4.9.11

#7


Fuscas sempre disparam alguns gatilhos em minha memória. Num dos famosos casos de falta de pauta de um programa zapeado ao acaso,foi ao ar uma propaganda de 1965, eu acho, do Fusca, ressaltando que ele era “o único carro brasileiro com refrigeração a água”. Graças à referência líquida, dois casos que envolveram eu, meu pai e um Fusca vieram à tona do nada, me fazendo rir como um bocó, sozinho, no sofá da sala.
Eu tinha seis anos. Meu pai, à época um funcionário público que trabalhava no matadouro municipal, conseguiu, sabe-se lá como, a permissão para usar um dos carros da frota da secretaria ao qual ele era subordinado (não me pergunte qual, pois os nomes mudaram muito de 1976 para cá). Um Fusca branco. Feliz e pimpão, meu pai e mais dois amigos saíram do expediente já dirigindo a caranga numa sexta feira com o tanque cheio e algumas ideias na cabeça.
Chegando em casa, meu pai e seus asseclas começaram a se mover num frenesi coletador: pegaram varas de pescar, aquelas de bambu mesmo, uma sacola de lona cheia de tralha indefinida de pesca, um lampião a querosene, herança de meu avô, mais os sanduíches que minha mãe foi quase que obrigada a fazer com os pães que meu pai comprou. Eu, ao longe meio que via a movimentação, meio que brincava com meus “hominhos de doce de banana” (se você nunca os teve é porque não é tão velho quanto eu) no monte de areia. E tudo terminaria ali para mim se não fosse a surpreendente frase do pai no final da arrumação: “Nei, vem com nóis. Cê vai pescar com o pai”.
Surpreso, olhei inquisidor na direção da mãe, que murmurou um indeciso “vai”. Me levantei, fui tomar banho (ordem do pai, e com uma recomendação singela: “vê se não banca o lerdo debaixo do chuveiro!”), coloquei um short, uma camiseta e meu par de chinelos e entrei no banco de trás do Fusca, junto com um dos amigos do pai, um sujeito cujo nome não me lembro mas cheirava à banha que minha vó usava para guardar as carnes de porco que ela tanto gostava de fazer. Não sei porquê, mas ao invés de sentir asco, senti fome.
Na viagem, tentava olhar para a paisagem através do vidro, tentativa frustrada pela escuridão da tarde que já se adiantava. Me contentei com os vultos de casas, árvores e a visão das luzes longínquas acesas nas ruas. Ao chegarmos ao destino, notei que não havia nada que se parecesse com alguns curso de água corrente; apenas um apinhado de casas térreas construídas ao largo de uma extensa rua de terra batida. A voz do meu pai, como um trovão, cortou o breve silêncio após ter desligado o carro (minha nossa, como aquele Fusca era barulhento! Fazia algo tipo rrrruuuuummmm-pocpocpoc-rrrruuuuuummmm... ). 

“Nei, tem pão e suco aqui na sacola, Fica aqui dentro”. Não entendi nada: se o objetivo daquela pequena viagem era uma pescaria, por que diabos eu tinha que ficar trancado ali dentro? Ato contínuo, apareceram uns vultos femininos indistintos que pegaram meu pai e sus amigos pela mão, não sem antes olharem o interior do carro; uma delas falou com uma voz infantilizada incongruente: “olha só que menininho bonitinho!”, soltando uma risada e levando os três adultos para dentro de uma daquelas casas. Fiquei sem ação, tanto pela atitude estranha do meu pai quanto pelo suposto elogio que aquela mulher disparou. 
 
Sem ter muito o que fazer, comi alguns dos sanduíches (mortadela com aquela linguiça fininha, não sei até hoje o nome daquela variedade), me deitei no banco e adormeci profundamente. Quando acordei já estava em casa, ouvindo minha mãe possessa, falando coisas desconexas entre um xingamento e outro. À época, não entendi o porquê daquela reação tão extremada. Só depois de alguns anos e dono de informações mais privilegiadas é que pude entender o significado de algumas daquelas palavras sem nexo: Itatinga. Luz vermelha. Mulheres da vida. Meu pai realmente foi pescar naquele dia.
Ele pegou muitas piranhas.

Três anos depois, o pai ficou incumbido de levar um Fusca azul para uma pessoa não especificada. Esse Fusca estava em uma oficina mecânica perto de casa e esse amigo sem nome pediu ao pai para levar o carro até o bar do Vando, onde eles se encontrariam e se confraternizariam bebendo cachaça e comendo aqueles jesus-me-chama entre uma partida de bocha e outra.
Eu estava quieto em meu canto, eu juro. De repente ele me chama. “Nei! Vem, vou te levar pra passear de carro!”. O pior era a falta de opção; assim como no Brasil desta época, “democracia” era apenas uma palavra no dicionário. Fui. O Fusca azul até estava com bom motor, mas os bancos... o da frente tinha uma mola que insistia em cutucar minha nádega direita. No meio do caminho entre minha casa e o bar do Vando havia mais dois bares. O pai parou nos dois. Bebeu nos dois. E a cada enroscada da embreagem eu temia pela minha vida (tá, parece meio melodramático, mas experimente não cagar nas calças ao ver a distância entre você e uma pata-de-vaca diminuir consideravelmente até que o motorista se lembre que lugar de carro é no asfalto!). Antes do destino final (o bar, não o Elísio!), ele parou bruscamente ao virar na rua Cerqueira César. Ainda sou capaz de sentir o gosto do vidro Blindex quando paro pra lembrar do dia. Bati fortemente o rosto no para-brisa, quase desloquei a coluna. E ele parou para dar uma mijada!
Quando ele desceu, eu imediatamente pulei para o bando de trás e lá fiquei, me lembrando daquele outro Fusca. Ao invés de uma mulher exaltando minha fofura, apareceu o pai no vidro. “O que cê tá fazendo aí, Nei?”. “Vou sentar aqui agora, pai”. “volta pra frente AGORA!”. Bati o recorde mundial de salto em bando de Fusca. E quando enfim chegamos ao maldto bar, quase imitei o papa ao descer do carro.
Depois ainda perguntam porque eu não faço questão de aprender a dirigir...

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