresa: era doce. Dulcíssimo. O sabor da uva embebida em calda de açúcar – foi o que me pareceu – envolveu minha língua e meu palato e sorvi de um só gole. Uma exclamação geral de aprovação, seguido de mais um abraço e mais vinho despejado no copo. Eu, que só estava feliz em ter agradado meu pai, não me fiz de rogado e repeti a talagada.
Entre palavras de incentivo e risadas acabei bebendo o litro inteiro. Falei pelos cotovelos – pelo menos para meus padrões -, ria de delclarações simples e o doce da bebida me agradou, inclusive durante meu primeiro arroto público. Ao ver o fim da garrafa ele pediu ao Gentil pra marcar na caderneta e finalmente decidiu ir almoçar.
Ao dar meu primeiro passo, não consegui determinar a distância entre a sola de meu pé e o chão. Meu corpo pendeu para frente, enquanto minha cabeça latejava; súbito, o mundo começou a girar e eu tentava acompanhar o novo ritmo do mundo tropeçando em meu próprio caminhar. Minhas têmporas pulavam e tudo o que eu conseguia fazer era rir e tropeçar, enquanto meu pai, consciente da piada que ele perpetrou, ria como criança.
Chegando em casa, cai-não-cai, minha mãe observou meu estado, horrorizada. Senti que seu primeiro ímpeto foi me bater, tamanho o ódio que vi nos olhos dela. Contudo, ao ver meu estado, que já havia mudado da euforia para a letargia depressiva da dor e ouvindo as gargalhadas do pai, ela entendeu e me estendeu a mão, me levando para debaixo do chuveiro. Eu gemia “eu tô bem, mãe” enquanto ela me banhava. Eu insistia em gemer “eu tô bem, mãe” enquanto ela trocava minha roupa. Quando ela me pôs em minha cama, eu vi o teto girar. Ao fechar os olhos, o mundo todo girou. Definitivamente eu não estava bem. E meu pai ria enquanto minha mãe o repreendia. “Agora ele virou homem”, sacramentou.


Aprendi a jogar pião sozinho. Quando pedi ao meu pai para ensinar, ele apenas disse “não enche”. Tentei interagir com meus vizinhos, mas eles não eram tão divertidos quanto meus amigos imaginários. Um desses estranhos sem nome me ensinou as regras do jogo de bola de gude (burquinha, para nós) e de vez em quando eu me pegava entre alguns meninos e meninas com uma bolinha entre meus dedos.
Num sábado dos meus seis anos meu pai pegou sua caixa de ferramentas e começou a confeccionar algo com madeira; ele tinha um talento para carpintaria nato. Um começo de curiosidade nasceu em mim, mas logo me lembrei como eu era sempre rechaçado, por isso me contive e me ative a brincar num monte de areia com alguns bonequinhos que vinham nos doces de banana.
No dia seguinte, manhãzinha, após o café (e naquele dia havia pão caseiro!) meu pai me abordou com um sorriso e me disse: “toma, fiz pra você”. E o que ele fez foi um carretel de madeira com uma alavanca, as bordas em formato de estrela com 100 metros de linha de pipa, além de uma pipa vermelha de armação de bambu cuidadosamente trabalhada. Abestalhado, agradeci enquanto ele se afastava, indo para o armazém. Brinquei longas 4 horas, observando embevecido a dança da pipa no ar. Meus amigos imaginários foram solenemente esquecidos naquele dia.


No dia 31 de maio de 1990 eu, meus irmãos e meu tio estávamos em uma sala indefinida, sentados em um retângulo de concreto, dentro do hospital Augusto de Oliveira Camargo. Na nossa frente um corpo envolto em bandagens. Um funcionário chegou e pediu que nos aproximássemos. Perto, ele retirou as bandagens que encobriam o rosto. Era meu pai, sereno como se estivesse dormindo, mas com o rosto sem cor.
O choro veio sem convite. Entre lágrimas me lembrei da última semana de vida dele. Uma rotina triste e vergonhosa: o vício da bebida acabou com o homem forte que ele tinha sido, fazendo dele um ser que se arrastava pelo chão após duas doses de cachaça. Ninguém falava nada acintosamente, só os risinhos denunciavam o que meus vizinhos pensavam enquanto eu ou um de meus irmãos o ajudava a voltar pra casa.
Por mais triste que o momento tenha sido, não consegui deixar de pensar: “a morte foi piedosa; os amigos de pinga, não”.


Segundo domingo de setembro. Passeio pela feira, pesquisando preços e observando o movimento quando um senhor judiado pelo tempo me fita firme, como se forçando o córtex cerebral em busca de uma lembrança. Retribuo o olhar esperando a abordagem, que não tarda:
“Escuta, você não é o filho do Zé Trindade?”, pergunta o homem. Não pude conter o sorriso, surpreso, e confirmei. “Caramba, você não mudou nada! E o seu pai, como está?”, retruca, entusiasmado. Ao dizer que há 16 anos ele morreu quem se surpreende é ele, desfiando as memórias. “Seu pai era fortão, trabalhador pra caramba! Que pedreiro bom ele era! A gente trabalhou junto com o Móca!”. E os sinais de exclamação não estão aí à toa.

Tenho quase 40 anos, vida própria, personalidade, ainda que fragmentada, gostos cultivados durante décadas de experiência; ainda assim, ainda sou e serei o filho do Zé Trindade.

6.10.06

A arte de namorar homem

O peso da mudança parlamentar está sob ombros despreparados. Não sabemos legislar mas temos que escolher quem legisle por nós. Teremos que desenvolver uma relação de confiança com homens e mulheres cujo passado não conhecemos plenamente. A tal vida pública do candidato muda dependendo da fonte pesquisada. O cidadão comum (dentre os quais me incluo) não consegue ter acesso pleno à informação porque ou ela é decodificada pelos interesses da mídia no momento – esqueça a tal objetividade, isso é apenas uma palavra bonita usada em propagandas – ou por simples falta de meios de propagação.

Não é justo termos que escolher “o melhor para nosso país” de dois em dois anos apenas vendo e ouvindo o horário eleitoral gratuito (a única fonte de informação para a imensa maioria, quer os intelectuais gostem ou não). A imprensa escrita tem tradição em reportagens investigativas (apesar da censura camuflada como “linha editorial”), mas graças à inexistência de uma cultura de formação de leitores aliada ao preço, os leitores de jornais e revistas se restringem à classe média mais “abonada” – por conta da desigualdade social, qualquer pessoa que ganhe mais de 3000 reais é considerada “bem de vida”.

Quando esse despreparo leva homens e mulheres que eventualmente envolvem-se em casos de corrupção e malversação do bem público, parte da culpa é atribuída ao eleitor. Culpa inescapável, mas que poderia ser evitada se houvesse interesse genuíno em mudar tanto as fontes de informação quanto o sistema político brasileiro. Há a impressão que toda mazela é deixada de propósito “para depois” para que seja usada como combustível para as promessas bianuais: a reforma tributária que nunca encontra consenso, a reforma política que não sai da mente dos analistas políticos, a punição aos crimes do colarinho branco que nunca ultrapassa os muros das renúncias pós-CPI’s.

Não é justo categorizar os políticos, mas não podemos negar que a atual conjuntura é propícia para o aparecimento de bandas podres. Um recurso legítimo como a imunidade parlamentar é utilizada como proteção a atos criminosos e verborragias ofensivas (você acha que Heloísa Helena ou Antonio Carlos Magalhães xingariam com tanta desenvoltura seus desafetos políticos e pessoais se não fosse a imunidade?). Um neófito bem intencionado vê o esquema viciado que ele herdou, e toma duas atitudes: ou entra na dança, pois “as coisas já estavam assim quando eu cheguei” ou briga uma luta com ares quixotescos, onde mantém a integridade inicial mas vai do nada (as comissões de ética, as CPMI’s) pra lugar nenhum (as renúncias e rodízios de pizza).

Rubem Braga chamou a política de “a arte de namorar homem”, graças aos cochichos e abraços entre parlamentares. Essa arte do sussurro ao pé do ouvido infelizmente esconde de nós, principais interessados nas decisões advindas desse falar baixo, as informações necessárias para que depuremos as assembléias e o congresso. Resta ao povo, soberano, ser informado através dos horários eleitorais gratuitos.


Esse desabafo estava sendo escrito antes da eleição e só não foi publicado antes por não conseguir concluir o raciocínio, ainda que torto, entre um atendimento e outro. Esse apêndice está sendo escrito no dia dois de outubro, logo após a confirmação da eleição em segundo turno para presidente. Assistindo a cobertura da TV Bandeirantes e ouvindo a rádio CBN não pude evitar a irritação ao saber quais foram os deputados federias mais votados.

Depois de ler blogs conclamando o voto consciente, da bobagem que é votar nulo ou em branco, ver que a história recente de alguns candidatos não foi levada em consideração (pra não dizer da folha corrida de alguns recém-eleitos) é, no mínimo, frustrante. Quase caio na tentação da simplificação, justificável ao ver homens que foram presos ou renunciaram para escapar da cassação estarem de volta pelo voto popular. Ainda bem que no meio dessa patota há homens e mulheres honrados. Resta a eles continuarem assim, quixotescamente ou não. E aos que sabem o que fizeram com seu voto, resta ser um pouco mais pró-ativos.

Eu ainda acredito no ser humano. Com uma raiva do cacete, mas ainda acredito.

30.9.06

As colinas estão vivas

Diz-me o que ouves e te direi quem és. Esse aforismo adaptado resume a importância da música na vida. Em qualquer vida. Imagine nossos ancestrais batendo em qualquer pedra e apreciando a reverberação. Imagine a matemática a serviço das notas musicais. Imagine o primeiro chato que analisou os timbres que ouvia sob uma ótica subjetiva e publicou suas impressões para que todos apreciassem seu “bom gosto”. Música é ódio e amor.

Todos têm sua lista de favoritos. Nick Hornby encheu seu já polpudo cofrinho escrevendo um livro sobre suas 31 canções. Blogueiros de todas as partes reviraram o baú atrás de melodias e dividiram conosco, ávidos leitores, suas preferências e lembranças. Durante minhas obrigações rotineiras em meu trabalho (o período da tarde, quando guardo os prontuários das pacientes) minha Rádio Neural entra em ação e desencava algumas coisas. Minha vida se ressente da falta de uma trilha sonora, por isso meu cérebro, doravante chamado Rádio Neural (sempre quis dizer isso!) foi, é e será meu iPod. E meu disco rígido separou algumas faixas comentadas:

- Nona Sinfonia, Beethoven – mentira. Um cara como eu, que cresceu ouvindo os programas do Zé Bettio e do Eli Correa, não pode sequer fingir erudição. Só conheci música clássica na idade adulta! Vamos falar sério agora.
- “Meu mundo e nada mais”, Guilherme Arantes – tinha cinco anos e minha mãe assistia uma novela chamada “Anjo Mau”. Para variar, a trama não me apetecia – preferia o meu universo – mas sempre que um piano começava a tocar e a voz aguda anunciava: “quando eu fui ferido/ vi tudo mudar/ das verdades que eu sabia...”, me pegava gravando a letra e cantando a plenos pulmões entre a vegetação rasteira perto de casa. Mal sabia eu o quanto essa música seria importante pra mim.
- “You and I”, Kenny Rogers e Bee Gees – alguém se lembra dos folhetos com letras de músicas em Inglês e suas traduções que as escolas Fisk distribuíam? Eu reservava alguns minutos de minha ida à escola para pegá-los nos idos dos anos 1980. Essa canção açucarada tocava à exaustão nas rádios, em programas do tipo “Toque de amor”, onde um locutor com voz de travesseiro grunhia cartas de ouvintes supostamente apaixonados. E dá-lhe “Total Eclypse of the Heart”, “Making Love”, “Take my Breath Away”...
“You and I” não tinha um grande apelo sentimental pra mim; ela apenas foi a primeira música estrangeira que consegui cantar junto sem apelar pro embromation. Se bem que ao ouvir os irmãos Gibb fazendo vocalise e o senhor Rogers cantando “All the man I am, you are the reason for me, you help me understand...”, não sei bem porquê, eu olhava para um ponto fixo no horizonte e suspirava.
- “Estrada da vida”, Milionário e Zé Rico – ter um pai fã de música sertaneja deixa seqüelas em qualquer ser humano. Ser arrastado a um circo fuleiro para ver Pedro Bento e Zé da Estrada com seus ponchos, ouvir discussões febris sobre as modas de viola de Tião Carreiro e Pardinho, ter vizinhos que pensam que sabem cantar e tocar violão. Se hoje fujo como cachorro em dia de vacina das canções da lista de sucessos (ou, em Português, playlist) de rádios como a Laser FM, devo tudo isso a meu pai e sua obsessão pelo maior sucesso da dupla acima citada. Ver aquele sujeito de óculos escuros com a mão no ouvido à guisa de retorno não ajudou muito, também.
- “Por isso corro demais”, Roberto Carlos – a Jovem Guarda só tocava em programas de música antiga (em Português, flashback) quando eu era moleque. Ah, e na vitrola Sonata de meu tio também. Ele tinha vários LP’s e compactos daquela época e os tocava no último volume. Bem, quem teve uma vitrola portátil deve se lembrar os “dolorosos” decibéis que ela despejava (risinhos contidos). Nenhum dos cantores, bandas, conjuntos ou o que quer que tocasse tinha nome pra mim, apenas as músicas, porque mais do que as letras, mais do que as tais “guitarras” ou a atitude “contestadora”, o que me fez ficar fascinado foi o som do órgão Hammond.
Aquele choro em forma de instrumento musical me causa arrepios até hoje e nenhuma música, IMHO, utilizou o órgão tão bem quanto em “Por isso corro demais”. Numa época que o proclamado Rei (que mania essa de coroar reis e rainhas numa república, não?) escrevia letras verdadeiramente românticas e com conteúdo, quase poesias populares, o LP “Em Ritmo de Aventura” foi uma aula de música popular com alma, e “Por isso...” foi a magnum opus.
- “Nada tanto assim”, Kid Abelha – década de 1980, abertura, anistia, o ocaso da MPB como força musical única. Os cantores populares não souberam transformar sua vertente em estilo, graças à vergonha que tínhamos do nosso produto; eles foram tachados pejorativamente de “bregas”. Nesse vácuo, alguns cariocas e paulistas e suas guitarras cunharam o chamado Rock Brasil, um angu derivado do punk, ska, surf rock... enfim, decidiram que o era legal (ou, em Português, cool) vinha de fora e falava Inglês.
Nada disso impediu a lapidação de alguns hoje clássicos, para o bem e para o mal. Quem viveu essa época não pôde, evidentemente, contextualizar o momento histórico mas se hoje há tolerância à angústia juvenil cantada, muito disso se deve aos Paralamas, Legião Urbana, RPM, Ira, e ao Kid, que conseguiu sintetizar as dúvidas dos jovens perdidos e vítimas da moda da década (ou você acha que calças de popeline verde-limão, tênis multicoloridos e mullets são dignos de figurar na história?). “Eu sei de quase tudo um pouco, e quase tudo mal” vaticina a era do excesso de informação e da progressão continuada.

Façamos o seguinte: assim que eu lembrar de mais, eu escrevo algumas abobrinhas. As colinas estão vivas com o som da música!

29.9.06

Glicerol e ácidos graxos, parte dois

A raiva já passou. Em meu antigo e curto blog fiz um “manifesto” sobre a cultura da magreza que grassa a sociedade. Foi escrito com raiva e não me dou bem com ela, sabe? Costumo perder o controle. Bem, vamos começar do zero.

Sou um cara obeso desde que me conheço. Uma criança gordinha (nunca dei a entender, mas odiava quando me chamavam de “fofinho”. Hoje, dependendo de quem diga, eu curto. Vai entender...), meio desligada e feliz. Não era do tipo glutão, nunca fui. A dieta de minha família era frugal: chá ou café de manhã, pão três ou quatro vezes por semana, arroz, feijão, alguma verdura, carne de frango caipira ou um embutido barato ou um bife. Doces eram raros, graças ao preço proibitivo tanto do açúcar quanto dos doces naquela época (pelo menos para nossos padrões), o que não impedia minha avó de preparar o mais delicioso doce de abóbora do universo.

O estilo de vida – termo utilizado em larga escala hoje, geralmente como muleta sintática – da família Trindade era o habitual dos seres periféricos: trabalho pesado e distâncias percorridas a pé. Como eu não sabia andar de bicicleta, caminhava pela cidade alucinadamente. Pedi aos meus pais para me matricular numa escola no centro da cidade, o que me garantia uma hora de caminhada por dia.

Não gostava muito de esportes. Tentei ser goleiro de futebol de salão nas aulas de Educação Física. Apesar de meu esforço não consegui ser contaminado pelo vírus ludopédico. As corridas em volta da escola (em Português, Cooper. E não me venham com aquela piadinha do Cooper feito!) eram uma caceteação sem fim. Não tanto pela corrida em si, mas pelas frases de apoio de meus colegas, mimos do quilate de “olha o toucinho correndo!”, “balança a banha, gordo!”.

Meus empregos foram braçais até 2005. Muito esforço físico e suor desprendidos em troca de meu salário. A frase bíblica do pão em troca da transpiração foi literalmente vivida por meus colegas e por mim. Ou seja, sou a antítese do estereótipo do gordo sedentário. Não sou sedentário. Mas sou gordo.

Não serei estúpido para negar os malefícios da obesidade. Há doenças demais ligadas a ela para que isso seja ignorado. O que me incomoda é o uso estético da “boa forma”. Os gordos foram alojados em guetos engraçadinhos ou fisicamente incapazes; a eles (ou a nós) são reservados os procedimentos cirúrgicos invasivos, as dietas de 1200 calorias e os coquetéis de benzodiazepínicos.

O que me incomoda é a simplificação. Falar que “obesidade é doença” é renegar a multiplicidade humana apenas porque alguns acham a gordura feia. Quem tiver problemas de saúde com o excesso de gordura tem que tratar. Quem for gordo e quiser emagrecer, que apele para os exercícios, dietas e diazepams da vida. Analisem antes de rotular.

Agora com licença. Se somos o que comemos, hoje eu serei uma pizza quatro queijos regada com suco de caju!

28.9.06

Esse coqueiro que dá manga...

A infância é chamada por alguns otimistas de a era da inocência por razões várias que vão desde as constatações sem aparas da realidade que nos cerca que só um petiz pode fazer até o sorriso que uma criança dá ao subir e descer em uma gangorra. Ultimamente algumas crianças não mais agem como tais, haja vista a profusão de informação a que todos somos submetidos. É até engraçado ver crianças com sonhos de consumo adolescentes; só não é mais hilário por que em algumas situações isso não tem a menor graça.

Dia desses estava recordando o pouco que me vinha à mente sobre esse período de minha vida, imaginando se alguém entre os, digamos, 3 e 10 anos se comportaria assim. Moleque gordo, algo solitário, cuja única companhia constante era a imaginação. A tevê mostrava suas garras naquele início de década - 1970 - mas eu só tinha olhos para meus desenhos favoritos (a saber: Pica-pau, Pernalonga, Tom & Jerry e os sortidos da Hanna-Barbera) e Vila Sésamo, onde aprendi a ler aos 4 anos, junto com diversos futuros colegas de classe. Novelas? Odiava, principalmente as de época (quando minha mãe e minha avó se acotovelavam para ver A Moreninha eu fugia para a rua ou pro matagal onde hoje é a Vila Costa e Silva). Não gostava do que os outros moleques diziam e como eles agiam, por isso me refugiava em meus enredos fictícios e trilhas sonoras cantadas a plenos pulmões.

Hoje não conheço meus vizinhos (fico puto quando meus irmãos, que adquiriram o hábito de falar de tudo e de todos sem critério, começam a falar de algum senhor Fulano ou senhora Sicrano e, vendo que eu não ligo o nome à pessoa, vociferam: mas você cresceu aqui e não conhece?) e os outrora moleques hoje são estranhos que me chamam pelo nome ou pelo diminutivo familiar - Nei, pra quem não sabe. Alguns deles já morreram graças a algo que só me dei conta que existia aos meus 15 anos: as drogas.

Pode parecer estranho, mas a tal curiosidade infantil e adolescente no que diz respeito a substâncias ilícitas não me atingiu. Meu mundo era o que os jornais velhos que lia (censurados, vim saber anos mais tarde), os livros que minhas professoras me davam e os bordões dos desenhos que assistia me mostravam, e eu interpretava esse mundo limitado e pueril no transe meditativo de minha fértil imaginação.

Bem, eu já conhecia o álcool, graças aos espetáculos que meu pai dava quando bebia e ao litro de vinho licoroso que fui obrigado a beber aos cinco anos, só pra meu pai dizer que "tinha um filho macho e que já sabia ler". Hoje eu e as bebidas alcoólicas mantemos uma relação distante (bem distante, aliás. Costumo dizer que se as cervejarias dependessem de mim, estariam fritas em banha de porco). Cigarros, claro, embora eu não achasse que era uma droga, graças a glamourização (ou seria glamurização?) que as propagandas propagavam (acreditem, seres politicamente corretos, veiculavam propaganda de cigarros - principalmente Arizona, Charm e Chanceller - nos intervalos dos desenhos). Lógico que após experimentar a coisa aos 15 anos e ficar com gosto de esgoto em minha boca por dois dias, me perguntei qual a real utilidade em inalar essa porcaria.

Mas as outras drogas? Só fui conhecer a maconha aos 15, ao ver alguns daqueles estranhos que me chamavam pelo nome fumando um troço enrolado em papel de pão, exalando um odor estranhíssimo e me convidando pra "dar um tapinha". Ao dizer que não fumava, eles retrucaram: "mas esse você vai fumar e se amarrar". Como vi que todos riam sem motivo aparente de qualquer coisa, resolvi sair dali e nem sequer dar o tal tapinha.

Quando completei a maioridade, em 1987, ouvi pela primeira vez a palavra "overdose", logo quando descobri o rock'n'roll e a black music (só pra reforçar, cresci ouvindo rádio AM, Zé Bettio e música brega). Mergulhei na única fonte de informação confiável na era pré-Internet (não que a grande rede seja confiável, mas...): a biblioteca. Pelo menos deu pra ver o jeitão dos tais piscotrópicos.

Infelizmente nessa época muitos ligavam as drogas a uma atitude contestadora, uma espécie de Woodstock com atraso de décadas. Muitas pessoas usavam Aldous Huxley como desculpa, dizendo que maconha, cocaína e afins abriam as portas da percepção (que original, né?) e afirmavam que caras como eram um bando de idiotas. Maldita era yuppie!

Usavam os mais variados exemplos de como as drogas facilitavam o processo criativo: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Alan Moore, até Shakeaspeare. Não sei bem porquê ninguém mencionava que esses produtos eram ilegais, causavam prisões, mortes, danos físicos e psicológicos...

Bem, estou muito bem assim. Sou careta, minha imaginação é comum (agora dá pra entender de onde o senhor Moore tirou inspiração pra escrever algo tão torturante e voraz quanto Watchmen. Haxixe causa delírios psicóticos!) e continuo a desconhecer os tão falados pontos de tráfico de meu bairro. Mas às vezes penso: se eu tivesse sucumbido ao canto da sereia psicodélica, estaria eu preparando bananada de goiaba como o Gil?

(Republicação vinda de meu antigo e curto blog, Lentes Adiposas)

22.9.06

Tu sei un attimo senza fine

Sentado numa banqueta, o homem olha a festa ao seu redor. Os convidados e seus filhos chegando, os amigos o cumprimentando, apesar do aniversariante não ser ele. Ao longe, duas amigas o observam enquanto sobem as escadas que dão acesso à laje e notam seu semblante calmo. De repente ele se recosta numa árvore e fecha os olhos candidamente.

A mulher dele pede ao filho mais velho que acenda a churrasqueira e depois pegue o bolo na geladeira enquanto vai chamar seu companheiro adormecido. Ela não deixa de notar o rosto calmo de quem está dormindo. Ao tocá-lo, ele pende em direção ao chão, sem reação. Ele está morto.


Essa história foi contada por uma de minhas colegas, enquanto os clichês recorrentes eram ditos (“pra morrer basta estar vivo”, “Deus sabe o que faz”, essas coisas). Dentre as coisas faladas, uma citação de uma neta do finado ficou gravada: “Deus é ruim”.

A vida é algo tão palpável que a perspectiva de algo tão misterioso quanto inevitável quanto a morte é, no mínimo, angustiante. Nós, que temos a percepção da perda, raramente nos conformamos com um fim tão definitivo e criamos oásis de conforto material ou espiritual ou chafurdamos no mar da autopiedade e das psicoses.

Há uma teoria de boteco (e se não for, perdoem-me; é que eu a ouvi em um. A propósito, eu não bebo nada alcoólico, só faço contatos sociais tardios entre um refrigerante e um amendoim) que proclama: os assassinos em série (ou, em bom Português, serial killers) querem com suas atrocidades saciar a morte com sangue que não seja o deles. Ou seja, tratam a morte como uma entidade que precisa de sacrifícios.

De outro lado, estão os que chamamos de “normais”; os que criam deuses, teorias criacionistas ou evolucionistas, crêem nos paraísos pós-morte, em carmas cíclicos e na reencarnação. Seja qual for a crença, todos usam como modelos o mundo que conhecemos para que a idéia do fim definitivo seja palatável às mentes comuns.

Não vou negar a angústia que a falta permanente de uma pessoa causa. Perdi minha mãe de uma forma brutal e estúpida e só eu sei o que me corroeu. Porém após a letargia veio em mim uma curiosa epifania: ela não foi o único ser humano que morreu naquele dia. O que senti foi sentido, com maior ou menor intensidade, por outras pessoas. A morte não fez isso para castigar. Morremos porque temos um “prazo de garantia”.

De castigo divino a vilã de filme de terror adolescente (a série Premonição), poucos foram os que viram a morte como o que ela realmente é: parte da tapeçaria da vida. Para entregar de vez minha cultura popular, me lembro de uma minissérie em quadrinhos de Neil Gaiman: “Morte: o Grande Momento da Vida”. Nela, o escritor inglês, com o auxílio luxuoso de Chris Bachalo pré-fama, narra o acordo que uma mulher fez com a Morte para poupar a vida de seu filho. Gaiman disse que criou a Morte que ele gostaria de encontrar no final.

Quero crer que num momento de extrema lucidez ele vislumbrou o que somos e o que a morte realmente significa. Ela não é uma força de punição divina; não é castigo; ela é o fim necessário ao ciclo eterno e se ela nos causa desconforto, para dizer o mínimo, é porque filosofamos. José Saramago disse numa entrevista: “filosofamos porque morremos”.

Os animais não têm plena consciência do que é a morte, apenas aguardam o fim entre gemidos e estertores. Os elefantes se afastam da manada; gatos e cachorros se escondem em algum canto para gemer em paz; moscas deixam de voar e aguardam. Nós, em nossa ingenuidade, criamos o “céu dos animais”, invejosos que somos. Como eles ousam não sofrer com a perda da vida?

Não é minha intenção dar a última palavra sobre isso. Sei o quanto sou poroso ao que aprendo. Só parei para escrever sobre isso após o relato de minha colega e as mortes de meu amigo Jair e do irmão de meu amigo Adelino. A partida deles foi de certa forma esperada, haja vista o estilo de vida deles (pra ficarmos no popular: eram dois bebuns), mas nem por isso menos chocantes. Há a estranheza pela ausência inicial, depois as lembranças até o esquecimento.

A imortalidade é uma utopia sem sentido. Somos átomos que escrevem, procriam e gravam seus nomes esperando uma eternidade virtual. Pobres de nós, que morremos e sofremos pela certeza da vinda da Boa Senhora. Pobres de nós, que não vivemos cada suspiro, cada raio de sol. Pobres de nós, que não vivemos em paz para que morramos em paz.


O título é um trecho da canção "Senza Fine", interpretada por Gino Paoli.

P.S. : as postagens sem links são um oferecimento de minha irmã. Quando houver links, será um oferecimento de meu cybercafé predileto.